Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.09.20

Fases da minha vida ‒ 60

(O MFA na Beira)


Luís Alves de Fraga

 

Do fracasso da saída da coluna militar das Caldas da Rainha tomei conhecimento imediato, mal a notícia foi divulgada via rádio, porque o oficial de comunicações (um alferes miliciano) do batalhão estava instruído para me comunicar qualquer ocorrência política anormal em Lisboa. Todos esperávamos que alguma coisa acontecesse em Portugal.

Mal me tinha sentado na secretária, às sete e meia da manhã do dia 25 de Abril de 1974, entra no espaço do conselho administrativo o alferes das comunicações e disse-me:

‒ Já está. A tropa saiu para a rua!

Farto de falsas esperanças, de acalentar desejos, respondi-lhe:

‒ Nem sabe o que lhe acontece se vem para aqui com boatos!

‒ Não, meu capitão, desta vez, é certo. Ouvi numa rádio da África do Sul!

Liguei para a Emissora do Aero Clube da Beira e pedi que fizessem escuta de todas as emissões e as gravassem para eu ouvir à hora do almoço, quando fosse à cidade.

Foi um desassossego até conseguir, na emissora, escutar as notícias de todo o lado, em inglês, francês e português. Na messe, havia um ar de comprometimento entre os oficiais e as respectivas famílias. A minha mulher foi profética:

‒ Não imaginamos o que vem a seguir, não imaginamos!

 

Nos dias imediatamente posteriores tudo ficou igual tanto no batalhão como na base aérea, como, de um modo geral, nas unidades do Exército. Parecia nada ter acontecido. Cinco ou seis dias depois chegou à Beira, ido de Lisboa, o major Hugo dos Santos, trazendo na bagagem o golpe e a revolução. Foi o despertar dos mágicos!

Logo de seguida aparecem, mandados por Lisboa, uma mais vasta comissão de oficiais comprometidos com o MFA (Movimento das Forças Armadas), do qual recordo perfeitamente o capitão-de-fragata Vítor Crespo. Explicaram muito bem o que tinha sido o 25 de Abril e quais os objectivos dos capitães.

Na sequência criou-se a estrutura do MFA nas tropas com sede na Beira.

No BCP-31, fui eleito, por votação secreta, delegado do MFA da unidade. O comandante convocou-me para o seu gabinete e, depois de me chamar comissário político, perguntou-me quais eram a disposições dadas pelo MFA para a unidade. Pode imaginar-se a minha cara de parvo! A resposta foi óbvia:

‒ O senhor continua a ser o comandante e as ordens chegar-lhe-ão pela competente via hierárquica.

 

Entretanto, no Exército, surgiu (porque não faço a mais remota ideia de como lhe caiu no colo o encargo) como responsável do MFA na Beira, o comandante dos GE (Grupos Especiais) ‒ tropa negra natural de Moçambique com missões muito específicas, com algum tipo de envolvimento com o engenheiro Jorge Jardim, o homem secreto do regime, em África ‒ o nosso conhecido coronel de infantaria Pinto Ferreira, que todos os antigos cadetes da Academia Militar identificavam como o Pinto Peneiras. Para mim, foi outro espanto e um verdadeiro enigma. Ainda hoje, independentemente de, no futuro imediato, o coronel ter feito uma forte afirmação de homem de esquerda, admito que o controlo do MFA nas mãos de tal personagem pode ter sido um excelente golpe de rins do engenheiro Jorge Jardim e dos seus amigos políticos ‒ os do projecto da independência semi-branca de Moçambique ‒ para minimizar estragos. Mais não sei e mais não arrisco.

 

Descrever tudo isto, passados quarenta e seis anos, para além de representar um esforço de memória com risco de omitir pormenores importantes ou alterar a ordem dos acontecimentos, constitui, também, uma impossibilidade. Impossibilidade, pois jamais conseguirei mostrar o desequilíbrio que tudo representou, mesmo para mim que ansiava pela queda do regime fascista, no meio militar, o qual vive segundo tradições e regras, às vezes, incapazes de serem explicadas. Toda a estrutura começou a ser posta em causa, fazendo balançar a disciplina, pilar essencial da operacionalidade das Forças Armadas. Talvez a melhor imagem para se ter uma ideia do que foram aqueles tempos seja a de um surfista a tentar cavalgar as ondas do mar revolto pela força do vento de um tufão tropical.

 

Por mim, no BCP-31, passavam todas as mensagens provenientes da nova estrutura do MFA de Lisboa, de Nampula e da Beira. Realmente, estava a criar-se uma nova hierarquia informal.

Corria o mês de Maio quando foi recebida a ordem, proveniente de Lisboa, de que deixaria de haver distinção entre oficiais do MFA e os outros, os não comprometidos de alguma maneira com o golpe.

Pedi ao comandante do BCP-31, o tenente-coronel Rua, para autorizar a reunião de todos os oficiais da unidade para lhes dar conhecimento da nova indicação estruturante. Autorizou e esteve presente.

Quando anunciei que, a partir daquele momento, todos os oficiais pertenciam ao MFA, ele, peremptório, declarou, textualmente:

‒ Nunca pertenci, não pertenço e não pertencerei ao MFA.

Um tal anúncio, feito perante toda a oficialidade do batalhão, estava a criar um problema, antes do mais, a mim e, depois, a ele. Tive de reagir.

‒ O meu comandante tem toda a razão em dizer que não pertenceu ao MFA, mas, desde que ele foi institucionalizado, o meu comandante, pertence ao MFA.

‒ Já lhe disse e repito ‒ afirmou em tom agressivo e desafiador ‒ não pertenci, não pertenço e não pertencerei.

Percebi, de imediato, que estava aberta a porta para o saneamento político do comandante. Contudo, entendi melhor do que todos os oficiais presentes, que tal atitude numa unidade militar de elite era o pior erro táctico e estratégico para a estabilidade da ordem, já de si, cada vez mais precária das Forças Armadas em Moçambique e, também, ou, talvez, acima de tudo da capacidade de combate, em teatro de guerra. Tomei a decisão ‒ para mim fatal, porque me colocou em posição de desequilíbrio hierárquico informal dentro da unidade ‒ de fazer de conta que estava ultrapassada a provocação do comandante. Mas ela ficou a germinar no seio dos meus camaradas.

 

Poucos dias após estes acontecimentos, o coronel Pinto Ferreira convocou uma reunião nocturna de todos os oficiais do quadro permanente para o grande salão da messe de oficiais do Exército. Estive presente com os capitães pára-quedistas, comandantes das companhias operacionais.

A ordem de trabalhos consistia na distribuição dos oficiais por várias comissões integrantes do MFA. Com camaradas do Exército, passei a fazer parte da comissão de esclarecimento (hoje seria de relações públicas), tendo como objectivo desfazer dúvidas junto da comunicação social e da população em geral. Daqui nasceu o primeiro programa de rádio do MFA, transmitido pela Emissora do Aero Clube da Beira, graças à minha acção junto dos amigos que por lá tinha.

Quando chegou o momento da nomeação para a comissão de desmantelamento da delegação da PIDE/DGS um dos nomes apontado foi o do oficial de operações do batalhão, o major Simão, a quem já me referi anteriormente. De imediato sou rodeado pelos capitães comandantes das companhias operacionais do BCP-31 que manifestam a sua total discordância, por razões que nos pareciam óbvias.

‒ Tens de ser tu a opor-te ‒ diziam-me eles. ‒ És o delegado do MFA.

Confesso, foi um momento difícil para mim. A audiência passava de mais de setenta oficiais. Muitos deles majores e tenentes-coronéis.

Levantei o braço e, elevando a voz, disse:

‒ Os capitães do BCP-31 não estão de acordo com a nomeação do major Simão.

Foi como tivesse rebentado uma granada de mão na sala!

O major Simão, aos gritos, exigiu uma sindicância à sua vida militar, aos seus actos. Mantive-me firme na posição adoptada.

Refez-se a decisão. Foi nomeado um dos capitães pára-quedistas para o cargo. Mas, para o bem e para o mal, a cisão estava consumada no BCP-31, gerando-se desconfianças e tensões. Era preciso limitar os danos de modo a que a rebelião não chegasse às praças e, menos ainda, aos sargentos.

 

O mês de Maio de 1974 foi vivido, na Beira, sob uma catadupa de acontecimentos de toda a ordem.

A comissão de esclarecimento do MFA teve de ir a escolas contar o que se tinha passado e o que poderia vir a acontecer ‒ mero exercício de divagação futurista. Numa das vezes, o major do Exército que integrava a comissão usou da palavra e, para atenuar os ânimos, ousou dizer o maior disparate jamais pensável naquela altura: «O senhor Presidente do Conselho, o Professor Marcello Caetano, estava a par do que se preparava ao nível militar». Não imagino o que lhe terá ditado aquela inventona, o que sei é que saltou logo da assistência um sujeito, muito bem-falante, que, peremptório, perguntou ao oficial:

‒ Está o senhor major a dizer que o antigo comissário nacional da Mocidade Portuguesa, um rematado fascista, sabia e era conivente com o MFA e os seus capitães?

O major ficou momentaneamente gago, o outro capitão do Exército estava pálido como a cal branca de uma parede e eu não sabia onde me havia de meter!

Tentei remediar a situação:

‒ O senhor major quis dizer que, talvez, fosse do conhecimento de Marcello Caetano, à última da hora, os últimos preparativos do golpe. Mas são só suposições, sem qualquer fundamento!

O sujeito tomou a palavra e fez um verdadeiro comício político antifascista. De certa forma, momentaneamente, a comissão de esclarecimento passou à condição de comissão não esclarecida! Assim se demonstrava o improviso resultante de se meter em comissões quem não estava minimamente informado e dentro do espírito do golpe militar.

Mas, o pior de tudo é que eu havia avisado os meus amigos da Emissora para estarem presentes e gravar a sessão. Quis convencê-los a não mandar para o ar a intervenção do major e tudo o que se lhe seguira. Respondeu-me um meu amigo:

‒ Então o capitão quer fazer censura, quando toda a vida lutou contra ela?! E, ainda por cima, censurar uma pergunta e um esclarecimento feitos pelo irmão do José Afonso?

Fiquei siderado. Que fosse para o ar o que se disse, foi a minha única resposta. Todavia, fiz sentir ao coronel Pinto Ferreira, que assim, daquela maneira, não podiam fazer-se sessões de esclarecimento.

A comissão foi refeita, passando a integrá-la somente oficiais identificados com o espírito do MFA.

 

Em termos de esclarecimento político o que me deu mais gozo, nesse mês de Maio e começo de Junho, foram as aulas de ideologias políticas que leccionei a sargentos e oficiais, na messe da Força Aérea, a pedido dos mesmos. Julgo que ainda andam por aí os apontamentos compilados por um deles!

 

1 comentário

Comentar post