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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.07.20

Fases da minha vida ‒ 32

(“A Caravana da Amizade”)


Luís Alves de Fraga

 

Lá por volta de Fevereiro ou Março de 1968, já não me recordo através de que canal, fui avisado de que se preparava para, em Agosto, chegar a Moçambique e à Beira a chamada Caravana da Amizade formada por alunos dos Pupilos do Exército acompanhados de antigos alunos e de oficiais, nomeadamente o capitão Robalo Gouveia, que exibiria a classe especial de ginástica. Era preciso preparar tudo para os receber, alojar, alimentar, levar a passear e ajustar as exibições de ginástica com a dignidade desejada.

Porque não havia ex-alunos no Exército na cidade da Beira e eu estava melhor posicionado para centralizar a acção, fazendo do meu gabinete, na messe, o quartel-general, tratei de convocar os ex-alunos militares da Força Aérea e civis para formarmos o nosso estado-maior.

 

O mais antigo e mais velho era o senhor Fernando Batista Alves (230/1919), tesoureiro da companhia Lusalite, homem da idade do meu pai, de uma modéstia e simplicidade imensas, mas com uma extraordinária experiência de vida notável. Era convictamente anarquista, sem disso fazer alarde, mas, depois de me sondar, foi-me falando nessa ideologia política. Conseguiu despertar-me mais para a compreensão da vida em Portugal.

Embora presidindo-nos, o Fernando Alves empurrava para mim as funções e os destaques que lhe eram atribuíveis.

 

Juntámos um núcleo interessante, que se reunia no meu gabinete em noites previamente combinadas e, passo a passo, fomos delineando programas e inventariando apoios para aqueles poucos dias em que a Caravana da Amizade ia estar na Beira.

Os mais activos foram, para além do Fernando Alves, o Fernando Silva Dias, mundialmente conhecido pela alcunha herdada do pai, que foi professor de Matemática nos Pupilos, Papa Giz, bem-humorado, excelente apreciador de petiscos e de bons copos, o Fernando Cristo e o saudoso Pedro Pinheiro, chefe de contabilidade da Base Aérea n.º 10.

A partir do quartel-general, noite após noite e semana após semana, fomos encontrando solução para o alojamento de todos, para os cumprimentos a apresentar pelos oficiais responsáveis pela comitiva, para os saraus de ginástica a levar a cabo, convidando classes desportivas da cidade para se exibirem também, para as visitas a fazer ‒ Gorongosa, com alojamento, e Vila Pery, com exibição, Companhia Têxtil do Pungué ‒, para os meios de transporte a usar, de modo a não haver encargos financeiros para a Associação dos Pupilos do Exército nem para o próprio Exército.

 

Guardámos para o fim a forma de dar mais visibilidade e publicidade à Caravana da Amizade. Até convocámos uma conferência de imprensa para o meu gabinete na véspera da chegada dos atletas e acompanhantes!

À custa de diversos esforços e sinergias tudo correu maravilhosamente. Foi um êxito a estadia da Caravana da Amizade, no distrito de Manica e Sofala. A imprensa e a rádio não se cansaram de tecer elogios aos ginastas dos Pupilos.

 

Deste esforço colectivo entre ex-alunos, nasceram várias coisas interessantes. A primeira, foi a criação, ainda que efémera, do núcleo da Associação dos Pupilos do Exército (APE) na cidade da Beira. De facto, passámos, até ao final da minha comissão, em Janeiro de 1969, a reunir, em almoço mensal, gerações diferentes, com experiências diversas uns dos outros, mas onde todos encontrávamos o elemento comum: o nosso Instituto. A segunda, mais pessoal, resultante da passagem da Caravana da Amizade pela Beira, foi a consolidação de uma amizade, quase inimaginável, entre mim e o Fernando Alves. Com ele fiquei a saber como era a educação nos Pupilos nos primeiros anos de existência da nossa Casa, mas, como já disse, pela mão dele li vários livros sobre anarquismo e, também, sobre oposição à ditadura. Fiquei encantado com um do qual nunca mais me esqueci: Quando os Lobos Julgam a Justiça Uiva, da autoria de Aquilino Ribeiro, editado, em 1958, no Brasil. O prefácio é de Adolfo Casais Monteiro e nele pode ler-se a seguinte passagem (colhida, agora, na Internet): «O nosso conhecido medo de enfrentar a verdade (o medo de um povo que para tal foi educado, desde séculos antes de ter sido salazariado), o falso optimismo do ‘talvez não seja tanto assim’, que é a reacção dos que ainda querem salvar uma mísera comodidadezinha, pouco acima do nível da fome e paga à força de abdicações morais e espirituais — eis o terreno no qual a ditadura não teve dificuldade em firmar os alicerces do seu monstruoso culto de coisa-nenhuma, o auto-endeusamento da violência que só ama a si mesma. Porque um povo que fecha os olhos de dentro ao que os olhos virados para fora lhe estão mostrando a cada instante, é um povo pronto a abdicar da sua vontade nos altares da tirania (...)».

Percebe-se que textos assim, para quem como eu, nos meus vinte e sete anos de vida, estava desejoso de perceber a democracia e a liberdade, abriram-me vulcões de curiosidade, só aplacáveis no diálogo com o meu velho condiscípulo Fernando Alves.

 

Estava, sem me dar conta, a pisar o primeiro degrau da mudança de uma fase da minha vida.