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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

17.04.20

Fases da minha vida ‒ 5

(Os alunos graduados nos Pupilos do Exército)


Luís Alves de Fraga

 

Não se pense que as fases da minha vida se confinam às lembranças do internato no Instituto onde cresci para a vida! Não. Tenciono ir por aí adiante, recordando o que achar mais interessante e conveniente para dar testemunho do meu tempo. Assim, tudo tem uma fase. Fico-me, por agora, nos meus treze/quinze anos.

 

Que regulamentos informais existiam nos primeiros anos de aluno dos Pupilos do Exército? Quem os ditava? Quem os vigiava?

Umas poucas palavras respondem às interrogativas antecedentes: os alunos mais velhos e os graduados.

Afinal, esses regulamentos informais eram feitos de tradição, tal como o uso de vocábulos só de nós conhecidos (ou quase) ‒ uma tequinha=um bocadinho; cinco lecas=cinquenta centavos; cheirar=ficar sem qualquer coisa; e assim por diante ‒, gerando comportamentos e atitudes próprios e exclusivos.

 

Se é verdade que, de um modo geral, o aluno mais velho era, só por si, um educador, havia certos cargos instituidores dessa responsabilidade pedagógica.

Tentarei hierarquizar essas etapas dos educadores informais.

Os primeiros passos eram dados, mesmo sem ser graduado, como chefe de mesa.

Vou contar.

 

Ali por volta dos quinze/dezasseis anos já se podia ser nomeado, pela hierarquia oficial do Instituto, chefe de mesa.

Cada mesa tinha lugar para sete alunos; o chefe sentava-se a um dos topos e impunha a sua ordem ‒ algumas vezes, nem sempre a mais acertada ‒ aos condiscípulos, como regra, mais novos.

É sabido que é à mesa, no tempo das refeições ‒ para nós sempre rápido, tal o desejo de ir gozar alguns instantes de liberdade ‒ que se aprendem comportamentos e outras instruções.

Dos sete anos de permanência nos Pupilos, tanto quanto me recordo, fui chefe de mesa quatro anos, um deles ainda não graduado.

Confesso, pouco ou nada aprendi com os meus chefes de mesa: o primeiro, porque já estagiário, não almoçava connosco e era o vizinho do lado, o nosso caro Dionísio, quem tomava conta de nós; o segundo foi o Leal ‒ no ano seguinte, comandante de batalhão de alunos ‒, que não atava nem desatava; o terceiro já não me lembro, por isso, também, por não ter deixado marcas, nada me instruiu, até porque já eu tinha idade para não receber ensinamentos ‒ os que me poderia transmitir, entenda-se.

 

Quando me coube a obrigação de chefiar mesas procurei ser pedagógico com os mais novos: explicava-lhes como usarem os diferentes talheres, como descascar a fruta com faca e garfo, como sentarem-se à mesa sem apoio nos cotovelos; desenvolvia conversas que lhes trouxessem qualquer conhecimento adicional e houve um ano que os obrigava a escreverem-me cartas para lhes corrigir a redacção.

 

Os graduados começavam por ser comandantes de secção ‒ três por cada pelotão ‒, comandantes de pelotão, comandantes de companhia e comandante de batalhão. A sua acção pedagógica fazia sentir-se nas formaturas, nas salas de estudo, nas camaratas, exercendo, umas vezes com perfeição e outras não tanto, autoridade para trazer ao rebanho do bom comportamento os mais rebeldes à disciplina.

Está claro que essa autoridade passava, bastas vezes, pelo uso da força física: um tabefe bem assente, uma caldaça, um biqueiro no rabo.

Como regra, não se tratava de violência continuada, mas de uma forma de levar à memorização a não repetição de comportamentos desviantes do padrão comportamental do internato.

Acima de tudo, hoje, com a experiência de vida já adquirida, julgo que a acção pedagógica dos graduados desenvolvia efeitos contrários, embora construtivos, pois, quando era notória a injustiça, levava o injustiçado a, mais tarde, não repetir o comportamento reprovado e, quando era justa, conduzia à aceitação racional da disciplina, gerando tradições, fazendo escola.

Hoje, numa avaliação ponderada, admito sem relutância, que, na generalidade, os graduados eram ‒ pelo menos naquela época ‒ a pedra angular da formação de vários princípios comportamentais: disciplina, camaradagem, solidariedade, emulação, garbo, frontalidade, capacidade de resistência, sentido de grupo ou, se se quiser, de tribo.

 

O meu primeiro comandante de pelotão ‒ o Fernando Gonçalves Roberto ‒ foi marcante para mim.

Nos seus dezassete ou dezoito anos era, assumidamente, católico e respeitado nas suas opções por todos os companheiros de curso. Perante nós, os putos ‒ designação dada aos novos alunos ‒ era como se fosse um irmão mais velho, atento, mas sem pieguices consoladoras dos mais pequenos e saudosos da família e do ambiente das terras distantes, que tinham deixado para trás (convém não esquecer que havia entre nós, os caloiros, meninos com dez anos vindos de tão longe que só nas férias de Verão poderiam ir a casa!).

Olhando o Roberto, com os olhos dos meus treze anos, ele foi o marco mais importante na minha entrada nos Pupilos do Exército, pois tomei-o como exemplo a seguir: era assim, como ele, que eu queria chegar ao penúltimo ano do curso! Assim, seguro das minhas convicções, respeitado pelos meus iguais, exemplo para os mais novos.

Este desejo explica-me, hoje, o comportamento que passei a adoptar nos anos seguintes e a boa camaradagem que cultivei com o Roberto quando ele era já cadete da Escola do Exército (algumas vezes, passámos tardes de domingo a subir e descer a avenida da Liberdade, em grandes conversas sobre comportamentos nos Pupilos).

 

Desses anos que vieram vou ocupar-me em apontamento futuro.