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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.08.20

Fases da minha vida ‒ 53

(O massacre e a carta)


Luís Alves de Fraga

 

Ao cabo de muito pensar e relacionar acontecimentos passados, estou em crer que a Guerra Colonial ‒ o período entre 1961 e 1974 ‒ não foi mais do que o último estertor das guerras de pacificação colonial resultantes da Conferência de Berlim, quando se impôs o princípio da ocupação efectiva para garantir o direito à presença na costa africana ‒ que foi sempre, desde o século XV, o desejo de Portugal ‒ dos colonos/comerciantes portugueses.

De facto, os desentendimentos generalizados com os povos africanos, só começaram depois de a França, a Inglaterra, a Alemanha e a Bélgica se interessarem pela ocupação de África. Antes, a convivência era pacífica, porque o relacionamento não passava por uma ligação de domínio, mas por uma convivência comercial na qual se procurava encontrar equilíbrios para ambas as partes.

Está claro que, na actualidade, ao ler-se o que acabo de escrever, haverá, de imediato, quem venha levantar a questão do tráfico de escravos feito pelos negreiros portugueses. A questão é complexa e não tem cabimento aqui, para além de bastar recordar dois aspectos: não foram os comerciantes portugueses quem deu início ao comércio esclavagista na África Negra ‒ está provado que foram os árabes/islâmicos, muito antes de as naus e caravelas chegarem à costa ocidental do continente africano, quem introduziu esse comércio hediondo ‒ e os mais desejados produtos mercantis foram o ouro, o marfim, a malagueta, que os potentados africanos, nas zonas de instalação dos portugueses, trocavam por artigos de que careciam.

 

Foi a Revolução Industrial, na Europa, a determinante da intromissão dos poderes europeus na vida e na política dos africanos, nas respectivas áreas de influência. Interferiu com a propriedade da terra, com a produção agrícola local e com as formas tradicionais de pagamento do trabalho. Ao fazer isto, os europeus desarticularam poderes políticos e tradições ancestrais. Nisto é que está a origem dos massacres e das revoltas indígenas, em África. Isto é que determinou, para todos os Estados coloniais, as suas guerras de pacificação. Aqui se encontram as raízes das primeiras campanhas de pacificação do século XIX que, para Portugal, acabaram em 1974, tendo passado pelos massacres que, vulgarmente, consideramos espoletas da Guerra Colonial.

 

No dia 16 de Dezembro de 1972, houve, em Moçambique, na região de Tete, na povoação de Wiriyamu e noutras suas vizinhas, um massacre de populações indefesas, levado a cabo pela 6.ª companhia de comandos moçambicanos. Foi denunciado, na imprensa britânica, e condenado pela ONU. O Governo português negou peremptoriamente o facto. Quando cheguei à cidade da Beira, em Abril de 1973, o assunto ainda estava bem vivo.

 

Ao cabo de um ou dois meses de instalado na Beira, ou talvez mais, tive oportunidade de conversar com um capitão médico da Força Aérea que havia estado em Tete, no hospital civil, quando uma freira foi avisar o director daquele estabelecimento de que vinham a caminho da cidade muitos negros feridos com tiros de arma de fogo. Soube-se, logo de seguida, que muitos outros haviam falecido no caminho.

De imediato foi apurada a razão da ocorrência. Tinha sido a tal unidade do Exército que, por pressão da PIDE/DGS, havia entrado a matar toda a população das povoações. Quem fugiu ou ficou ferido foi recolher-se a Tete, na esperança de ser tratado com alguma humanidade.

Foi isto que o médico me contou, mas com muitos mais pormenores que o tempo já apagou da minha memória. De importante, ficou uma coisa: houve massacre, houve centenas de mortes, mataram-se mulheres e crianças sem qualquer tipo de critério!

 

Porque, em Portugal, falara muito com o meu pai sobre este assunto ‒ Marcelo Caetano, numa Conversa em Família, afirmara que não existia nenhuma aldeia com o nome de Wiliyamu, que, realmente não havia, porque os povos daquela zona de Moçambique trocam os r por l… Infeliz forma de querer tapar a verdade! ‒ tinha, uma vez a viver na cidade da Beira, a possibilidade de lhe relatar a verdade que me havia sido contada.

Se bem o pensei, melhor o fiz.

Manuscrevi uma muito longa carta, em papel de avião (mais fino e mais leve do que o comum), relatando, tintim por tintim, tudo o que me havia sido narrado, com os tais pormenores já esquecidos.

Tão grande ficou a carta que não cabia num só envelope e, por isso, sem qualquer indicação prévia, dividi-a por dois sobrescritos, que selei e meti na caixa do correio do aeroporto da Beira. Nenhum deles chegou, jamais, ao seu destino!

 

Estranhei, pois, se, ao menos, se tivesse extraviado um só envelope, era compreensível, mas logo os dois…

 

Tentei averiguar se o meu pai notava nos sobrescritos sinais de terem sido violados. Para isso, usei de um modo seguro de o alertar.

Porque o meu pai ainda estava ao serviço, na Assistência aos Tuberculosos das Forças Armadas (ATFA), meti num envelope civil, dirigido a ele, uma carta curta, onde lhe dava conta das minhas suspeitas, e voltei a metê-la em um sobrescrito oficial, do BCP-31, enviado para o 1.º sargento enfermeiro Manuel Luís de Fraga Júnior; este envelope meti-o num outro endereçado à ATFA. Fiz seguir pelo correio militar. Fiquei à espera que me desse resposta pela mesma via. E deu. Confirmava as minhas suspeitas: os sobrescritos do correio civil eram violados grosseiramente. Estava sob suspeição da PIDE/DGS da delegação da Beira, cujos arquivos ficaram por lá!

 

Muitos anos depois, já em plena democracia, quis consultar o meu processo naquela polícia sinistra, arquivado na Torre do Tombo, e, para espanto meu, por cá, eu estava limpo. Só figura uma inocente declaração ‒ obrigatória para todos os servidores do Estado, durante o fascismo ‒ de que «não faço nem farei parte de nenhuma associação que atente contra a segurança do Estado».

Nunca careci de me associar para fazer uso do meu direito inalienável de discordar de quem me governa.

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