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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

13.04.20

Fases da minha vida ‒ 3

(À procura de modelos)


Luís Alves de Fraga

 

Na falta de uma acção educativa por parte dos professores e de todos os militares e civis colocados nos Pupilos do Exército e com responsabilidades sobre os alunos, a educação, o mesmo é dizer, a aprendizagem de comportamentos, de valores sociais e morais tinham duas origens, nos tempos em que por lá andei: nos regulamentos formais e oficiais determinantes da disciplina e nos regulamentos informais estabelecidos pela tradição e transmitidos pelos alunos graduados e/ou mais velhos.

 

Pode parecer relativamente fácil impor as normas disciplinares formais a crianças entre os dez e os doze/treze anos de idade, mas, na realidade, será que era?

Ao olhar para trás é esta a pergunta que se me avantaja na mente, pois quase garanto o contrário.

Na verdade, aprendi/aprendemos a cumprir regras estabelecidas contra punições que temia/temíamos. Mas muitos de nós, mantendo uma aparência disciplinada, fazíamos coisas que representavam a mais absoluta revolta contra uma educação que era só punitiva (não foi por acaso que Alexandre Cabral, ex-aluno, escritor e ensaísta de renome sobre Camilo Castelo Branco ‒ hoje já quase esquecido ‒ intitulou o livro memorialista com o sugestivo nome de Malta Brava). Exemplifico.

 

Quem, do meu tempo, não se lembra de conseguir a chave da cozinha ou do depósito de géneros e ir, fora de horas, quando tudo já estava em pleno sossego, assaltar esses lugares cheios de aventura, mistério e ousadia para se banquetear com belos nacos de chouriço ou queijo ou fosse o que fosse? Quem esqueceu as entradas em zonas proibidas e perigosas (por exemplo, o coro da igreja anexa, caminhando pelo saliente junto ao começo da abóbada) só pelo prazer de contraditar a ordem estabelecida? E, mais simples, muito mais simples, profanar a capela dos ossos? Ou, coisa quase inocente, sair pela mina que dava acesso ao sopé da serra de Monsanto? Ou saltar o muro, lá no canto direito, atravessando a ribeira com risco de meter as botas na água imunda, só para ir ao cinema, em Benfica? Ou, todas as manhãs, levantar-se quando faltavam só cinco minutos para dar entrada na sala de estudo? Ou fumar o cigarrito na zona das retretes?

Eram infracções à disciplina imposta e estabelecida; eram motivos para ser punido, do mesmo modo que o era chegar tarde a uma formatura ou faltar a uma aula sem justificação muito justificada.

Foi-nos ensinado que a vida se vive com regras e normas e directivas; nós aprendemos que as regras, as normas e as directivas podem não ser cumpridas desde que se esteja disposto a correr um de dois riscos: ser punido e ser apanhado em mentira.

 

Seríamos, afinal, tão malcomportados?

Não. Nem pouco mais ou menos! Tínhamos de ter escapes para suportar uma educação impessoal; tínhamos de transgredir em alguma coisa para afirmarmos a nossa individualidade, a personalidade que nos dominava. E, para tal, tínhamos de ter padrões, modelos ou paradigmas que nos ajudavam a formar a personalidade.

Este processo era/foi muito complicado. Para mim, acabou por se tornar simples, pois a idade de entrada possibilitou-me queimar etapas. A explicação passa pela análise dos regulamentos informais, referidos no início.

Mas isso fica para o próximo apontamento.