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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.09.20

Fases da minha vida ‒ 61

(Saneando o comandante)


Luís Alves de Fraga

 

O clima social no BCP-31, no mês de Maio e no seguinte, era completamente tenso entre o comandante ‒ tenente-coronel Rua ‒ e o segundo comandante e capitães comandantes de companhia operacionais. Nos restantes oficiais, incluídos os pára-quedistas do Serviço Geral, havia tensões diversas, porque se dividiam entre a lealdade que deviam ao comandante e as oportunidades novas surgidas de um ambiente de insurreição.

Em várias ocasiões, formais e informais, com a presença do segundo comandante ou não, foi, perante mim, exposta a necessidade de se proceder ao saneamento do comandante.

Note-se que a minha experiência de comando ou chefia, comparada com a dos meus camaradas belicamente operacionais, era muito pequena, embora, na maioria dos casos, possuíssemos a mesma antiguidade e formação castrense inicial. Eu tinha, na altura, oito anos de oficial ‒ parecia muito mais ‒ e o segundo comandante, mais ou menos, treze ou quinze, mas com experiência de prisioneiro na Índia e combatente em Angola.

Mas, quando se tratava de equacionar o saneamento do comandante, não estava em jogo a experiência de combate nem a de liderança de guerreiros. Somente se podia e devia jogar com o bom senso e com a percepção das consequências.

 

Devo recordar que, neste ínterim, uma companhia operacional foi chamada à província da Zambézia, onde não havia quaisquer sinais de guerrilha, para recolocar a disciplina numa outra companhia do Exército, cujos graduados ‒ todos europeus e milicianos ‒, enquadrando soldados do recrutamento moçambicano, haviam recusado a manter-se na localidade, exigindo o regresso imediato a Portugal. Ou seja, as tropas de elite não serviam já só para intervir onde o comando-chefe entendesse para se opor à guerrilha, mas também para repor a ordem dentro das próprias fileiras das forças regulares, em especial se estas fossem formadas por militares negros que, e muito bem, queriam salvar a pele de represálias futuras exercidas pelos novos senhores da política.

Sem experiência de comando em combate, eu percepcionei a importância de manter a disciplina dentro do BCP-31. Era só uma questão de bom senso, que não faltava aos meus camaradas, mas que estava embotado pela determinação de afastar aquele comandante do seu posto.

 

Houve, em Nampula, em data que já não sei precisar, mas, presumo, talvez no mês de Julho, uma reunião de todos os delegados do MFA para tomada de posição conjunta sobre um qualquer tema, que se desvaneceu, na poeira do tempo, da minha memória. Lá fui, como era obrigação. Terei estado ausente da Beira dois dias, no máximo, três.

Ao regressar confrontaram-me com uma situação já consumada: os oficiais pára-quedistas do batalhão haviam feito um requerimento colectivo, dirigido ao Chefe do Estado-Maior da Força Aérea (CEMFA), em Lisboa, solicitando a substituição imediata do comandante.

Era CEMFA, ainda nessa altura, o antigo comandante da 3.ª Região Aérea (Moçambique), o general Diogo Neto cujas concepções políticas deixavam, como já tive oportunidade de dizer, muito a desejar. Comandava a Região Aérea um dos poucos oficiais generais progressistas do ramo: o piloto-aviador Rangel de Lima. Não sei, nem nunca soube, que entendimentos houve entre os dois generais, mas o certo é que o tenente-coronel Rua, ao ter conhecimento da situação, recolheu a casa e nunca mais entrou na unidade, regressando a Portugal alguns dias depois. Acabou saindo das tropas pára-quedistas e, anos depois, foi comandante do batalhão da GNR em Évora.

 

A curto espaço de tempo os oficiais pára-quedistas e eu mesmo perceberíamos o alcance da atitude tomada. Não é impunemente que, numa unidade militar de elite, se alimenta uma insubordinação.