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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.07.20

Fases da minha vida ‒ 33

(A estreia como cronista)


Luís Alves de Fraga

 

O trabalho na messe era grande, mas, tal como já disse, no essencial, resumia-se a apagar fogos de momento, a qualquer hora do dia ou da noite ao longo de qualquer dia da semana, porque, para as actividades rotineiras, bastou-me defini-las de início e, depois, cumpri-las com rigor. Deste modo, sobrava tempo para outras coisas, tais como ler tudo o que podia e me caía ao alcance do olho.

Como de rapaz me habituei a escrever e, por ver o meu pai retomar a sua tendência de jornalista, talvez por mera imitação, comecei a rabiscar ensaios de crónicas e a mandar-lhos para me dar a opinião. Corrigindo aqui e ali, saiu-me, parece-me, no mês de Setembro de 1968, uma crónica mais elaborada, que o meu progenitor entendeu mandar para a redacção do mais antigo jornal português ‒ o Açoriano Oriental, que se publica na ilha de S. Miguel. Era a minha estreia como cronista!

Exultei ao receber o jornal e ver nele o meu nome e as minhas palavras, embora com alguns saltos incompreensíveis. O meu pai explicou-me a razão dos desconchavos: cortes da censura.

 

Criei o hábito de todas as semanas redigir uma crónica, remetendo-a para análise paterna; se aprovada, era enviada para os Açores.

A pouco e pouco, ganhei o jeito de escrever de modo a que os censores não tivesse nada para cortar. A redacção saía, para os leitores, muitíssimo mais escorreita e compreensível. Mas, tenho de confessar, fui um beneficiado pela sorte. Explico.

 

Em Setembro desse ano, caiu-nos em cima, como um raio em tarde de Verão bem quente, a notícia da cirurgia de Salazar, em consequência do tombo da cadeira.

Na Beira foi recebida com silêncio colectivo a ocorrência, mas, soube-o de fonte segura, a PIDE tinha ordens para prender e interrogar todo aquele que contasse qualquer tipo de anedota sobre o enfermo.

Dia após dia, as notícias sobre o estado de saúde do ditador apontavam para a impossibilidade de voltar ao desempenho do cargo. Vivíamos suspensos, porque ninguém calculava o que se iria seguir. Todos sabíamos que havia possíveis delfins, mas quando, como e quem daria a volta?

 

No caso da morte política de Salazar, iam sendo todos os dias ultrapassadas as notícias que nos chegavam.

A escolha de Marcello Caetano para Presidente do Conselho de Ministros trouxe um sobressalto de esperança quanto à possível alteração do regime, tanto mais que, no discurso da tomada de posse, o professor foi muito claro quanto ao traçar das novas linhas de conduta, já que se considerou um homem comum.

De facto, de Setembro a Dezembro, ainda tive oportunidade de perceber que a censura estava a ser aliviada, pelo menos, na aparência. Isso permitiu-me escrever com mais ligeireza algumas das crónicas mandadas para o Açoriano Oriental.

Seria já em Lisboa que eu passaria a viver aquilo que se achou ser uma grande abertura e foi apelidada de primavera marcelista.