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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.04.20

Fases da minha vida – 2

(Primeiros passos nos Pupilos)


Luís Alves de Fraga

 

Entrei para o Instituto dos Pupilos do Exército nos primeiros dias de Outubro de 1954, para o, então chamado 2.º ano do ciclo preparatório, porque, no ano anterior, não houve vagas suficientes e, por pouco, fiquei de fora.

A minha irmã havia casado em Setembro e os meus pais foram passar férias para o Monte no mesmo mês em que eu mudei de vida.

 

Não tinha consciência de terem decorrido menos de dez anos sobre o fim da 2.ª Guerra Mundial (para nós, em jovens, dois ou três anos é uma eternidade!) e, por conseguinte, das dificuldades que se faziam sentir na sociedade portuguesa. Isso, contudo, reflectia-se nos Pupilos: ainda havia austeridade especialmente notada na alimentação. Mas lá chegaremos…

 

Olhando à distância de mais de sessenta anos para aquele estabelecimento de ensino, a grande crítica a fazer aponta para o facto de estarmos, realmente, muito sozinhos, muito entregues a nós mesmos.

Vou tentar ser mais explícito.

Os professores, na maioria esmagadora, eram oficiais do Exército que davam aulas ‒ às vezes, sabe Deus e Deus sabe, sem a menor vocação para o ensino ‒ de todas as disciplinas. Nos chamados Trabalhos Manuais havia um mestre, normalmente homem de poucas letras mas muita prática, que tentava fazer dos mais desajeitados ‒ como eu ‒ tipos capazes de saber pegar numa lima, numa plaina, num esquadro para fazer qualquer coisa, em madeira, com forma e feitio.

 

Não havia, nessa altura, uma relação com os docentes que fosse para além de explicar e aprender as matérias. Não havia um conselho; às vezes ‒ e não poucas ‒, ouviam-se reprimendas. Notavam-se tiques (havia aquele major que, todos os anos, para explicar o movimento do pêndulo, dava, com o ponteiro, uma cacetada no candeeiro do tecto… esperávamos que o globo se partisse ou tudo aquilo saltasse e viesse cair em cima de algum de nós!).

Para além dos professores e mestres éramos enquadrados por oficiais com funções específicas: comandante do corpo-de-alunos, comandantes de companhias de alunos e outros oficiais que, por serem instrutores de educação militar e educação física ou desempenharem funções administrativas, faziam serviço de dia (vulgo oficial de dia). Ora, acontecia que nem mesmo os comandantes de companhia ‒ estou a lembrar-me do capitão Uva, por exemplo ‒ exerciam, quando entrei, qualquer tipo de acção pedagógica sobre os novos alunos. Havia, depois, uns sargentos com cargos nas companhias de alunos ou noutros departamentos que, também eles, não transmitiam mais do que o receio de uma participação no caso de estarmos a cometer qualquer tipo de falta.

 

Em face disto ‒ que foi exactamente assim durante, pelo menos os três primeiros anos de sete que por lá andei (note-se, entrei com treze anos para aquilo que hoje é designado por sexto ano de escolaridade) ‒ cabe aqui a pergunta:

‒ Que educação me foi transmitida no Instituto dos Pupilos do Exército, por quem e como?

 

Julgo, é a primeira vez, que vou tão fundo na análise dos tempos iniciais de internato. Assim, resta-me dizer que havia recebido, em casa, suficientes princípios educativos, mas ia entrar na adolescência e era ainda tempo para aprender muito sobre como viver. Como é que o fiz?

Explicarei no próximo apontamento.