Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

20.07.20

Fases da minha vida ‒ 44

(Na chefia da secretaria ou a vantagem de ser maluco)


Luís Alves de Fraga

 

Num mês, que já não consigo precisar, do ano de 1970, era subdirector da Direcção do Serviço de Intendência e Contabilidade (DSIC), agora já coronel, o tenente-coronel que, em Lourenço Marques, me havia convidado a ser delator de uma conjura contra ele e só existente na sua cabeça. O homem vira compensados os seus esforços de sabujice, alcançando o segundo posto mais elevado na nossa especialidade, mas continuava a ser desconfiado e incompetente.

Eu mantinha-me na chefia da secção de subvenção de família ‒ de dia para dia aumentava o número de beneficiários e, por conseguinte, de trabalho ‒, a aproveitar as manhãs para estudar e um curto serão para fazer crónicas para os jornais com quem colaborava graciosamente. O tempo, em todas as alturas do dia, estava bem ocupado.

 

Na chefia da secretaria da Direcção havia sido colocado, havia pouco tempo, um velho capitão do serviço geral, com residência no Norte do país e, consequentemente, com grande desejo de se ver transferido para a Base Aérea de S. Jacinto, próxima de Aveiro.

O homem choramingava, em todas as oportunidades, a sua infelicidade: Lisboa em vez de Aveiro!

Nunca ninguém fez nada por ele, nunca ninguém lhe prometeu o que quer que fosse.

Velho militar, com muito calo nos pés criado pelas botas de marchar, em face da ineficácia das suas lamúrias, empenhos e muito mais que não sei, optou por uma solução radical: num domingo à noite baixou ao Hospital Militar do Porto com queixas de natureza nervosa. Claro que, passados dias, teve alta para convalescer em casa! Estava nas suas sete quintas. Lisboa e a secretaria da DSIC que se lixassem. A incompetência e inabilidade do subdirector haviam deixado chegar as coisas ao extremo.

Mas, a incompetência do subdirector associada ao desleixo do brigadeiro (equivalente hoje a major-general) director, encontrou uma solução óptima para quem não quer resolver nada, mas quer ter quem faça as coisas!

Vejamos.

 

Uma bela tarde sou chamado ao gabinete do coronel subdirector.

‒ Tenente Fraga, como sabe, estamos sem chefe de secretaria. Ora, eu e o nosso director, lembrámo-nos de o nomear interinamente para o lugar, atendendo à sua versatilidade e aos bons serviços que vem desempenhando. Assim, ficará em regime de acumulação.

‒ Meu coronel, eu nada sei de serviço de secretaria!

‒ Não tem importância, porque tem lá pessoal civil e militar que dá boa conta do assunto!

 

Foi deste modo que um capitão do serviço geral, manhoso, invocando desequilíbrio mental e exaustão, empurrou um, já antigo, tenente de administração para também ser chefe de secretaria.

Apoiei-me, realmente, numa das funcionárias civis em serviço há muitos anos na secretaria e num cabo amanuense, desenrascado, praticante amador de luta greco-romana. Toquei o serviço para a frente, sendo que, ao fim da tarde deixava a pasta de despacho no gabinete do subdirector para ele assinar ou encaminhar o que devia ser encaminhado no resto das horas de serviço e no começo da tarde do dia seguinte.

A nomeação era provisória e, esperava eu, com a duração de uma ou duas semanas. Mas foi-se prolongando e já levava quase um mês de acumulação e nada de haver notícia de novo chefe de secretaria.

As respostas às minhas constantes insistências junto do coronel batiam na sua já mais do que conhecida incompetência e subserviência perante o director. A coisa ia eternizar-se. Ora, deste modo, o meu respeito ‒ que já era pouco ‒ pelo subdirector diminuía, de dia para dia, a olhos vistos.

 

Certa tarde, quando lhe levei a pasta de despacho, o coronel começou com uma das suas célebres arengas, cujo fim era imprevisível. Ele sentado por trás da secretária e eu, na sua frente, de pé, a escutá-lo sem qualquer tipo de interesse. O tipo era um chato!

Já cansado de o ouvir, a pensar no trabalho que me esperava na minha secção ‒ trabalho a ser feito sem atrasos ‒, passou-me pela mente a vontade de mandar o homem à merda. Contive-me, mas saltou-me a frase:

‒ O meu coronel dá-me licença?

‒ Diga, diga Fraga…

‒ Não, dá-me licença que saia?

Sem ouvir a resposta, voltei costas e retirei-me rumo ao meu gabinete, na secção de subvenção de família!

 

Decorreu mais uma semana, talvez, e, numa bela tarde, através de um ofício da Assistência aos Tuberculosos das Forças Armadas, verifico que devia ser passada guia de marcha para um determinado major ir ao Hospital Militar de Doenças Infecto-Contagiosas (HMDIC) fazer uma microrradiografia. Dei ordem ao cabo amanuense para escriturar a guia de marcha para o tal major ir fazer a micro. Ele dactilografou e eu meti na pasta de despacho, sem olhar, porque, pela rotina, estaria certa com certeza.

No dia seguinte, ao chegar à secretaria já lá tinha de volta a pasta de despacho do subdirector e vejo, preso, na guia de marcha, com um clipe, um pequeno papel onde, textualmente, dizia o coronel: «Micro, décima milionésima parte do milímetro. Se o senhor major Fulano não vai fazer a décima milionésima parte do milímetro, que coisa pequena vai fazer o senhor major?»

Passei-me e arranquei direito ao gabinete do subdirector, levando na mão o papelito.

Entrei e, sem o cumprimentar, disse-lhe, exactamente:

‒ Meu coronel, para escrever isto o senhor teve de ir ao dicionário! E, se foi, é porque tem muito tempo para tal, pois eu nem tempo tenho para me coçar. Dá licença que me retire?

Virei costa sem olhar para a cara de parvo do subdirector… Porque só podia ser essa a cara dele!

Cheguei à secretaria e, estendendo o braço direito por cima do tampo da minha secretária, atirei com tudo para o chão, ao mesmo tempo que dizia:

‒ Também tenho direito a estar maluco!

O pessoal, todo o pessoal, ficou boquiaberto com a minha atitude. Saí direito ao meu gabinete, na secção de subvenção de família, onde fui trabalhar.

 

No dia seguinte, por volta das catorze horas, pedi à minha mulher para telefonar para a secretaria da DSIC, informando que eu me encontrava doente e que ia consultar um psiquiatra, não sabendo quando regressaria ao serviço.

Fiquei uma semana em casa a estudar. Quando me apresentei, fardado a rigor, fui recebido pelo director, tipo pequenino, vermelhusco, com ar velhaco, que me disse estar eu vergonhosamente substituído na chefia da secretaria pela funcionária civil!

Não lhe respondi, tal e qual como não respondeu o capitão do serviço geral que, repimpadamente, estava em casa, no sítio onde lhe convinha.

 

Para o resto da minha vida militar ficou-me uma lição: fazer de doido, algumas vezes, dá um excelente resultado!