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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

17.09.20

Fases da minha vida ‒ 64

(O meu pessoal no BCP-31)


Luís Alves de Fraga

Presidiram ao conselho administrativo do BCP-31, durante o tempo que por lá estive, três oficiais: dois pára-quedistas, sendo um do Serviço Geral, e o outro, o segundo comandante, na fase final, e um capitão bastante antigo do Serviço Geral da Força Aérea, na fase inicial. Tecnicamente limitavam-se a assinar o que lhes metia na frente, pois nada percebiam de administração. Os tesoureiros foram vários tenentes e um capitão pára-quedistas do Serviço Geral, que, depois de devidamente instruídos, desempenhavam o cargo com cuidado.

 

O restante pessoal, para além de um cabo pára-quedista negro, era todo do Serviço Geral da Força Aérea. Tinha dois cabos amanuenses e três sargentos, que, por irem terminando o tempo da comissão, foram substituídos por outros.

Em abono da verdade, depois de ter sido chefe de contabilidade do Comando da 1.ª Região Aérea, o BCP-31 não passava de uma brincadeira, em termos de trabalho. O que exigia maior atenção era a gestão de fardamento e calçado, que fazia parte das atribuições do tesoureiro, supervisionada por mim.

Foi um quebra-cabeças a ida para o Parque Nacional da Gonrongosa com todos os militares vestidos à paisana, porque em um mês de operação no mato qualquer par de botas ficava incapaz, assim como as calças de ganga ou as camisas. Ora, os regulamentos previam a requisição de fardamento e calçado de campanha e jamais peças de vestuário civil! Em nome da guerra tivemos de tornear dificuldades e impedimentos, sempre sob o meu controle apertado para evitar situações tentadoras e susceptíveis de levar à falta de clareza e transparência.

 

Na contabilidade, que se fazia à mão com auxílio de uma simples máquina de calcular, tive dois sargentos muito capazes, sendo que o segundo se revelou excepcional, de um empenhamento e dedicação fora de qualquer dúvida. Foi o elemento sobre quem me apoiei para levar a cabo toda a liquidação administrativa. Devo deixar aqui o nome dele, porque, daquela experiência para a frente, tanto quanto sei, apegou-se ao serviço administrativo e marcou sempre pela correcção. Hoje, o Belarmino, ao que sei, está reformado.

Para o serviço de correspondência e outro tipo de expediente tive como auxiliar o furriel miliciano Nobre Guedes, neto do engenheiro, que foi o primeiro Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa e embaixador na Alemanha nazi, junto de Hitler.

Era um jovem muito educado, trabalhador e cumpridor, nada exuberante em matéria de simpatias políticas. Uma única vez mostrou ressalvas quanto à pessoa de Francisco Pinto Balsemão, mas muito cautelosas. Não me acompanhou nas tarefas de liquidação do conselho administrativo, porque, sendo miliciano, ao acabar a comissão, optei por não colocar qualquer tipo de entraves ao seu imediato regresso a Portugal.

 

Não sei precisar a data exacta em que, para substituir um outro camarada, se apresentou no conselho um 2.º sargento amanuense cujo nome já esqueci, se calhar por força do que vou contar.

O homem só tinha experiência de trabalho em secções de pessoal, mas, os amanuenses, por definição, dada a ausências de uma formação específica, tinham de estar preparados para todo o tipo de trabalho burocrático, desde o relacionado com recursos humanos até ao auxiliar de administração financeira, passando pelos de apoio logístico. Assim sendo, entendi que o poderia dispensar quando ele tivesse mostrado aquisição de alguns conhecimentos de matriz contabilística. Beneficiava-o e, ter de instruir um outro dava tanto trabalho como instruí-lo. Esta minha decisão assentava num fundamento mais profundo, que passo a explicar.

Ao longo da minha experiência profissional, verifiquei que os incompetentes numa determinada função são, por regra, beneficiados pelas chefias – em especial militares ou da função pública –, porque não os responsabilizam, escolhendo para fazer trabalhos complicados outros que se mostram diligentes e empenhados. Isto é prejudicar os bons em detrimento dos maus. Quem não presta ou aprende a prestar ou não pode sair beneficiado.

 

A verdade é que o tal 2.º sargento não aprendeu nada e sempre se recusou a fazer qualquer esforço nesse sentido. Nunca o autorizei a mudar para a secção de pessoal, como tanto ambicionava. Fui mais longe, só regressou a Portugal no mesmo avião em que eu vim e, querendo ir para a base de Tancos, foi comigo para as velhas instalações de Alfragide para me acompanhar na liquidação do conselho administrativo.

 

Um caso declarado de stress de guerra ocorreu com o cabo pára-quedista negro, que, muito a custo, escrevia à máquina uns ofícios. Era um tipo calado, disciplinado, sorumbático e sempre ajudava alguma coisa.

Em certa altura, já quando a guerrilha actuava próximo da Beira, houve necessidade operacional de levar o tal cabo para reforçar os efectivos de uma companhia de combate. Por lá andou um mês e, uma bela manhã, apresentou-se no conselho administrativo. Foi ocupar a pequena secretária de dactilógrafo que ficara livre à sua espera.

Na pista da base aérea, várias aeronaves faziam experiências de motores, obrigando-os a trabalhar em alta rotação. Claro, o barulho chegava ao conselho administrativo com grande intensidade, dificultando as conversas. Em dado momento, o cabo levantou a cabeça e, com ar desvairado, olhos desorbitados, berrou: «Não façam barulho, calem-se!».

Olhei para ele e percebi, de imediato, que havia ali uma profunda perturbação psíquica; isso determinou a minha atitude:

- Vamos lá ter calma.

Foi como se não me tivesse ouvido. Daí a pouco tornou a fazer exactamente o mesmo. Os restantes militares presentes na sala olharam-me à espera da conveniente e apropriada reacção. Fiz-lhes o sinal convencional, com os lábios e o dedo indicador, de estarem calados. Peguei no telefone e liguei para o gabinete médico mandando vir imediatamente uma equipa com enfermeiro e injecção para o porem a dormir. E foi o que aconteceu. Saiu da sala do conselho administrativo já de maca e em sono profundo. O regresso ao mato tinha-o rebentado pelo lado de dentro da cabeça.

 

Porque estive colocado numa unidade de pára-quedistas, colaborando para o esforço operacional, durante a guerra, uso, com grande orgulho e certa vaidade, os cordões azul ferrete indicativos da Ordem da Militar da Torre e Espada colectiva, que foi atribuída aos batalhões e respectivas guarnições.

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