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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

16.09.20

Fases da minha vida ‒ 63

(Os aproveitamentos na DDSIC)


Luís Alves de Fraga

 

Ainda, talvez, em Junho de 1974, todos os oficiais de Administração Aeronáutica (chamados, na época, de Intendência e Contabilidade, designação de que sempre discordei por ser redutora e induzir em erro sobre a nossa actividade) fomos chamados a Nampula, à delegação da Direcção do Serviço, para tomarmos parte numas jornadas de trabalho.

 

É necessário dizer que o director delegado era um tenente-coronel tido como feroz em termos disciplinares militares, já que, do ponto de vista técnico não era nada de especial. Era oriundo de miliciano e ficara-se pelas continências e sentidos!

Ora, logo de seguida ao 25 de Abril, em Portugal, procedeu-se, nos três ramos das Forças Armadas, ao saneamento dos respectivos quadros, ou seja, à vassourada, mandando para a reserva ou reforma, a maioria dos oficiais sobre quem impendiam graves suspeitas de total adesão ao regime político deposto ou reconhecida incompetência profissional.

Diga-se, para ser verdadeiro, que, na essência, o processo estava correcto, mas, na prática, foi um exercício de oportunismos e de vinganças pessoais ou colectivas. Referindo-me somente ao quadro de Administração Aeronáutica, oportunismo como o de deixar ficar no activo um oficial que se sabia ser filiado na associação de antigos graduados da Mocidade Portuguesa, travestindo-se, de imediato, num acintoso esquerdista de matriz marxista; vingança pessoal como casos de afastamento de oficiais mais antigos que tapavam as vagas para as promoções. Vi um pouco de tudo, ficando com um sabor amargo na boca, pois percebi o alcance de muitas tomadas de decisão seguidas de actos de grande cobardia pessoal, deixando que as culpas de saneamentos selvagens recaíssem sobre aqueles que, na comissão, de acordo com a combinação prévia, guardaram segredo sobre os seus votos.

 

Ora, em concordância com um certo clima de insegurança, o director delegado, em Nampula, sabendo das razões e descontentamentos que sobre si impendiam, transformou-se de lobo em cordeiro, aceitando qualquer proposta sobre qualquer assunto que se quisesse discutir. Essa a razão da convocação para a jornada de trabalho liderada por um capitão, também oriundo de miliciano, que desenvolveu uma estratégia para alcançar fins não confessados.

Foi um dos espectáculos mais tristes que tive oportunidade de assistir. A passividade de toda a gente era total. Aqui e ali, levantei questões que, prontamente eram rebatidas pela verve do meu camarada, aliás, muito bem preparado para enfrentar qualquer oposição. Ele, em si mesmo, foi sempre uma oposição a tudo e a todos, incluindo a ordem estabelecida em todo e qualquer lugar.

Hoje, tenho a certeza, o objectivo daquela pseudo-revolução levada a cabo num ambiente de desconfiança e quase medo – toda a gente desconfiava de toda a gente e, curioso, esteve presente um pobre major (não fazia mal a uma mosca, embora não fosse tecnicamente brilhante – quem o era?) que acabou recebendo a notícia de ter sido saneado em Lisboa – era condicionar o director delegado de modo a este autorizar o embarque do dito capitão para Portugal, sem haver substituto nomeado, deixando o conselho administrativo de que era chefe de contabilidade entregue a si mesmo. E conseguiu. E chegou a tempo de tomar parte activa nos acontecimentos mais importantes no plano militar.

 

Lastimei ver o tenente-coronel – antigo terror da maior parte dos oficiais – reduzido a um papel apagado e submisso. Verifiquei como é que uma mudança de regime dava para, os mais ousados ou ambiciosos, com golpes de rins, saltarem para a primeira fila da ribalta revolucionária.

Começou nesses meses a minha expectativa sobre o que seria, realmente, mais conveniente para a democracia e a liberdade, que se desejava… É que, pior do que qualquer instrumentalização internacional, viesse ela de Washington ou de Moscovo, ia ser o oportunismo de bastantes que desejavam não perder um lugar junto dos decisores. Só isto justifica as cambalhotas acrobáticas a que assisti, mais tarde, em meses… Houve quem tivesse estado num lado e, depois, sem transição mínima, passasse para o outro, diametralmente oposto.

 

Decorridos todos estes anos, ao recordar casos particulares, creio que se poderia escrever um bom tratado sobre o oportunismo e a condição humana. Mas ia ferir gente que já só deseja ver esquecidos esses desvios comportamentais e morrer com algum respeito e dignidade. O decoro leva-me a respeitar-lhes as identidades.