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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.08.20

Fases da minha vida ‒ 50

(O marcelismo, a guerra e a deserção)


Luís Alves de Fraga

 

O marcelismo, como já disse, constituiu uma lufada de ar fresco no anquilosado Portugal de Salazar. É preciso perceber que Marcelo Caetano tinha pela frente, quando foi escolhido para substituir o velho ditador, uma terrível tarefa! Deixem-me dar um exemplo.

Nada há pior do que namorar ou casar com uma viúva ‒ ou viúvo ‒ porque o falecido adquire, como que miraculosamente, todas as virtudes e, competir com mortos, é uma luta inglória… Eles ganham sempre!

Caetano sabia disso e tinha de fazer desaparecer o fantasma de Salazar, sem dizer mal dele e da sua obra. Para tal, havia que arranjar as suas escoras; mudar de nome à União Nacional, passando-a para Acção Nacional Popular, não foi descaracterizar a organização de apoio de Salazar, mas fazer dela a sua Acção e, acredito, as palavras foram muito bem pensadas: Nacional para não se desprender da União e Popular para lhe dar um cariz e uma matriz próxima de uma outra base de apoio: o Povo, coisa bem diferente da que esteve na origem da União Nacional: os velhos políticos da 1.ª República dela desvinculados ou com ela insatisfeitos.

O mesmo raciocínio se podia fazer em relação à Comissão de Censura ‒ passou a ser exame prévio ‒ e à PIDE ‒ passou a ser Direcção Geral de Segurança ‒ numa tentativa de se libertar da imagem de repressão criada, ampliada e arreigada pelo seu antecessor. A introdução da Ala Liberal na Assembleia Nacional foi uma outra forma de gerar esteios onde eles lhe faltavam para se desligar do vivo-morto Salazar.

 

A primavera não era para Caetano um fim, mas calhou-lhe como meio, pois o objectivo era, estou convicto, o que anterior deixei explicado: matar o falecido, recriando a sua base de apoio, através da exploração de tudo o que estava inacabado.

Esta mudança dialéctica, não visando pôr em causa o corporativismo ‒ matriz ideológica do regime ‒, procurava explorar os aspectos envelhecidos e as falhas não cumpridas de um sistema com as virtudes a ele inerentes. Estas, para as perceber, carecem de ser olhadas na perspectiva da bondade da ideologia, exactamente como se olham todas as ideologias políticas que nos merecem simpatia. Só assim poderemos compreender cada uma e todas as ideias políticas, o mesmo é dizer, sem as combater, contudo explicando-as.

Ora, o que aconteceu foi que a dialéctica dentro dos defensores do regime se estremou, não dando espaço para Caetano levar a cabo a sua manobra política; assim, viu-se confrontado entre a manutenção dos métodos salazaristas e a ampliação de um corporativismo com aceitação popular.

 

Numa mirada rápida, parece-me, a primeira grande machadada na manobra de Marcelo Caetano, veio do estrangeiro e foi dada por duas entidades com objectivos convergentes, mas não iguais: os movimentos de libertação colonial e a Igreja de Roma.

Foi em 1970, quando o Papa recebeu os três líderes da luta de Angola, da Guiné e de Moçambique. Estes, claramente, numa perspectiva marxista, leram a abertura marcelista e perceberam que tinham de solapá-la interior e exteriormente e, para o fazer com perfeição, nada melhor do que envolver o Papa Paulo VI, que, tendo ido, anos antes, a Fátima, se recusou a visitar Lisboa, não fazendo da viagem nem uma visita de Estado nem uma aprovação da política do Estado Novo, ainda quando Salazar estava vivo.

Foi a curta recepção e audiência concedida pelo Papa que obrigou Marcelo Caetano a definir-se ao lado dos ultras e da ala mais radicalmente fascista do regime. Este simples gesto recolocou o então presidente do conselho de ministros numa senda de comprometimento à direita. A primavera tinha chegado ao outono!

Isto não impediu que Caetano tenha prosseguido com uma política de aprofundamento do corporativismo no seu lado melhor, mas retirou aos Portugueses a esperança de uma evolução, mesmo que lenta, para uma abertura democrática a longo prazo.

A ele se ficaram a dever as primeiras pensões de sobrevivência ‒ até para os camponeses ‒, os diversos sistemas de assistência na saúde com comparticipação medicamentosa, a reforma do ensino e outras pequenas regalias a que Salazar nunca havia prestado atenção.

 

O que, no final de 1973 ‒ face à realista descrição do general Spínola sobre a situação militar na Guiné ‒ e começo de 1974, não se sabia é que Caetano equacionava a possibilidade de encetar conversações secretas com os movimentos de libertação, nomeadamente com o PAIGC, por um lado, enquanto, por outro, em roda livre, Jorge Jardim fazia o mesmo com a FRELIMO. Ou seja, Caetano, à maneira paulatina e sigilosa de Salazar, estava a preparar-se para desmantelar, com limites e limitação de danos, a política ultramarina do seu antecessor, arrostando com a fúria de todos os que, cegamente, admitiam a eternização da guerra até à derrota final.

Os Portugueses não sonhavam com esta possibilidade, tanto mais que, publicamente, Caetano havia endurecido o discurso político.

Eu, tal como todos os outros, vivia na maior ignorância e, face ao que se sabia nas fileiras das Forças Armadas, equacionava, à vista de mais uma comissão de guerra em Moçambique, a possibilidade de desertar.

 

Por discordância com a guerra, começou a crescer em mim, durante o ano de 1972, a ideia da deserção. Ir com a mulher e os filhos para França, fazer não sei o quê, com estatuto de exilado político, perfilava-se como a possibilidade de começar de novo num outro país e longe de uma ditadura que amarfanhava e retirava esperanças. Os estudos universitários e as conversas políticas abriram-me perspectivas jamais imaginadas. Não pertencia a nenhum movimento oposicionista, mas, individualmente, estava nos antípodas da política nacional. Era a desilusão absoluta.

Falei longamente com o meu pai, confidente de sonhos e de desejos, mas que, ao contrário de mim, era muito positivo e com os pés na terra. Ouviu-me quase até à exaustão e, numa bela noite, ao serão, no já referido Café Colonial, disse-me a frase decisiva:

‒ Se discordas da guerra colonial, a forma de impores as tuas ideias passa por ficares ao contrário de te ires embora. Quem sai de Portugal não ajuda à luta cá dentro.

Fez eco, em mim, esta lógica linear.

Havia que embarcar e tentar lá, em África, encontrar caminhos para tornar claras as minhas dúvidas quanto à justiça da guerra.

 

Embarquei, com a família, no ainda Aeródromo-Base n.º 1, no terminal do Figo Maduro, no fim da tarde de dia 1 de Abril de 1973.