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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.08.20

Fases da minha vida ‒ 52

(No BCP-31)


Luís Alves de Fraga

 

Com o embarque para Moçambique, deixei de lado os estudos, na universidade, quando me faltavam cinco ou seis cadeiras para concluir a licenciatura. Foi uma interrupção já esperada, mas serviu para consolidar conhecimentos, ampliando-os, através de leituras que fiz, em especial, durante primeiro ano da comissão ‒ de Abril de 1973 a Abril de 1974 ‒, pois, daí para a frente, passei a viver acontecimentos irrepetíveis.

 

Poucos dias após a minha chegada à Beira, fruto do muito que havia meditado sobre a situação da guerra, escrevi uma carta ao director do Expresso, com vista à publicação naquele periódico, no todo ou em parte, na qual, dentro dos limites possíveis estabelecidos pela comissão de censura, defendia que, mais tarde ou mais cedo, se teria de dar a independência às colónias, tal como tinha sido feito pelos réis de Portugal quando acharam oportuna a retirada das praças do Norte de África. Era a lógica de um princípio natural, vindo do fundo dos tempos: os povos têm direito à sua independência, tal como os filhos têm direito a formar as suas próprias famílias e as suas casas.

Ficava claro que não concordava com a política do Governo levada a limites que pareciam não ter fim; deixava em aberto a melhor oportunidade para se negociar.

Não foi, nem pretendia ser, uma carta de aplauso a Marcelo Caetano e à política herdada de Salazar; era uma crítica mal-escondida a toda a condução de um negócio muito sério, que envolveu homens inteligentes à procura da defesa do indefensável. E nisto estou a recordar nomes como o próprio Marcelo Caetano, Silva Cunha (um conceituado professor de Direito Internacional, que, por teimosia, acabou desacreditado) e Franco Nogueira (um embaixador de elevada craveira intelectual, conhecido pela sua habilidade negocial).

Essa carta para Pinto Balsemão foi interceptada pela PIDE/DGS, fotocopiada e remetida, bem como o cartão de visita que a acompanhava, para Lisboa, figurando no processo daquele jornalista, existente no Arquivo da Torre do Tombo.

 

Uma unidade de pára-quedistas integrava, naquele tempo, na Força Aérea, uma tropa de elite. Deve ter-se em conta que, em 1973, este ramo das Forças Armadas tinha, vinte e um anos de existência e os pára-quedistas, primeiras tropas especiais portuguesas, ainda antes dos rangers, datavam de 1956. Estas tropas desenvolviam uma mística muito própria que, para quem não era pára-quedista, constituía um desafio de integração. Contudo, convivi sempre muito bem com tais questões, pois, desde muito jovem, aprendi a desenvolver, manter e criar místicas diferentes ‒ nos Pupilos e na Academia Militar. Ao ser nomeado para o BCP-31, percebi que a única forma de ser aceite pelos meus camaradas páras passava por integrar e praticar certos valores dionisíacos ‒ na perspectiva antropológica de Ruth Benedict ‒, dando mais valor ao exterior físico do que à razão pura.

Foi possível adoptar racionalmente esta postura comportamental graças ao facto de já ter concluído os estudos de antropologia cultural e haver compreendido que os elementos estabelecedores de diferenças entre seres humanos são de natureza sociológica, ditados pelo meio e pelas práticas.

 

Era comandante do BCP-31, no momento da minha apresentação, o tenente-coronel Bragança Moutinho, verdadeiro exemplar de um guerreiro nascido da caneta de Jean Lartéguy! Foi muito pouco o tempo que ficou no comando, pois estava em fim de comissão. Seguia-se-lhe, na hierarquia, o major Catroga Inês, figura diametralmente oposta, em termos físicos, ao comandante; mais para o baixo do que para o alto, musculoso, trigueiro, possante ‒ começava no célebre aperto-de-mão, capaz de partir os ossos do cumprimentado, e acabava nas palmadas nas costas, fazendo-nos, praticamente, dar meia volta ou torcer o tronco ‒ que, como militar, quase encarnava os regulamentos que pautavam a vida castrense. Depois, para além do oficial de operações, havia os capitães comandantes das duas companhias operacionais, meus contemporâneos da Academia Militar, que me conheciam bastante bem.

 

Com uma certa conivência do comandante do batalhão, a passagem do cargo de chefe de contabilidade, do capitão J ‒ aquele que se havia adiantado na marcha para Moçambique ‒ para mim, foi a mais demorada que alguém possa imaginar… talvez mais de dois meses! E não porque fosse difícil ou houvesse problemas administrativos que a justificassem, mas, tão-somente uma situação de camaradagem a que acedi com tranquilidade, independentemente do que se pudesse pensar da minha competência técnica.

Na verdade, a esposa do capitão J estava grávida em fim de tempo e, entre fazer o parto na cidade da Beira e ir fazê-lo na cidade de Tete, era preferível escolher a primeira, todavia, se o marido seguisse para a unidade que lhe competia, ela deixaria de ter direito ao aluguer de casa do Estado, ficando ao desamparo com mais uma filhita. Se eu retardasse a passagem do cargo daria tempo a que chegasse a hora da cegonha e, depois, era uma questão de mais semana ou menos semana. Foi o que fiz.

 

Entretanto, porque já tinha estado na Beira e havia deixado amizades por lá, fui convidado para colaborar num programa de rádio com grande audição, transmitido pela emissora do Aero Clube. Optei por uma crónica sobre política internacional a ir para o ar, todas as semanas, pelas vinte e uma horas de quarta-feira. O projecto foi aceite e fiquei a saber que a emissora estava dispensada de remeter materiais à comissão de censura pela segurança que lhe dava a figura central do Clube: Jorge Jardim.

Senti-me mais livre para tratar do que quisesse, embora consciente de que, se pusesse o pé em sítio errado estaria sujeito a sanções severas, pois não tinha autorização militar para exercer aquela actividade. Escolhi um pseudónimo para assinar as crónicas, mas dei a minha própria voz à leitura dos textos.

Para me desempenhar do encargo que aceitei, tinha dois trabalhos fixos: procurar informação internacional fidedigna para terem fundamento os meus comentários e, depois, escrever um texto, normalmente, ao domingo de manhã, que, a ler com cadência pausada, durasse cerca de cinco minutos e não muito mais.

Verdade seja, a actividade militar e a função de chefia da contabilidade do batalhão davam-me tempo de sobra para poder deitar a mão a diversos trabalhos de que gostava, como adiante se verá. Acresce que o facto de ter passado a estudar e a dar aulas, nos anos anteriores, me permitiu aprender a gerir o tempo de modo a chegar para tudo. A vida é feita de hábitos, disciplina e rotinas.

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