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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.09.20

Fases da minha vida ‒ 56

(No colégio Luís de Camões)


Luís Alves de Fraga

 

Em Outubro de 1973, no começo das aulas, recebi o agradável convite para leccionar História aos 6.º e 7.º anos (equivalentes agora aos 10.º e 11.º anos de escolaridade) que, na altura, eram os últimos do ensino secundário. O convite veio do melhor estabelecimento de ensino privado na cidade da Beira: o Colégio Luís de Camões.

A principal proprietária era deputada da Assembleia Nacional, pertencendo à Acção Nacional Popular. O colégio, em termos de instalações, era exemplar e, do ponto de vista do corpo docente reunia o que de melhor se encontrava na Beira. Aliás, fazendo toda a justiça aos professores efectivos do ensino público das antigas colónias, devo acrescentar que esse mesmo ensino beneficiou muito com a presença dos militares e das respectivas famílias durante a guerra, pois muitas esposas de oficiais e sargentos eram docentes habilitadas para a leccionação, tal como bastantes oficiais do quadro permanente. Os que podiam, numa atitude justa e compreensível, para acrescentar aos rendimentos auferidos mensalmente mais alguns patacos, aceitavam ser professores provisórios pelo tempo que pudessem. Os que, por razões diversas, já não tinham vagas nos estabelecimentos de ensino públicos ‒ liceu, escola comercial e industrial ‒ candidatavam-se aos colégios.

No meu caso, não concorri, mas fui convidado, porque a minha mulher era professora no Colégio Luís de Camões e a minha habilitação própria ‒ com reconhecimento oficial ‒ ainda só me permitia ensinar Matemática e Contabilidade; contudo, por força das disciplinas já concluídas na universidade, tinha habilitação suficiente para leccionar História.

 

Por causa desta possibilidade de ver acrescidos os rendimentos mensais, vem a propósito esclarecer um aspecto mal conhecido sobre os dinheiros e as poupanças dos militares durante a guerra colonial.

Independentemente do posto, da situação, do lugar e da unidade, os militares podiam deixar cativo em Portugal até 75% do pagamento auferido ‒ soldo, vencimento ou pré. Ora, enquanto para um soldado colocado numa unidade operacional, normalmente empenhada em operações no mato, abonado de alimentação, fardamento e dormida (nem sempre a melhor!) 25% do parco pré era suficiente, o mesmo acontecendo com os sargentos e oficiais dessas unidades, já tal não ocorria com aqueles que estavam colocados em unidades sediadas em cidades onde havia como gastar, e muito mais, se se fizessem acompanhar da família (sargentos e oficiais); os 25% eram curtos para tudo! Assim, as esposas empregavam-se e eles, quando possível, arranjavam meio de fazer subir os rendimentos. Eram rendimentos que tinham de ficar na respectiva colónia, com excepção de uma pequena parcela ‒ já não recordo quanto, mas irrisória ‒ que podia ser transferida no final da comissão e de uma só vez.

Como oficial de Administração e chefe de contabilidade de uma unidade altamente operacional posso garantir que as poupanças feitas pelos militares eram muito pequenas comparadas com os valores imaginados e maldosamente anunciados nos meios civis. Às vezes, era indigno o que alguns graduados faziam para conseguir colocar em Portugal mais umas dúzias de contos de réis! Eu conto.

Porque muitos bastantes soldados preferiam ficar com todo o seu mísero pagamento mensal e gastá-lo em cervejas e outras diversões, que não vêm ao caso, aquando do seu regresso a Portugal tinham disponibilidade, na quota de transferência, de umas dezenas de contos (talvez vinte mil escudos) e o graduado fazia com ele um negócio: emprestava-lhe o valor dessa disponibilidade contra uma declaração de dívida que seria entregue quando, em Portugal, o soldado pagasse a tal maquia. Não sei, mas desconfio, neste negócio o soldado teria direito a um pequeno bónus final, a título de recompensa.

Como chefe de contabilidade não me podia opor a que os soldados entregassem para transferência as suas poupanças, ainda que desconfiasse da marosca. Mas, por muitos empréstimos que um graduado fizesse a muitos soldados, o certo é que nunca juntaria o suficiente para ficar rico com a guerra.

 

Voltando ao ensino no colégio a verdade é que já conhecia o programa de História, pois havia, dois anos antes, dado explicações privadas a um jovem que somente estava preso por aquela disciplina para completar o curso do liceu. Depois, leccionar a alunos adultos, em horário nocturno ‒ que foi o meu caso ‒, era muitíssimo mais fácil do que prender a atenção de jovens mais novos, como aconteceu no colégio de Santa Bárbara, em Lisboa.

Foi, contudo, de pouca duração esta experiência lectiva, pois em finais de Janeiro de 1973, vi-me forçado a colocar um ultimato à direcção do colégio. A seu tempo contarei esse episódio determinante de uma afirmação de personalidade cívica e militar.

 

É verdade que, com a actividade militar no BCP-31 e na rádio, o tempo não era muito, mas sempre precisei de uma sobrecarga de trabalho para me sentir feliz e ocupado. E a leccionação de História a graus mais avançados do ensino e a gente adulta, pôs-me perante um aspecto fundamental que já suspeitava em mim: o imenso gosto de ensinar e a vocação para o magistério. Foi como se me tivesse desdobrado em duas partes: uma, a militar e, outra, a docência.

Nesse entretanto, mal podia imaginar que, sete anos mais tarde, estaria disposto a trocar a farda de militar pela indumentária académica, facto que poderia ter equivalido a uma nova fase da minha vida.

Lá chegaremos…