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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.06.20

Fases da minha vida ‒ 30

(A messe de sargentos)


Luís Alves de Fraga

 

Na cidade da Beira, a messe de sargentos da Força Aérea dividia-se por dois prédios distintos: o Bucelato e o Impala, este em frente do cinema Nacional. O segundo edifício pertencia todo à Força Aérea, contudo, o primeiro já não.

O prédio Bucelato tinha quatro pisos, sendo que o primeiro estava ocupado com escritórios, consultórios médicos e gabinetes de advocacia; os três restantes eram alojamento de sargentos casados, sem filhos, e solteiros ou sem família. Cada apartamento era constituído por uma antecâmara, onde cabiam uma mesa e quatro cadeiras, e um amplo quarto com vista para a praça Caldas Xavier. Por lá, não havia aparelhos de ar condicionado. Os balneários e sanitários ficavam próximo de um átrio e eram comuns. Já não recordo quantas casas de banho existiam, nem quantos apartamentos, mas estavam proporcionados os números.

O prédio Impala, também de quatro pisos, tinha os três primeiros reservados para apartamentos e uma parte do quarto andar para sala de jantar, cozinha, armazém, sala de estar e bar. Neste edifício alojavam-se sargentos com famílias numerosas e, de um modo geral, todos cozinhavam as refeições em casa. A sala de jantar, muito ampla e arejada, servia refeições para todos os sargentos e famílias que lá quisessem comer, em especial, os alojados no prédio Bucelato.

Necessariamente, e de acordo com a época, as instalações destinadas a sargentos deveriam ser diferentes (entenda-se, piores) do que as dos oficiais. E, contudo, não se podiam considerar indignas.

 

Poucos dias após ter iniciado o desempenho das funções de gerente, o sargento adjunto foi porta-voz dos elementos da sua classe alojados ou utentes da messe, expressando a vontade de se fazer uma reunião com todos para poderem expor-me as suas reivindicações e reclamações. Fui peremptório na resposta, que transcrevo de memória: «Não faço reunião nenhuma, porque nas reuniões diz-se o que se quer e não quer, e nunca se chega à conclusão mais conveniente. Vou arranjar uma solução para os problemas dos sargentos.» Estávamos muito longe da Democracia e eu não fui educado em democracia, contudo, tinha já a noção bem clara do que devia ser feito para dignificar as pessoas.

No dia seguinte, ordenei que o sargento adjunto da gerência elaborasse uma lista completa, por ordem de antiguidades, dos sargentos casados a viver e comer na messe. Mandei fazer um convite formal, por escrito, em cartão timbrado, para o sargento-ajudante que figurava à cabeça da lista, solicitando o favor de o casal jantar, num determinado dia, na mesa da gerência, a horas que já não recordo. Dei instruções claras ao sargento adjunto para que a mesa fosse posta como se nela jantassem sargentos.

Munido de um pequeno caderno de apontamentos (guardado durante muitos anos) no dia e à hora aprazados, fui ter com o casal convidado. Tinham idade para quase serem meus pais.

À mesa, depois de uma pequena introdução de cortesia, perguntei ao sargento-ajudante se tinha queixas a fazer sobre a messe. A resposta foi imediata: «Não senhor, meu alferes!» Sorri e, depois de um pequeno compasso de espera, disse à senhora: «Compreendo a atitude do seu esposo; ele e eu somos militares, mas a senhora não é e, por isso, vai dizer-me toda a verdade, que o senhor ajudante não diz, por razões óbvias.»

Não foi preciso repetir. As queixas saíram de rajada. Fui tomando notas no caderno, uma por uma: faltavam talheres de peixe, um jarro de água servia duas mesas, os guardanapos de pano estavam rotos e só eram mudados ao cabo de oito dias, as limpezas nos quartos não eram feitas, porque as empregadas limitavam-se a mudar a roupa de cama, tinha de se esperar que a loiça fosse lavada, porque não havia em quantidade, não havia talheres de fruta e muito mais. A meio do rol já eu tinha interrompido a senhora para dizer ao chefe de sala para mandar esperar, no bar, o sargento adjunto da gerência. Naturalmente, perguntei à esposa do sargento-ajudante se aquela mesa estava igual à de qualquer sargento e a resposta foi taxativa: «Nem pouco mais ou menos… Aqui não falta nada!».

 

Depois das despedidas e dos agradecimentos fui ter com o sargento adjunto da gerência e dei-lhe a maior descompostura da sua vida, pelo menos, até àquela data. Disse-lhe quanto ele tinha sido mau camarada para com os sargentos, deixando que a mesa estivesse posta com mordomias, que não havia para os comensais comuns. Ficou embatocado! Nunca imaginara que a minha reacção fosse assim.

Na semana seguinte, com outro casal, na mesa havia as faltas devidas e o meu guardanapo tinha um buraco no meio por onde cabia um punho.

Em coisa de três ou quatro semanas estavam repostas as faltas mais fundamentais na sala de jantar dos sargentos e as limpezas e arrumações dos quartos obedeciam a ordens específicas dadas por mim e escritas para que toda a gente delas tivesse conhecimento.

 

Três meses depois da minha tomada de posse, nas vésperas de Natal, ao fazer entrega de brinquedos às crianças ‒ nunca nas messes se tinha feito tal ‒ fui surpreendido, no final, quando me propunha a retirar, pelo avanço de duas crianças. Vinham com dois embrulhos nas mãos: eram duas valiosas peças chinesas que os utentes, os sargentos e suas famílias, me queriam oferecer. Sensibilizou-me a atitude, pois jamais tive conhecimento que qualquer gerente de messe tenha recebido prenda dos hóspedes e dos comensais.

Valeu a pena não ter feito a reunião com os sargentos… é melhor construir pontes de entendimento entre pessoas do que alimentar-lhes, em reuniões, a desconfiança, a raiva e as amarguras.

 

Próximo do final do ano, uma delegação de sargentos pediu-me autorização para organizar, nas instalações comuns (sala de estar, bar e sala de jantar), sem qualquer encargo para a messe, a passagem do ano ‒ de 1967 para 1968 ‒ com recurso a um conjunto musical, a uma ceia, a bebidas e prolongamento da festa até de madrugada.

Depois de pedir autorização ao director-delegado, concordei, com recomendações próprias. A única coisa que facilitei foi o avanço do dinheiro para as compras que iam fazer. Pagaram pontualmente, até ao último centavo.

Estive nessa festa e também lá estiveram alguns outros oficiais. Foi um êxito retumbante, porque os sargentos até convidados civis levaram! Nos dois primeiros dias de 1968, na Beira, nos cafés da cidade, não se falava de outra coisa.

 

Ainda hoje recordo que toda a minha atitude para com os sargentos e a sua messe foi ditada por três ideias bem definidas e bem integradas na minha cabeça: era filho de um sargento; fui educado nos Pupilos do Exército, instituição criada para servir os postos mais baixos da Forças Armadas; e, sem sargentos e soldados, os oficiais são perfeitamente dispensáveis.