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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

13.06.20

Fases da minha vida ‒ 20

(Alferes e Moçambique)


Luís Alves de Fraga

 

Mal conclui o tirocínio, na Base Aérea n.º 1, em Sintra, fui mandado marchar para a Base Aérea n.º 2, na Ota, a alguns quilómetros de Lisboa, onde era difícil chegar rapidamente se, acaso, perdesse a pequena camioneta de passageiros, que transportava os oficiais e partia de Lisboa, só parando, depois, junto ao edifício dos bombeiros do bairro da Encarnação, pouco antes de entrar na exígua autoestrada existente até Vila Franca de Xira. O transporte não esperava por ninguém! Uma vez perdido, cerca das sete horas da manhã, restava a alternativa do comboio e de uma carreira de autocarro, que só chegava à porta de armas da Base ao meio-dia.

 

Comandava a Base um jovem coronel, promovido àquele posto por distinção na guerra em Angola, que, oito anos depois, se vai tornar conhecido do povo português, dada a sua participação na Junta de Salvação Nacional, criada na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974: Diogo Neto.

A unidade era uma das mais completas de Portugal continental. Para além de por lá se fazer a instrução inicial de voo, especializava pilotos na manobra de aviões a jacto: os T-33 A, Shooting Star. Voava-se, ainda, o F-86 Sabre. Foi por altura da Primavera que, depois de montado, passou a ser operado o Fiat G-91, uma aeronave com uma elevada velocidade e um efeito psicológico muito notável sobre o combatente terrestre.

Do ponto de vista infra-estrutural era, também, extraordinária esta unidade. Para além dos edifícios necessários para alojar praças do serviço geral, alunos especialistas, instruendos, oficiais e sargentos sem família, tinha um bairro com vivendas destinadas à instalação de oficiais e sargentos casados. Uma magnífica piscina, um campo de ténis e um moderno edifício para servir de messe de oficiais (local onde fica o refeitório, o bar, salas de jogo e outras comodidades de lazer). Ocupava uma muito significativa área de pinhal e quase se constituía num centro urbano autónomo.

 

Fui nomeado adjunto do chefe de contabilidade, que era um capitão ex-aluno dos Pupilos, bastante mais antigo do que eu, com formação feita na Escola do Exército. Já estavam colocados no conselho administrativo, também como adjuntos, dois alferes milicianos (um deles, o Janeira, também antigo aluno). O capitão, VS, tinha um modo brusco de falar, mas era um excelente e competente oficial de Administração. Não pactuava com a mínima tentativa de irregularidade. Toda a vida foi incorruptível até ao mais ínfimo pormenor. Tal facto valeu-lhe nunca ter recebido louvor de qualquer comandante ou chefe.

 

Sabedor de muita teoria sobre tudo ‒ desde finanças públicas até movimentações militares no terreno, passando por contabilidade ‒ faltava-me a prática do dia-a-dia de um conselho administrativo. Ia-a aprendendo pela observação e pela execução das tarefas que o capitão VS me atribuía. Mas, este e o Janeira, ofereceram-se para uma comissão militar em Moçambique, por volta de Março ou Abril, tanto quanto sou capaz de recordar.

Foi substituído por outro capitão de Administração, também ex-aluno dos Pupilos, mas dos que, sendo miliciano, passaram ao quadro permanente sem frequência, sequer da Escola Prática de Administração Militar! Creio, embora sem certeza, terá sido dos poucos antigos alunos que reprovou nas provas de aptidão física no concurso à Escola do Exército.

Era um ressabiado! Pôs-me à prova de toda a maneira e feitio, chegando a humilhar-me só porque eu tinha frequentado a Academia Militar. Se fosse hoje, ter-me-ia queixado hierarquicamente dele. Teve, até ao fim da carreira, atitudes pouco abonatórias do seu carácter. A título de exemplo, recordo uma conversa que mantive com ele, talvez no final do século XX, a propósito de um seu irmão mais velho, sargento de artilharia, que concorreu à Academia Militar e foi oficial daquela arma, tendo, até, mais tarde, concluído, no Instituto Superior Técnico, o curso de engenharia civil. Muitos anos depois, comentando com ele a morte desse irmão e as conquistas por ele conseguidas, teve o seguinte comentário: «Não foi nada mau, para quem andou oito anos na instrução primária!» É assim que certos seres, ditos humanos, se caracterizam!

 

Entretanto, logo no início do ano de 1966, fui convidado pelo director da escola de formação de cabos especialistas para leccionar matemática aos soldados-alunos. O convite era aliciante, pois, durante os meses da instrução, ganharia mais quinhentos escudos (dois euros e meio, convertendo para a moeda actual). Ora, o meu soldo ilíquido era de dois mil e quatrocentos escudos (um pouco menos de onze euros) e só a renda do pequeno apartamento que aluguei no bairro da Graça, em Lisboa, era de mil cento e dez escudos (cinco euros e cinquenta e quatro cêntimos).

Por esta altura, já casado, dava, nos tempos de repouso, explicações particulares de Matemática, por cuja hora cobrava, se a memória não me atraiçoa, entre vinte e vinte e cinco escudos (qualquer coisa como dez a doze cêntimos do euro). Era um complemento para arredondar os ganhos.

 

Os meses passaram numa relação de trabalho tensa e insatisfatória. Aprendi coisas curiosas sobre o modo como me devia comportar com subordinados hierárquicos, nomeadamente os sargentos.

Um velho sargento-ajudante, conhecedor do seu trabalho, certa vez, pediu-me explicações sobre como fazer determinada operação com a Agência Militar. Eu sabia o que me perguntou, mas percebi a armadilha. Resposta: «Então o senhor ajudante a trabalhar há tantos anos nesses assuntos vem fazer-me uma pergunta tão fácil? Ora vá para a sua secretária e resolva o problema!» Nunca mais teve dúvidas.

Noutra altura foi um sargento, alentejano e bom homem, que, vendo-me atrapalhado com a conferência de uma longa soma, já depois de toda a gente ter ido almoçar, se abeirou da minha secretária e disse-me: «Meu alferes, vou dar-lhe uma ajuda, se não importa.» Ficou um quarto de hora e, ensinou-me um truque simples para fazer a conferência. Nunca mais esqueci.

 

Creio que pelo final de Outubro ou começo de Novembro saiu na Ordem à Aeronáutica a minha nomeação para comissão de serviço em Moçambique. Respirei de alívio.

Como levava a minha mulher tive a possibilidade de requerer o embarque por via marítima ‒ era uma viagem turística oferecida pela Força Aérea.

Embarcámos num navio rasca ‒ o Império ‒ de propósito: levava mais tempo, mas passava por mais portos onde, provavelmente, nunca voltaria a expensas minhas!

 

Parti a 6 de Dezembro de 1966. Íamos chegar vinte dias depois a Lourenço Marques.