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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.09.20

Fases da minha vida ‒ 58

(A greve na cidade da Beira)


Luís Alves de Fraga

 

Como referi antes, ao chegarmos à Beira, vindos da viagem a Lourenço Marques, deparámo-nos com um ambiente de agitação inusitado entre a população branca da cidade. De repente, havia-se gerado um clima de quase raiva contra os militares, em especial contra os do Exército.

Dois ou três dias durou essa tensão no ar até se concretizar numa greve dos lojistas da cidade, que decidiram fechar as portas e não vender nada. Atitude algo estranha, por ser pouco inteligente. Mas, vamos ver que tinha um objectivo.

Na zona do Macúti (última parte da cidade, frente à praia, antes de se entrar na estrada que conduz ao aeroporto) ficava a messe dos oficiais do Exército, instalada num edifício pensado para ser hotel. Tinha uma imensa janela de vidro virada para a estrada e nessa sala estava o bar e aposentos de convívio social. De fora via-se o que acontecia lá dentro.

Ora, ainda que os estabelecimentos civis estivessem fechados, como era inevitável, no bar da messe de oficiais do Exército, serviam-se cafés, cervejas, outras bebidas e refrigerantes. Os comerciantes da Beira tinham neste facto o argumento ideal para exigirem solidariedade ‒ uma inapropriada solidariedade ‒ e partiram para o cerco do edifício pedindo que fossem encerradas as actividades do bar. Daqui foi um passo para começarem a ouvir-se as palavras de ordem contra o Exército.

A situação agravou-se logo no primeiro dia, pois os civis não desarmaram e mantiveram a vigilância pela noite fora e pelo dia seguinte.

 

Antes de prosseguir no relato vou dar conta das minhas suspeitas.

Em primeiro lugar, duvido que a morte do casal de fazendeiros se deva à acção de guerrilheiros, porque não estava nos seus hábitos esta forma de actuar, pois era a que punha os colonos brancos de pequena capacidade financeira contra a FRELIMO. Depois, o acontecimento pode dever-se a um assalto de meros ladrões negros ou não. Por fim, pelo resultado que deu, não me espantava que tivesse sido uma acção secreta da PIDE/DGS, para gerar o que veio a acontecer.

Pode perguntar-se, qual a vantagem? Julgo, a resposta é óbvia: preparar a população civil para culpar o Exército e, por arrasto, as Forças Armadas, da incapacidade de suster a guerrilha, que, nesta altura do ano de 1974, há meses actuava, quase impunemente, na região da Gorongosa, a cerca de cem quilómetros da Beira e outros cem de Vila Pery. Era a repetição do que havia acontecido na Índia, em 1961: a culpa da perda do território não recaía sobre o Governo, mas sobre a tropa, que não o havia sabido defender!

Esta última hipótese tem toda a verosimilhança por vários motivos.

Primeiro, era impensável iniciar uma greve de comerciantes numa cidade da dimensão da Beira sem o conhecimento prévio da PIDE/DGS.

Segundo, o silêncio daquela polícia de informação é altamente comprometedor, pois se até controlava os produtos químicos que entravam no porto da Beira (para evitar o fabrico de explosivos), como não saberia, ao menos, de rumores de uma manifestação?

Terceiro (este, bastante melindroso, por causa das pessoas envolvidas), segundo correu na altura, o comandante do BCP-31 terá sido chamado ao comandante da Região Militar Centro de Moçambique, recebendo ordem para, com a companhia operacional em repouso, avançar sobre os manifestantes e dispersá-los. Ter-se-á negado a fazê-lo, argumentando: «Uma companhia de pára-quedistas, se sair para a rua, na cidade da Beira, não deixa pedra sobre pedra». Relacionando esta recusa com as suspeitas que recaíam sobre o comandante (já as referi antes) era fácil admitir que a polícia política estava envolvida nesta manifestação contra o Exército.

 

O problema foi resolvido, no terceiro dia de manifestações, à custa da intervenção da companhia da Polícia Militar, com sede na cidade da Beira. Afinal, bastaram uns disparos feitos para o ar, umas granadas de fumo, umas corridas em cunha sobre a população e tudo se solucionou. Mas a tensão manteve-se latente e também passou por mim.

Como já contei, estava a dar aulas de História, no período da noite, no Colégio Luís de Camões e, na semana seguinte aos acontecimentos relatados, algo sucedeu de inesperado. Aí vai.

 

Nunca gostei de dar aulas com a porta da sala aberta. Não que não se possa ouvir o que digo, mas por duas razões: não quero incomodar os colegas das salas próximas e não gosto de ser espiado… quem quiser ouvir está autorizado a entrar e assistir.

Naquele mês de Janeiro fazia calor, mas a abertura das janelas era suficiente para arejar a sala de aula, por isso, ao entrar, fechei a porta.

Sem me dizer nada, um aluno de vinte e tal anos levanta-se e abre a porta. Naturalmente, continuando a falar, fecho a porta; novamente se levanta e abre a porta; novamente fecho a porta sem interromper o que estava a dizer. O aluno levanta-se e volta à porta, abrindo-a.

Nesse momento interrompi a exposição e, olhando para o aluno, disse-lhe que eu queria a porta da sala de aula fechada. Respondeu-me que estava com calor e queria a porta da sala aberta. Recordei-lhe que o professor era eu e na minha sala fazia-se como eu entendesse. Retorquiu que, como aluno pagava e tinha direito a exigir boas condições para assistir às aulas.

Convidei-o a sair para eu poder fechar a porta e continuar a lição. Informou-me que não saía.

‒ Se o senhor não sai, saio eu!

E saí. Saí e, de imediato, escrevi uma carta à directora do colégio não só contando o que se havia passado como informando-a que, se o aluno não me apresentasse um pedido público e formal de desculpas, eu não voltaria a leccionar.

Nunca recebi resposta e nunca mais voltei ao colégio. A rebelião da população civil da cidade da Beira levava, aqueles que podiam, a tentar um braço de ferro com os militares.

Estava-se perto do Carnaval e Abril vinha a caminho.