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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

27.06.20

Fases da minha vida ‒ 29

(A messe de oficiais)


Luís Alves de Fraga

 

Ao contrário da messe de oficiais de Lourenço Marques a da Beira estava instalada num edifício de quatro andares (mais tarde foi reconstruído e ganhou um notável porte em altura) nem todos, em exclusivo, pertença da Força Aérea. No primeiro piso ficava, de um lado ‒ o direito de quem subia as escadas ‒ o café Empório (que recebera o nome pelo qual era conhecido o prédio) e do outro uma cabeleireira e vários quartos pertencentes à messe; o segundo e terceiro andares, de ambos os lados, eram quartos para hóspedes; no quarto piso, do lado direito ficavam quartos e, no outro, a despensa, o armazém de géneros, a cozinha, a recepção, o escritório, o bar, a sala de estar e a sala de refeições.

Já não recordo quantos quartos havia por piso, mas, presumo, seriam vinte e quatro ‒ quatro eram maiores, porque de topo em relação ao edifício. No total, se as minhas contas não estão erradas, a messe tinha como alojamento efectivo, cinquenta e quarto quartos, sobrando um onde estava instalada a delegação das infra-estruturas na Beira, outro para gabinete do gerente e um mais que era armazém e alojamento de dois soldados para reforço da segurança.

Teoricamente estariam alojados na messe cerca de cem pessoas entre maridos e mulheres, tendo de admitir que havia quartos ocupados por um só oficial sem acompanhante ou outros onde o casal dormia com filhos ainda pequenos (a idade média dos hóspedes levava a que a descendência, no caso de existir, fosse de idade inferior a seis anos). Havia um quarto reservado para uso exclusivo do general-comandante da Região Aérea quando passasse na cidade.

 

Ao pequeno-almoço serviam-se cerca de cem refeições, ao almoço o número caía para quase metade e ao jantar subia para mais de cento e vinte.

Quase todos os quartos tinham aparelho de ar condicionado, que trabalhava ininterruptamente durante os meses de Verão ‒ Novembro, Dezembro, Janeiro e Fevereiro ‒ e só muito raramente nos restantes, pois na época fresca e seca o clima era bastante ameno ao contrário do tempo das chuvas onde a humidade do ar atingia mais de noventa por cento e o calor pegajoso era insuportável de dia e de noite.

Também, ao jantar, estava determinado pelo comando da Região Aérea, o trajo civil tinha, para os homens, de incluir casaco e gravata, embora na sala não houvesse qualquer aparelho de ar condicionado e fosse contígua à cozinha onde as temperaturas eram elevadíssimas.

Recordo que, ao assumir a gerência, em Setembro de 1967, fui interpelado, pelos oficiais mais graduados, sobre a possibilidade de alterar a disposição imposta. Perante a resposta negativa, fui eu quem teve de suportar o embate da raiva e revolta. E eu era somente alferes… eles eram capitães e majores!

 

Ao contrário da messe de Lourenço Marques, as esposas dos oficiais pouco ou nada faziam sala na zona própria para o efeito. Admito que tal se devia ao facto de a grande maioria ter empregos na cidade, por um lado, e, por outro, a disposição da sala de estar não oferecer grandes possibilidades para um convívio próximo. Nessa sala, para além de três mesas de jogo, existiam, em separado, três conjuntos de sofás em péssimo estado de conservação, diria mesmo, em estado miserável e inapropriado para qualquer sala de estar.

Talvez, uma das primeiras medidas por mim adoptadas foi a de mandar restaurar os sofás da sala de convívio, que ficaram, por conjunto, com cores diferentes e revestidos a napa. Um desses conjuntos tinha as costas brancas.

Ao cabo de dois ou três meses de cara lavada um dos sofás com as costas brancas apareceu todo riscado a esferográfica azul. Um acto que eu não podia deixar passar em claro.

Pus-me em campo para conseguir averiguar quem era o pai da criança responsável pelo facto, porque só uma criança poderia ter feito tamanha maldade. Depois de várias perguntas ninguém se acusou, muito embora eu tivesse quase a certeza sobre quem recaíam as culpas.

Tomei uma drástica resolução: com um aviso, colocado no painel onde se dava publicidade às decisões da gerência, informei que, na falta de assunção da responsabilidade, havia mandado retirar o sofá danificado e, se tal vandalismo se repetisse, retiraria todo o mobiliário da sala.

 

Fui interpelado pelas senhoras casadas com os oficiais mais graduados hóspedes da messe e mantive uma calma olímpica, reiterando a minha disposição se se continuassem a verificar tais atitudes pouco civilizadas.

Os respectivos maridos, porque majores, participaram de mim ao comandante da Base Aérea n.º 10, na esperança de que me fosse aplicada a sanção disciplinar conveniente. Felizmente, eu dependia do director-delegado e, assim, a participação foi encaminhada para o general-comandante da Região Aérea que, depois de consultar o meu chefe directo, a remeteu ao comandante da Base com um despacho que dizia qualquer coisa como (cito de memória): «O gerente da messe não usou de medidas disciplinares contra superiores hierárquicos seus, mas adoptou uma medida de carácter administrativo que faz dele um zeloso e cauteloso defensor do património da Força Aérea».

Imagine-se como ficaram bem-dispostos comigo os dois majores!

Adquiri, a partir daquele momento, um estatuto que nunca mais se descolaria da minha vida enquanto oficial de Administração. Nem eu desejava que fosse doutra maneira!

 

Os grandes problemas de uma gerência de messe de oficiais resultam da acumulação de todos os pequenos problemas do dia-a-dia repetidos vinte e quatro horas em cada dia, que, ao cabo de um ano de actividade, levam à exaustão, à impaciência e, por vezes, ao desespero: é a torneira da casa de banho que não veda bem, o ar condicionado que não funciona, a limpeza que não foi bem feita, o armário com a porta empenada, o barulho que fazem no quarto ao lado, a colcha da cama que está rasgada, o serviço de mesa que está demorado, a recepcionista que não atende o telefone com celeridade, a conta que inclui um extra não consumido, e tantas, tantas mais coisas quantas a imaginação de cada um pode gerar. A exaustão atingiu um tamanho tal que, ao regressar a Lisboa, estive três meses sem conseguir atender telefones.

Para além de todas as cautelas de gestão havia uma outra que se me impunha prementemente: evitar desvios de géneros cozinhados ou em cru por parte de funcionários das messes (de oficiais e de sargentos), já que a grande maioria era natural da Beira e dos arredores.

 

Um administrador não pode cair na irrealidade de pretender que não haja desvio de qualquer espécie! Ele tem é de ter marcado muito bem a dimensão do desvio, pois quanto mais apertada for a vigilância mais apurada é a manha do gatuno. Para isso é que havia uma forma de designar as diferenças entre o que devia existir e o que realmente existia, eram as quebras! Um bom gestor tem as quebras não só bem controladas, como bem limitadas sem levantar suspeitas nem fazer ondas excessivas. É que o gerente de uma messe tem de ser sensato ao ponto de conhecer as suas fragilidades e vulnerabilidades e elas podem ser exaltadas e usadas pelo chefe dos cozinheiros, pelo chefe de mesa, pelo encarregado do pessoal de limpeza, pelo despenseiro e pelo chefe do pessoal do bar. Exactamente pela ordem acima enunciada.

Mais que o sargento adjunto da gerência das messes, os indicados foram sempre o estado-maior que consultei para tomar decisões de orientação e gestão: tê-los próximos de mim para os controlar sem sentirem que o fazia, foi a minha política.

Esse foi um trabalho que desenvolvi com êxito e fiquei satisfeito.