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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.07.20

Fases da minha vida ‒ 31

(Os cabritos de Vila Pery)


Luís Alves de Fraga

 

Será bom recordar que, naquele fim de Inverno (no hemisfério do sul), no mês de Setembro de 1967, eu tinha, incluído o tempo de aspirante, um pouco menos de dois anos de oficial e, experiência de chefia e direcção de subordinados, na verdade, somente alguns meses, pois, no ano de serviço na Base da Ota, havia sido um adjunto aprendiz de práticas de assuntos estudados na teoria dos livros e das aulas na Academia Militar.

A gerência das messes ia ser a minha prova de fogo em termos técnicos e de liderança. Realmente, ainda estava a aprender tudo, mas da maneira mais dolorosa, porque dos meus erros ou falhanços seria o único responsável.

Cabe aqui e agora recordar uma lição que retive para a vida.

 

Embora o saldo financeiro da messe fosse muito confortável, uma gestão cautelosa não impedia que se procurasse comprar os géneros nos fornecedores de qualidade, mas com custos menores.

Assim, foi-me sugerido pelo despenseiro uma ida à região de Vila Pery ‒ hoje conhecida por Chimoio ‒ comprar uma dúzia de cabritos, na quinta (farm) de um agricultor, que fazia preços fora de concorrência. Aceitei a ideia, por ser razoável e conveniente.

 

Vila Pery ficava a duzentos quilómetros da Beira. Naquele tempo a estrada ‒ se é que se podia chamar estrada àquilo ‒ era constituída por uma estreita faixa de alcatrão por cima da qual só dava para circular um veículo. Ladeavam-na uns metros de terra batida, mais ou menos lisa, mais ou menos enrugada em tempo de chuvas. Era para a berma que os automóveis saltavam, deixando só o rodado do lado direito (conduzia-se à esquerda) em cima do alcatrão, fazendo o mesmo o outro carro. Claro, nesta estrada, quando passava um veículo em sentido contrário abria-se uma garrafa de champanhe!

A meio caminho tinha de se parar na cantina de Vila Machado. Ora, a primeira vez que fiz este percurso, percebi muitas coisas, para além da precariedade da estrada; percebi que uma vila, no interior de Moçambique, podia ser ‒ e, na maioria das vezes, era ‒ um conjunto de casas de alvenaria com telhado de chapa ondulada de fibrocimento e, logo ali colada, uma aldeia indígena, que cultivava as suas terras e negociava com os comerciantes da vila.

Era em Vila Machado que se inflectia para a picada que levava à entrada para do imenso parque da Gorongosa. Continuando na estrada, estava-se a cem quilómetros de Vila Pery, esta sim, com o aspecto de uma pequena cidade com alguns requintes de urbe com dignidade: um moderno café com esplanada, um cinema, um colégio privado e um liceu, uma escola comercial e industrial e um pequeno hospital.

 

Fomos direitos à farm do agricultor. A casa era de alvenaria, com o telhado de fibrocimento, mas tudo com um aspecto modesto de gente que trabalhava duro para conseguir um estatuto um pouco melhor do que o abandonado em Portugal. Era um agricultor que estava nos antípodas daqueles britânicos apresentados nos filmes sobre a colonização feita pelos filhos da velha Albion!

Lá nos fomos ao rebanho e o despenseiro, o cabo Zé ‒ o mais velho cabo da Força Aérea ‒, homem para cinquenta e tal anos, daqueles que sabem fazer de tudo um pouco, mas sem alarde das suas capacidades, perguntou-me se eu queria escolher os animais. Recordando a cadeira de Tecnologia do Serviço de Intendência, e no que lá aprendi, nos livros, está bem de ver, sobre a técnica de escolher gado, respondi-lhe prontamente que me encarregava do assunto.

Meti-me pelo meio do rebanho e, apalpo aqui e apalpo ali, seleccionei doze cabritos gordos e anafados. O cabo Zé olhava-me à distância.

 

Regressámos à Beira, já tarde, na carrinha Volkswagen (tipo pão de forma), que estava atribuída à messe e que guiei muitos e largos quilómetros, acompanhados pelos berros dos cabritos bem amarrados e deitados no chão.

Descarregados os animais, fui-me deitar, depois da janta e de dois dedos de conversa com camaradas amigos. No armazém de géneros ficou o cabo Zé a matar e esfolar os animais, que deviam sangrar e secar até, no dia seguinte, poderem ou ir para a panela ou para o frigorífico à espera de serem desfeitos e cozinhados.

 

Como era meu hábito, pouco depois das onze da manhã, fui passar revista às instalações, começando pelo armazém e cozinha. Nesta, deviam estar pendurados alguns dos gordos e anafados cabritos por mim escolhidos na véspera, mais ou menos por aquela hora. O que estava pendurado nos ganchos eram uns magros cabritos que lembravam, palidamente, os bichos do dia anterior!

‒ Mas estes é que são os animais que trouxemos ontem de Vila Pery? ‒ perguntei eu com ar espantado.

Com um sorriso trocista, respondeu o cozinheiro: «Claro que são. Têm alguma diferença?»

‒ Eram mais gordos ou, pelo menos, pareciam ‒ respondi, pondo-me à retranca.

‒ Mas foi o senhor alferes quem os escolheu, não foi? ‒ disse o cozinheiro.

‒ Claro que fui!

Ao mesmo tempo, oiço a voz do cabo Zé, dizer entre dentes:

‒ Quem te manda a ti sapateiro tocar rabecão?

Lembrei-me da minha saudosa mãe, aconselhando a minha irmã: «Mulher séria não tem ouvidos». Calei-me, disfarcei, continuei a revista e, ao regressar ao meu gabinete, jurei deixar-me de experiências e assumir o meu papel de gestor, chefe e responsável.

 

Fomos muitas mais vezes ao mato, na região de Vila Pery, comprar cabritos, mas deixei o cabo Zé escolhê-los bem gordos, cheios de carne e saborosamente cozinhados pelo Albertino, mestre doceiro e excelente chefe.

Em todas as alturas da Vida e com toda a casta de gente estamos capazes de aprender, assim o queiramos!