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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

02.08.20

Fases da minha vida ‒ 51

(Novamente para Moçambique)


Luís Alves de Fraga

 

O conhecimento oficial das nomeações para comissão de serviço nas colónias através da Ordem à Aeronáutica e ficava-se a saber duas coisas: a data limite de embarque e o território para onde se marchava.

A colocação nas unidades era feita localmente, de acordo com as necessidades e a gestão do pessoal em fim de comissão. Contudo, havia uma excepção: o das unidades de tropas pára-quedistas, pois, para essas, saía na mesma Ordem à Aeronáutica o nome do oficial e o batalhão de destino. Julgo que este procedimento se devia à relativa autonomia daquelas tropas dentro da Força Aérea.

Ora, no começo do ano de 1973, fui nominalmente mobilizado para o Batalhão de Caçadores Pára-quedistas n.º 31, sediado na cidade da Beira. Era para lá que devia ir.

Havia, no entanto, uma outra substituição a fazer em Moçambique ‒ sabia-se quem, da minha especialidade, estava em fim de comissão ‒ e essa era para uma unidade pouco agradável: o Aeródromo-Base n.º 7, em Tete.

 

Conhecedor da situação, o camarada a quem, logicamente, caberia a marcha para Tete, porque colocado num conselho administrativo muito menos trabalhoso do que o do comando da 1.ª Região Aérea, tratou de se despachar o mais rápido possível para, chegado a Moçambique, conseguir a colocação na Beira (BCP-31), cujo oficial tinha mais tempo de comissão, empurrando-me para Tete, em flagrante desacordo com o que estava determinado. E foi o que aconteceu, enquanto eu me esforçava por encerrar o ano económico de 1972, no conselho administrativo do comando da 1.ª Região Aérea.

Era um golpe baixo, porque, se tivesse sido ao contrário, eu iria para Tete sem ter dúvida nisso. Assim, ainda em Lisboa, tentei garantir os direitos que, por mera sorte, me cabiam.

Numa das frequentes vindas do general comandante da 3.ª Região Aérea (Moçambique) a Lisboa pedi-lhe audiência, na Direcção do Serviço de Instrução, e expus-lhe o acontecido e as limitações que tinha para acelerar a minha ida para a cidade da Beira. O general Diogo Neto ‒ era ele o comandante ‒ compreendeu e garantiu-me que o lugar seria para mim; necessário era despachar-me.

Liberto de todos os entraves, no conselho administrativo do comando da 1.ª Região Aérea, embarquei, como já disse, no fim da tarde de 1 de Abril de 1973, num dos dois Boeings 707 da Força Aérea.

 

Por impossibilidade física, a minha mãe não foi ao aeroporto, mas, entre outras pessoas de família, estava o meu pai. A despedida ‒ para mim, as despedidas são sempre dolorosas ‒ foi lavada em lágrimas, que não contive, contra a suprema força do meu progenitor, incapaz de deixar ver os olhos húmidos, sequer. Mas, tal como aquando da minha primeira comissão, no dia seguinte, caiu à cama doente e por lá ficou oito ou dez dias. Ele guardava as emoções eu sempre as expulsei no momento certo e devido.

A viagem, feita de noite e seguindo uma rota sempre sobre o mar (não tínhamos relações diplomáticas com a maioria dos Estados africanos, que não autorizavam aeronaves portuguesas a cruzar os seus céus), estava previsto ser interrompida em Luanda, pelas cinco ou seis da manhã. Fomos avisados da aterragem cerca de vinte minutos antes de ocorrer, mas, coisa estranha, os vinte minutos tornaram-se em quase quarenta e cinco.

Interroguei um dos assistentes de cabine, que me informou estar o aeroporto de Luanda fechado por causa das grandes chuvadas que caíam e, por isso, íamos fazer rota para Nova Lisboa onde aterraríamos dentro de muito pouco tempo. E o tempo passou e nada de tomarmos a altitude de aproximação à pista. Nova interrogação e, desta vez, um sobressalto: também a pista de Nova Lisboa estava encerrada ao tráfego por causa da chuva; íamos para Henrique de Carvalho, no Leste de Angola.

 

Estávamos a navegar à vista. O comandante de bordo ‒ por acaso, a primeira vez que ocupava aquela posição ‒ havia meses, deixara a Base de Henrique de Carvalho (AB-4) e conhecia bem as rotas angolanas. Na pista nunca aterrara uma aeronave daquela envergadura e o comprimento estava nos limites mínimos exigidos para o Boeing 707. A aterragem foi épica: a travagem levou-nos todos para a frente, presos pelas cinturas.

Descer do avião foi demorado, porque tínhamos de usar um alto escadote que foi montado na caixa aberta de uma camioneta. Lá fomos distribuídos pelas messes e salas respectivas em concordância com a categoria. À pressa e improvisadamente foi-nos servido um pequeno-almoço. Ficámos a fazer horas para nos servirem o almoço. As muitas crianças choravam, dormiam pelo chão, assim como os estafados progenitores. Depois do almoço, à vez, fizemos, num autocarro da unidade, uma visita guiada à cidade. Confesso, dormi durante todo o passeio; estava estoirado. Entretanto, na pista, o Boeing era abastecido por um minúsculo autotanque munido de uma bomba manual accionada por vários soldados, que se revezavam. Só iniciámos a aventura de uma descolagem em pista curta lá pelas cinco e tal da tarde. Fomos rumo a Luanda onde aterrámos, jantámos e embarcámos, talvez, por volta da meia-noite, rumo à Beira.

 

Foi única esta viagem! Chegámos ao nosso destino com quase um dia de atraso.

Estava, de novo, em Moçambique e na cidade da Beira. Tinha a clara convicção de estar a viver aquilo que já havia baptizado como comissão liquidatária.