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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.08.20

Fases da minha vida ‒ 54

(A emissora do Aero Clube da Beira)


Luís Alves de Fraga

 

Ao escrever as recordações que tenho da minha vida pública e profissional faço-o com a declarada intenção de deixar para o futuro ‒ a quem interesse, evidentemente ‒ referências de um tempo e de situações que, quase de certeza, vão cair no esquecimento da maioria daqueles que, agora, são presente e dos que virão depois deles. Haverá um momento em que o meu relato e o de tantos outros representará algo irrepetível e, até, incompreensível. O tema de hoje pertence já a esse passado quase sem equivalente no nosso presente.

 

Em 1973, em Portugal, embora com limitações de horário, já a televisão ocupava um lugar cimeiro no modo de matar serões e tardes de sábados e de domingos. Ir ao cinema e ao teatro começava a ser coisa a entrar em decadência. Via-se televisão, que passava séries, filmes, peças de teatro, documentários e programas educativos para adultos e crianças. A gente ria-se com o cavalo que fala, com a feiticeira e até sabíamos de cor alguns anúncios (Palmas para quê? É um artista português!).

Voltar para a cidade da Beira, em Moçambique, era, deste ponto de vista, recuar ao começo dos anos cinquenta, quando o cinema e o teatro ainda eram os reis da diversão das classes médias urbanas e a rádio fazia companhia a toda a gente nas casas onde havia excedentes financeiros para gastar neste produto cultural supérfluo.

Para se compreender o alcance e a veracidade do que vos conto, recordo que, exactamente no dia do meu embarque para Moçambique ‒ 1 de Abril (dia das mentiras) de 1973 ‒ a Emissora do Aero Clube da Beira, à tarde, colocou no ar um programa bombástico, avisando que, pela primeira vez, ia aterrar na pista do aeroporto um Boeing 747, da TAP, que estava com dificuldades; quem quisesse ver esse monstro voador devia ir rapidamente, de carro, para a aerogare, pois estavam a esgotar-se os lugares no varandim.

Foi uma loucura… os brancos de toda a cidade invadiram o parque de estacionamento automóvel e o edifício, escutando a emissora, à espera do momento em que o 747 se visse nos céus! Claro, ao fim de uma meia hora de espera, o locutor recordou que era o dia das mentiras… Ninguém levou a mal e toda a gente se riu, pois foi uma maneira diferente de passar a tarde desse domingo.

Creio que, com o relato deste episódio, se percebe, hoje, a força da rádio numa sociedade só dependente dos jornais, dos cinemas, dos boatos, do diz que se diz, das coscuvilhices sem outras formas de informação nem distracção.

 

Nunca tinha entrado num estúdio de rádio, num velho estúdio com auditório, com aquário, com técnicos encarregados de manter o sinal no ar, com locutores a trabalhar em directo, com discos de vinil e telefones para contactar com os ouvintes. Tudo era uma novidade para mim! E, posso garantir, tenho muitas saudades dessa rádio que se fazia, sem computadores, mas com mesa de mistura. É uma espécie de bicho que entra em nós e se instala sem pedir licença.

A primeira crónica que li para gravação, porque não estava em estúdio, falei para o microfone que se anichava dentro de uma caixa de cartão. Exactamente! Uma caixa de cartão para abafar o som e não fazer efeitos secundários.

Ao princípio gravava previamente as charlas, mas, ao cabo de poucas semanas, aprendi a ler em directo, usando a linguagem gestual para pedir pausas ‒ cortinas ‒ para respirar, tossicar ou mudar de página.

Depois, como o programa começava em horário nobre ‒ às vinte e uma horas ‒ o responsável, um jovem de vinte e poucos anos, dono de uma agência de publicidade, começou a emitir ao vivo, a partir de montras de lojas que patrocinavam, o que me levou a falar em directo e com espectadores. Foi uma experiência única, que muito me ajudou a vencer os poucos receios que tinha em expor-me perante audiências.

As semanas e os meses seguiam-se e cada vez mais aumentavam as minhas amizades no meio radiofónico da Beira. Por lá conheci o filho do poeta e tradutor de melhor versão portuguesa do If, de Rudyard Kipling, Félix Bermudes, um tipo pedante, que todos os dias lia, aos microfones, uma crónica de faits divers. Nada devia ao pai e pouco à irmã ‒ Cesina Bermudes, médica, activista dos direitos da mulher e defensora da liberdade democrática.

 

Na semana seguinte à famigerada terça-feira, 11 de Setembro de 1973 ‒ data do golpe de Estado levado a cabo pelo general Pinochet, no Chile, derrubando o Presidente da República, Salvador Allende ‒, como de habitual, li a minha crónica de política internacional.

Versava o que se havia passado naquele país da América do Sul. Chamava a atenção para a intervenção da CIA e do Governo dos EUA no golpe, evidenciando o papel de Washington na ocorrência. Numa palavra, despudoradamente, deixei clara a natureza do acontecimento e a certeza da grande repressão que se lhe seguiria tal como, de facto, sucedeu.

Um dia depois, através da direcção da emissora, fui avisado que as minhas crónicas tinham de passar a ser visadas, previamente, pela censura.

 

Assim fiquei até ao dia 25 de Abril de 1974. Tornara-me demasiado notado na pacífica cidade da Beira e, provavelmente, demasiado conhecido por quem colaborava, sem se saber, com a FRELIMO.

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