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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

08.09.20

Fases da minha vida ‒ 59

(Preparando o 25 de Abril)


Luís Alves de Fraga

 

Não posso precisar com exactidão qual o mês, mas entre Julho e Novembro de 1973, de repente, foi recebida ordem, no comando do BCP-31, para fazer marchar para a região da Gorongosa a companhia operacional que estava em repouso. Sabia-se de fonte segura que a FRELIMO introduzira grupos de guerrilheiros na região facto que iria afectar em muito a grande fonte de rendimento que aquele parque natural constituía para Moçambique. Milionários de todo o mundo vinham caçar animais selvagens, sob vigilância apropriada, pagando para isso verdadeiras fortunas. A guerrilha tinha de ser erradicada ‒ acção previamente conhecida como impossível ‒ ou limitada para não deixar rasto que afastasse o turismo. Ora, para não causar embaraços, os pára-quedistas tinham de trajar à paisana e levar rações de combate até se definirem as normas a adoptar. Tudo isto representava um novo desafio do ponto de vista logístico para o conselho administrativo. Improvisando, consegui ultrapassar dificuldades legais e administrativas.

 

Ora, aí por volta do mês de Outubro ‒ não recordo com precisão ‒ fui contactado por um capitão do Serviço de Administração Militar, colocado numa das unidades do Exército na Beira, para me entregar um abaixo-assinado para eu fazer circular no BCP-31.

Tratava-se da contestação do Decreto-Lei n.º 353/73, de 13 de Julho, no qual se dispunha o ingresso nas diferentes armas (infantaria, cavalaria, artilharia), no quadro permanente do Exército, de todos os tenentes ou capitães milicianos que quisessem e fossem aprovados num curso rápido na Academia Militar, obstaculizando a normal progressão na carreira daqueles que, em primeira instância, haviam feito os cursos como jovens cadetes. Tal diploma era a resposta à falta de capitães para comandar as companhias em operações nos teatros de guerra em África. O sistema começava a balançar e a ceder perante a longevidade do conflito.

Mas esta contestação, sendo de matriz corporativa, era, também, muito mais do que corporativa, a prova de que a guerrilha estava a conseguir os seus objectivos: desgastar física, material e psicologicamente as Forças Armadas e a nação. Foi, evidentemente, a espoleta para detonar a tomada de consciência daquilo que a guerra estava a fazer a Portugal ou daquilo que a teimosia governamental estava a fazer aos Portugueses.

 

Introduzi o documento na unidade e foi combinado entre os capitães do quadro permanente, oriundos da Academia Militar ‒ eu incluído ‒ dar conhecimento ao comandante, muito embora se desconfiasse da sua reacção. Afirmou-se ignorante do que se passava, ficando nós com liberdade para assinar. Foi o que fizemos. E lá está a minha assinatura num dos anexos a um dos livros do Otelo Saraiva de Carvalho sobre os antecedentes do 25 de Abril.

Posteriormente houve mais documentos provenientes das reuniões dos capitães em Lisboa, sendo que alguns chegaram ao BCP-31 e outros não, mas a reacção já foi diferente, por indicação de oficiais do Regimento, em Tancos, que desaconselhavam a vinculação. De qualquer modo, havia a espectativa e nunca deixei de merecer a confiança dos meus camaradas operacionais.

 

Na passagem do ano de 1973 para 1974, depois dos acontecimentos na Beira e já aqui relatados, ali pelo início do mês de Fevereiro, começou a gerar-se no seio dos oficiais pára-quedistas e nos da Força Aérea residentes na messe da Beira, um clima de dúvida sobre tudo o que se passava. Esperava-se qualquer coisa. E foi o que aconteceu.

A 22 de Fevereiro saiu para as bancas o livro da autoria do general Spínola Portugal e o Futuro. A grande divulgação foi feita através de longos extractos transcritos no Expresso.

Foi a bomba que faltava. Na messe, ao serão, entre cervejas, cafés e uísques, conversávamos sobre a situação de guerra e, quase todos, íamos concluindo ser insustentável por muito mais tempo a campanha. Era essa, afinal, a conclusão de um general que começara a ter experiência de guerra quando ainda era tenente-coronel, em Angola, e, depois foi comandante-chefe no pior teatro de operações de então: a Guiné.

A demissão de Spínola e Costa Gomes, seguida da sessão de cumprimentos e apoio a Marcello Caetano levada a cabo por todos os oficiais-generais das Forças Armadas, foram sentidas como um acto de traição para quem combatia em África.

Verdade seja, as opiniões dos oficiais da Força Aérea colocados na Beira não era uniforme; havia três tipos de reacção: os que não se manifestavam, em especial os técnicos e oriundos de sargentos, os que vagamente emitiam opiniões não comprometedoras e, por fim, os que ansiavam por uma situação que pusesse fim à guerra, ainda que à custa da queda do regime político, mas sem molestar uma solução onde os europeus tivessem a palavra decisiva sobre as colónias.

 

Já depois do golpe falhado das Caldas da Rainha, segundo creio, pernoitou na messe da Beira o general-comandante da Região Aérea, Diogo Neto, que, indubitavelmente, era um operacional de mão cheia ‒ continuava a voar o Fiat G91 e a tomar parte em acções de combate. Gostava de ficar à conversa com os oficiais no bar, durante o serão, enquanto beberricava um ou vários uísques.

Ora, estando eu presente, entre outros capitães, já passava da meia-noite, a conversa foi cair na necessidade de se encontrar uma solução para a guerra e, depois de considerandos descabidos e despropositados, o general teve a seguinte frase, que jamais esqueci: «Vocês [referia-se a nós, capitães] vejam lá no que se metem, porque o que o Exército pretende é empalmar a Força Aérea!»

Fiquei sem palavras. Que raio de entendimento tinha o general responsável pela Força Aérea em Moçambique da situação política nacional?

Ora, se a este nível se pensava deste modo, do que seriam os capitães capazes de pensar? Fiquei seriamente apreensivo, tanto mais que, em data anterior ou posterior, mas antes do dia 25 de Abril, falando com um capitão pára-quedista e explicando como conduziria, em linhas gerais, um golpe militar em Lisboa, ele observou que eu sabia muito de como neutralizar o inimigo!

Se um general confundia objectivos políticos com tricas corporativas e um capitão altamente operacional se deixava impressionar perante a descrição sintética de como fazer o assalto ao poder, seria que não estaríamos todos a cair em mais uma aventura inconsequente?

A minha dúvida fundamentava-se no pouco que, então, sabia do falhanço das Caldas da Rainha. Aquilo parecia-me do maior amadorismo que se possa imaginar. E, depois, enquanto se esperava pelo 25 de Abril ‒ que nem se sabia se ia haver ‒ tive conhecimento de pormenores quanto ao voluntarismo dos spinolistas que me fizeram duvidar seriamente da idoneidade conspirativa (pensava eu) do general Spínola.

 

Nos serões passados na Emissora do Aero Clube da Beira, entre os meus amigos, não me cansava de mostrar a minha esperança numa mudança breve, que trouxesse alterações para a guerra e para a política nacional. Eles, uns nascidos em Moçambique e outros lá radicados há muitos anos, olhavam-me com a dúvida estampada nos olhos, pois não conseguiam perceber se o futuro lhes traia vantagens ou o contrário. Um ou outro, levado pela juventude ainda presente, alinhava com a minha esperança e entusiasmo. Estávamos todos muito verdes, muito pouco capazes de perceber as dinâmicas das grandes mudanças, que se tornam em revoluções.

Eu ia esperando sem perder a esperança.

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