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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

21.04.20

Fases da minha vida – 6

(Uma estranha figura)


Luís Alves de Fraga

 

Por muito que tenha sido desafiante e encantadora a minha entrada nos Pupilos do Exército, por muito que os condiscípulos do meu tempo e de todos os tempos teçam maravilhas sobre a nossa vivência, a verdade é bem diferente, se quisermos ser completamente honestos.

Realmente, o internato, a nova ordem de vida, o confinamento às paredes do Instituto, a rudeza de tratamento dos alunos mais velhos para connosco, os putos, abria, no mínimo, um desconforto dentro de nós que, em algum momento do dia, vinha tomar conta da nossa mente e gerar aquilo que, diz-se, só há na língua e natureza dos Portugueses: saudade. Às vezes, nem se sabia bem de quê se tinha saudade! Mas ela estava lá e uma certeza foi sendo marcada dentro de nós ‒ de mim: havia que saber viver com essa mazela, transformando-a nisso mesmo: uma mazela tratável de alguma forma!

 

Encontrei a panaceia para o meu mal através do exemplo do meu comandante de pelotão: ir até à capela dos Castros, nos claustros do velho convento, e rezar. Limitava-me a, depois do jantar, passar por lá e orar, da forma aprendida na catequese. Havia, no largo espaço por trás do altar, um armário com livros e ‒ não me recordo como ‒ consegui ler um deles, pequeno em volume, sobre a vida de S. João de Deus. Fiquei deveras impressionado com a personalidade do santo e com a dedicação aos doentes. Isso foi fundamental para aceitar como rumo de vida uma atitude mais cristã e católica no meu dia-a-dia nos Pupilos do Exército.

 

Mas, ligado à Igreja Católica, no Instituto, estava a figura do tenente-capelão Padre Ruy Corrêa Leal ‒ grafado exactamente assim! ‒, filho do general Corrêa Leal, antigo atirador de esgrima, na altura responsável pelo desporto nacional e, creio, pelas representações olímpicas do nosso país.

Era um jovem sacerdote ‒ presumo que ainda não teria trinta anos ‒ sendo uma vocação tardia, pois entrara para o seminário maior por já ter completado o liceu. Como mais tarde pude confirmar, pertencia à clique de apoio do cardeal-patriarca de Lisboa, o salazarista Manuel Gonçalves Cerejeira. Percebia-se, facilmente, que estava fora do seu meio; nas aulas de Moral apresentava exemplos de gente de um nível social muito, mas mesmo muito distante daquele ao qual pertencia a maioria esmagadora dos alunos. Relacionava-se com as senhoras infantas de Portugal, com a condessa, a baronesa e mais não me lembro quem. Era um menino queque como se dizia na data.

Sem qualquer tipo de juízo de valor, limitando-me a dizer o que todos nós víamos, tinha gestos e tiques, aqui e ali, amaneirados.

 

Porque eu era praticante assíduo da capela, o capelão adoptou-me como fiel católico à semelhança do que fazia a mais outros dos alunos frequentadores do rezar o terço após o jantar. Esse facto valia para nós, os mais constantes católicos do Instituto, o epíteto de bufos do padre. Isso incomodou-me até ao meu quarto ano de frequência dos Pupilos, depois já estava suficientemente crescido e antigo na Casa para não mais dar importância a tais arremetidas verbais. Aliás, no final do 1.º ano de Contabilistas (o equivalente ao 10.º de escolaridade) o Padre Ruy propôs-nos, a um pequeno núcleo, a fundação de uma delegação da Conferência de S. Vicente de Paulo, sendo que o nosso campo de actuação seria o do antigo e paupérrimo Bairro do Calhau, bem por trás do palácio da Casa de Fronteira. Fui apontado para o cargo de vice-presidente da dita delegação.

Guardarei para mais tarde descrever o que era e como funcionava a Conferência e de como foi dissolvente de práticas católicas, em alguns de nós, a acção hipoteticamente moral do capelão. Lá irei, lá irei, não pelo prazer de maldizer nem de justificar a minha postura perante a Igreja, mas tão-só de mostrar como um pseudo educador e formador de comportamentos gerou a necessidade de reverter princípios, orientando-os para objectivos bem mais práticos e mais valorosos.

 

Agora, julgo, é preciso deixar bem esclarecido, segundo, está bem de ver, a minha opinião, aquilo a que se chamava bufaria.

Em sete anos de convivência com o capelão nunca ele me perguntou, em circunstância alguma, por informações sobre os meus condiscípulos, nem eu lhos dava se a tal se atrevesse. Mas nunca, repito, nunca houve qualquer tipo de sondagem. Também não me consta que o tenha feito a outros dos restantes alunos católicos e que mais intimidade tinham comigo. Assim, a questão da bufaria só se pode colocar de uma de duas maneiras, separadas ou em conjunto, e que passo a explicar.

Antes porém, devo esclarecer que a minha dedução é feita hoje ‒ e nunca me passou pela cabeça nos meus tempos de jovem ‒ com base na experiência de vida adquirida no contacto com as mais estranhas formas de comportamentos do ser humano.

 

As tais duas maneiras, que posso avançar para justificar a nossa suspeita da existência de bufaria, são as seguintes: uma, as conversas tidas pelo padre-capelão com os oficiais instrutores e professores, que lhe relatavam um ou outro episódio do nosso comportamento, levando-o ao conhecimento daquilo que julgávamos nunca poderia chegar-lhe aos ouvidos, porque passado noutros âmbitos; outra, bem mais grave e mais astuta, terá ocorrido por haver condiscípulos que, sem grande formação moral e, menos ainda, católica, usavam o confessionário ‒ onde iam raras vezes ‒ para se queixarem de alguma coisa ou de alguém. Depois, porque para eles a confissão não tinha valor de sacramento, mas sim valor de instrumento de vingança, para, delatando comportamentos ou, pior, distorcendo realidades, por não serem identificáveis como acólitos do padre, se calhar, porem a circular a ideia da bufaria de modo a preservarem-se de qualquer suspeita.

A Santa Inquisição viveu, quase sempre, de denúncias feitas por invejosos e traumatizados, cobardes e traidores; o mesmo se podia dizer da PIDE/DGS. Hoje sabemos que foi assim. Qual a razão para ser diferente no Instituto dos Pupilos do Exército do meu tempo?