Fases da minha vida ‒ 21
(A bordo de um paquete)
Como alferes, por conseguinte, oficial, ainda que no posto de menor graduação, eu tinha direito a viajar na 1.ª classe do navio I (havia a 2.ª e a 3.ª classes). A cabine ou camarote que me coube em sorte não era grande coisa, embora fosse espaçosa e com vista para o deque de bombordo. Ficava mesmo ao fundo, quando se caminhava para a ré, junto da escada de acesso à piscina (um tanque de água salgada que chegava para se darem cinco braçadas curtas no sentido do comprimento e três ou quatro no da largura).
Havia o bar, a sala de jogo e de festa, o salão de refeições e o longo deque por onde se podia caminhar ou estar sentado à volta de mesas ou reclinado em cadeiras de repouso.
Navegar num paquete não era, para mim, novidade, por isso sabia que a bordo os passageiros têm distracções várias para ocupar o tempo. Naquela época os paquetes ainda não tinham a configuração de grandes hotéis flutuantes dentro de grandes centros comerciais. Eram confortáveis, com certo tipo de luxo clássico e algum requinte, mas viajar era viajar e não uma fonte de despesa.
Estes navios transportavam, também, carga nos porões que separavam a 3.ª classe, a vante, da 1.ª classe, a meia nau, e no espaço desta para a 2.ª classe, que ficava à ré.
As primeiras vinte e quatro horas de navegação, como vim a perceber, reservava-as o comandante do navio para nos ambientarmos ao espaço e às condições primárias de vida a bordo. Fomos descobrindo as salas, os salões, o bar e o modo como nos devíamos deslocar.
Chegámos ao Funchal, uma ampla baía que se não restringe ao espaço marítimo frente à cidade, creio, depois do almoço e, de imediato, tomei a decisão de visitar de novo, a cidade. Nunca são excessivas as incursões, pelo menos, naquela urbe. Ver o mercado dos lavradores e a baixa absolutamente cosmopolita é imprescindível, principalmente em época invernosa, como foi o caso. E a razão é simples: sai-se de Lisboa agasalhado para os nossos frios e chega-se ao Funchal e suporta-se andar sem sobretudo, sem luvas, bastando o normal fato, camisa e gravata. Mas eu tinha mais uma razão sobre todas as mais comuns para visitar a baixa funchalense: ir beber um copo de leite no celebérrimo café-pastelaria Golden Gate, o café que fica à esquina do mundo, no dizer de Ferreira de Castro. Estava a criar tradição, pois a primeira vez que estive no Funchal, com a idade de seis anos, o meu pai levou-me a beber o copo de leite ao, já então, afamado Golden Gate; fez-me um discurso sobre as virtudes daquele leite com gordura (por estranho que possa parecer ainda recordo o sítio exacto onde estava a mesa e como eram as cadeiras). Íamos a caminho dos Açores. Na volta tornámos a beber leite no estabelecimento. Quando fui, com a idade de quinze anos, agora sozinho, à terra do meu pai, repeti, nas duas viagens, o que havia feito antes (aqui para nós, sempre que volto, vou lá tomar um copo de… vinho Madeira e já não o de leite!)
Saímos ao fim do dia, já noite, e deliciei-me com o espectáculo de ver o Funchal iluminado semelhante a um grande presépio. É inesquecível a paisagem.
No dia seguinte, ao almoço, tínhamos companhia. Eu conto.
No salão de jantar havia várias mesas para quatro pessoas e uma maior, ao topo, que tinha seis ou sete lugares. Nessa surgiu o comandante do navio, como anfitrião, acompanhado de personagens que, admito, seriam militares de elevada graduação e pessoas distintas, na época. Recordo-me de uma senhora com cerca de trinta e tal anos, bonita, trajando, ao longo dos dias da viagem, vistosos saris.
Nas restantes mesas estava um oficial chefe de cada um dos diferentes serviços de bordo. Na minha calhou-me o castiço senhor Vinhais, chefe do serviço de máquinas, homem à volta dos cinquenta e poucos anos. Procurava fazer conversa de ocasião, mas, realmente, aquele não era o seu ambiente natural. Percebi que se sentiria muito mais confortável sentado à mesa de uma tasquinha de bairro a beber umas cervejas e a comer amendoins ou tremoços. O mesmo não acontecia com outros oficiais do navio com quem tive oportunidade de cavaquear naqueles longos dias de navegação.
Por cima do salão havia uma espécie de balcão ou um mini palco onde actuava, durante as refeições, um grupo musical com piano, violinos, e instrumentos de sopro. Estava consensualmente estabelecido que, ao jantar, se ia vestido mais a rigor.
De tarde havia, na sala de jogo e dança, sessões de bingo ou baile ou cançonetas para distracção dos passageiros da 1.ª classe. Noutras tardes havia corrida de cavalos, no deque, ou jogo da malha.
Mal o tempo começou a aquecer a piscina foi cheia de água do mar e, de manhã, davam-se umas braçadas e apanhava-se um pouco de sol.
Devo recordar que a maior estirada na viagem foi entre o Funchal e São Tomé, cerca de dez dias.
A partir de certa altura começou a tornar-se muito mais agradável ficar no interior do navio do que nos deques, pois o calor húmido era quase insuportável e os prazeres do ar condicionado começaram a mostrar a sua importância na região dos trópicos.
Desembarcámos em São Tomé, mas, por não haver cais de encosto, o navio ficou ao largo, usando os passageiros embarcações ligeiras para ir a terra. Fui logo no primeiro transporte e, no pequeno molhe da cidade, encontrei vários oficiais do Exército e, entre eles, estava um antigo companheiro dos Pupilos, em cumprimento do serviço militar obrigatório. Foi agradável e deu-me dicas para a rápida visita que fiz à cidade e aos arredores mais imediatos.
Comprei, a um vendedor ambulante, uma pequena e finíssima bengala ‒ tipo pingalim ‒ que me acompanhou nas duas comissões em África ‒ usava-a como adorno, à maneira britânica, debaixo do braço ‒ e desapareceu há anos, com grande pena minha.
Depois de sairmos de São Tomé reparei num casal, ainda jovem, embora mais velhos do que eu e a minha mulher, que, com muita frequência olhavam para nós, quando estávamos no bar. Criada a condição para chegarmos à conversa, vim a saber que se tratava do, já então, célebre locutor e artista de teatro Álvaro de Lemos. Faziam um casal bem-disposto que nos foi colocando ao corrente da vida em Lourenço Marques. Desconfiei de algumas coisas que me disse, nomeadamente sobre a ausência de clima de guerra na cidade. Achei impossível, mas, por delicadeza, não quis mostrar a minha surpresa. Em boa hora optei pelo prudente silêncio, como se verá mais para a frente.
Acostámos em Luanda, por um dia, outro no Lobito e visitei Benguela, depois foi a vez de Mossâmedes e tive oportunidade de entrar uns quantos quilómetros pelo deserto. Seguimos para a Cidade do Cabo, que visitei, tendo por lá passado uma noite. Aí vi o que era o verdadeiro racismo, praticado, aliás, de parte a parte.
A 1.ª classe, que quase ficara vazia em Luanda, encheu-se com sul-africanos. Nunca tinha visto coisa semelhante; entraram, deixaram a bagagem nos camarotes, e dirigiram-se ao bar de onde não arredaram pé. Bebiam uma cerveja logo seguida de um copo de aguardente! Faziam a viagem, quase não saindo do navio e escolhiam os mais pequenos e que iam mais a norte para terem mais tempo de bebedeira. O seu espanto foi, quando estávamos a chegar a Lourenço Marques, ver o alferes miliciano negro, fardado e a passear-se na 1.ª classe como era seu direito. Muitos viravam a cara para o lado e outros afastavam-se como se o oficial tivesse doença grave e contagiosa.
Interessante foi a noite de Natal a bordo, cuja tripulação enfeitou a rigor as salas de festas e a de jantar onde não faltaram os doces tradicionais da época, ainda que o bacalhau fosse um prato alternativo.
O desembarque em Lourenço Marques fez-me acordar para uma outra realidade: a guerra, que, julgava eu, iria ser o ambiente da capital da província, como na altura se designava.