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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

14.04.20

Fases da minha vida ‒ 4

(Outra vez a educação)


Luís Alves de Fraga

 

Dedico esta memória/reflexão ao

Coronel João Augusto Miranda Soares

 

Educar miúdos entre os dez e os treze anos de idade à custa de regulamentos militares, já disse, era tudo menos transmitir-lhes valores iguais aos que, usualmente, recebíamos em casa, através dos nossos progenitores. Já disse antes, transgredíamos ‒ uns mais, outros menos ‒ esses mesmos regulamentos.

 

Como estou, por força deste confinamento social, retido em casa e tenho tempo de sobra para meditar, fazendo introspecções quase psicanalíticas, ocorreu-me interrogar-me sobre o que disse no apontamento passado.

‒ Os regulamentos formais, nomeadamente o de Disciplina Militar ‒ RDM ‒ (o antigo) à sombra do qual se decalcavam as nossas normas de conduta, não educavam e não eram instrumentos de educação?

Coloco a pergunta, porque me assaltou a memória uma frase ouvida ao meu pai: «Não preciso do RDM, porque nele estão as mais elementares normas de conduta social, adaptadas à vida militar!»

 

Realmente, nos meus quarenta anos de oficial no activo e na efectividade de serviço, pude verificar que o meu pai tinha razão: o RDM era uma compilação de normas de conduta social, na generalidade, e, em circunstâncias específicas, de conduta marcadamente castrense.

Então, o que eu e todos os meus condiscípulos recebemos foi uma educação militar começada em tenra idade!

Os nossos valores, aqueles de que nos orgulhamos, vêm daí, da educação marcial: verticalidade, frontalidade, lealdade, empenhamento, emulação, vontade, resiliência, ordem, coragem, camaradagem, solidariedade.

Sendo verdadeira a minha dedução, posso e devo acrescentar-lhe o peso de várias outras afirmações contidas no lema e no hino do Instituto. Vejamos as que me ocorrem.

 

Do hino:

«Filhos de Portugal saudemos a alvorada

Que desponta abençoando a nossa Pátria querida

E se por um traidor a virmos atacada

Desprezemos por ela a nossa própria vida»

 

Repare-se neste particularismo tão evidentemente consonante com o juramento de bandeira feito por todo aquele que assenta praça e é soldado: o oferecimento da vida em defesa da Pátria. Nós, muito antes de o fazermos, já o cantávamos ao cantar o hino da nossa Escola! E, mais curioso ainda, é que na formula de juramento de bandeira se refere a Constituição e a República e, no hino do Instituto, se enaltece a República ‒ a alvorada que desponta ‒ e os traidores à Pátria, o mesmo é dizer, os que atentarem, cá dentro ou lá fora, contra o regime republicano e a Nação.

 

Mas, continuando, ainda no hino:

«Ao estudo e ao trabalho producente

Dediquemos com alma e com prazer

Toda a nossa atenção alegremente

Saibamos o Instituto enobrecer»

 

Cá está, quase subliminar, a ordem, o prazer de estudar e de trabalhar, comprometendo-nos com a obrigação de enobrecer aquela que passava a ser a nossa alma mater ‒ a mãe que do seu ubero nos alimentava, preparando-nos para a Vida.

 

Do lema:

E o hino remata com o lema dos Pupilos do Exército: «Querer é Poder».

A frase lapidar que, no fundo de cada um de nós, nos anima, reunindo todos os valores inculcados através de uma cultura castrense, modesta ‒ porque não nos exalta como uma elite, filhos de uma elite, antes como pupilos do Exército, como filhos de Portugal ‒, modesta, dizia, mas laboriosa, pois só pelo trabalho honramos, enobrecemos, a Casa materna.

 

Como as palavras têm a força das pequenas gotas da chuva, que se transforma em rio e de rio em mar, acabei por prometer falar de modelos e de regulamentos informais defendidos pelos alunos mais velhos e graduados do meu tempo e fiquei-me, se calhar, por redundâncias, que a poucos interessam. Contudo, se os meus leitores mais velhos, os que não passaram pela minha experiência educativa, pensarem um pouco e analisarem os fins da Mocidade Portuguesa ‒ obra do regime salazarista ‒ perceberão a imensa distância ideológica que separava o espírito dessa organização fascizante do daquela onde eu tive o prazer e a honra de me formar: para nós a Pátria tinha um nome ‒ Portugal ‒ para a Mocidade Portuguesa, o nome era Salazar.

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