Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.09.20

Fases da minha vida ‒ 55

(O comandante do BCP-31)


Luís Alves de Fraga

 

Como já referi, lá mais para trás, o tenente-coronel Moutinho, comandante do BCP-31, poucos meses ficou depois da minha chegada à unidade. Foi substituído pelo tenente-coronel Rua, um homem e militar, quase poderia dizer, nos antípodas do seu antecessor: uma figura fisicamente vulgar, sem qualquer tipo de carisma, sem a pose de um combatente e, menos, ainda, de um pára-quedistas.

Com a saída do comandante, o segundo, o major Catroga Inês, tornou-se no homem popular da unidade, pois estabelecia uma excelente ligação entre os capitães comandantes das companhias operacionais e o comando. Era o homem da acção, o comandante operacional ‒ entenda-se por operacional aquele que tanto estava na sede da unidade, na cidade da Beira, como aquele que, sem obrigação, ia com a companhia empenhada em operações, dando apoio e orientações.

Na mesma altura ganhou visibilidade o major pára-quedista Simão, um tipo que parecia ter sido oriundo de sargento, mas não o era. Um tipo que queria parecer secreto, talvez por ocupar o lugar de oficial de operações, ou seja, aquele que coordenava o batalhão, do ponto de vista do empenhamento em combate, em entendimento com o comandante.

 

O novo comandante pode dizer-se, em linguagem vulgar, entrou com o pé esquerdo na unidade, provavelmente, fruto do seu próprio feitio, que deixava bem à vista dois defeitos terríveis em quem comanda: mentira e irresponsabilidade.

Não foi preciso conversar com os meus camaradas comandantes das companhias operacionais para perceber o comportamento do tenente-coronel Rua; bastou-me ir a despacho duas ou três vezes.

De uma vez, recordo-me, deu ordem para que eu fizesse determinado ofício para satisfazer uma qualquer situação; no dia seguinte, quando lhe apresentei o ofício, perguntou-me quem dera ordem para fazer aquilo. Fiquei com cara de parvo, mas respondi-lhe que havia sido ele, na véspera. Com o maior desplante possível olhou-me e disparou:

‒ Eu?! O senhor está a mentir. É um mentiroso!

O que podia eu fazer em face a tal argumento? Se insistisse, era a minha palavra contra a dele; se me calasse, era aceitar que ele tinha razão. Fiquei-me pelo mas balbuciado em voz baixa.

A cena repetiu-se mais duas ou três vezes até me decidir a procurar os outros capitães e inquirir se já lhes tinha acontecido igual. Claro que sim. E não havia sido nem uma nem duas vezes.

Começámos por desconfiar da sanidade mental do comandante; depois, procurámos o major Catroga Inês e expusemos a situação, ao que nos respondeu ser voz corrente, no regimento, em Tancos, ele ter comportamentos semelhantes para com os subordinados.

Era um mau presságio para ele, para o seu comando e, acima de tudo, para a unidade.

 

Embora os comandantes das companhia operacionais não me contassem tudo o que se passava nas zonas onde eram empenhados, à ordem do comando-chefe de Moçambique, fui sabendo ‒ frase aqui e frase acolá ‒ que a grande fonte de informações para os levar às áreas de combate provinha da delegação da PIDE/DGS na Beira ou de instâncias mais altas.

Nada disto seria motivo para espanto, sabendo, como sabia, que o serviço de informações militares não funcionava com autonomia ou funcionava sequer; as informações para fazer actuar a tropa ‒ fosse ela qual fosse ‒ provinham da famigerada polícia política. Esta foi a maior das fragilidades das Forças Armadas, na minha opinião, na guerra colonial, porque as transformou em mero instrumento de combate do poder político, sem assumirem conscientemente o seu papel a ponto de poderem julgar sobre a justeza da guerra ou da proximidade da derrota ou vitória militares. Para se atingir essa percepção foram necessários bastantes anos e a imensa proximidade do colapso militar na Guiné.

Este distanciamento da recolha, controle e utilização das informações, de certa forma, ilibava as Forças Armadas da condução da guerra, transformando-as no simples carrasco, que não mata, pois, na verdade, é um mero instrumento da justiça. Julgo, hoje, que terá sido por causa deste distanciamento, entre a obtenção das informações e as operações subsequentes, que ainda paira, entre uma grande parte dos combatentes menos politizados, a ideia de que o fim da guerra foi um abandono dos territórios à sua sorte, porque, em especial, o Exército não quis continuar a combater.

Tivesse o serviço de informações militares assumido, logo desde o início o controle da recolha da informação e teria, atempadamente, entendido a extensão da manobra táctica, estratégica e política dos movimentos de libertação bem como dos seus apoios internacionais.

 

Do que nos apercebemos ‒ mais os capitães das companhias operacionais ‒ é que o entendimento do comandante com a PIDE/DGS era notório, frequente ‒ talvez mais do que o esperado e desejado ‒ assim como o do oficial de operações.

Instalou-se, entre nós, uma séria dúvida: o comandante não seria excessivamente familiar com a PIDE/DGS? Havia quem afirmasse que era inspector daquela polícia, o que neguei peremptoriamente, por ser impossível do ponto de vista administrativo.

Mas a desconfiança foi quanto bastou para inquinar um comando e um comandante com uma maneira de ser esquisita e incoerente.

 

Pessoalmente tive a certeza de ter, pelo menos, dois atentos ouvintes das minhas crónicas semanais aos microfones da emissora do Aero Clube da Beira: o comandante do batalhão e o oficial de operações.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.