Fases da minha vida ‒ 17
(A Força Aérea)
Quando me apresentei no Estado-Maior da Força Aérea, situado na avenida da Liberdade, este ramo das Forças Armadas havia acabado de completar treze anos de existência. Assim, posso considerar-me, hoje, um pioneiro da Aeronáutica Militar e, por isso, reflectir sobre essa Força Aérea inicial.
O novo ramo nasceu da junção de material e homens das Aeronáuticas Militar e Naval. E, só o facto de ser uma junção, foi suficiente para gerar uma certa hibridez no conjunto. Não havia, ainda, o verdadeiro espírito de corpo, aliás, muito difícil de criar quando, à partida, alguns se sentiam diferentes dos restantes, quando alguns chamavam a si a razão de ser da força, a glória dela existir e não arrastavam, nem distribuíam, pela totalidade do efectivo, os louros alcançados, antes lhe atribuíam as responsabilidades das falhas.
Claramente, na Força Aérea da minha iniciação, havia os pilotos e os outros; entre os oficiais pilotos existiam três separações: os que tinham vindo do Exército (em muito maior número), os provenientes da Armada e os oriundos de sargentos. Assim, muito embora se disfarçasse muito, a Força Aérea não era um corpo; era um ajuntamento.
Na minha especialidade ‒ designada, então, de um modo que a menorizava, por Serviço de Intendência e Contabilidade ‒ os oficiais dos mais altos escalões ‒ majores, tenentes-coronéis, coronéis e o brigadeiro ‒ eram todos oriundos do Exército, com frequência do curso de Administração Militar na Escola do Exército; daí para baixo começava a grande balbúrdia, que permitiu, facilitou e consolidou a menorização do Serviço. Balbúrdia, que passo a explicar.
Porque a transição de tenentes e de alferes de Administração Militar ou de Administração Naval para a Força Aérea não se fez em quantidade suficiente, porque demoravam anos a formar, na Escola do Exército/Academia Militar/Escola Naval, esse tipo de oficiais, porque o mais importante era ter os aviões a voar, porque era nos pilotos que assentavam os pilares da espinha dorsal da Força Aérea, Kaúlza de Arriaga, major e tenente-coronel engenheiro do Exército, mas subsecretário e, depois, secretário de Estado da Aeronáutica, entendeu por bem colmatar a falta de oficiais com a formação apropriada e conveniente, admitindo oficiais milicianos do Serviço de Administração Militar do Exército ou já directamente da Força Aérea, com habilitações mínimas em Economia, Finanças ou Contabilidade somente. Quando digo mínimas, às vezes, não passavam da alínea g) do, então, sétimo ano dos liceus ‒ condição básica para entrar no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras ‒ e o respectivo curso de oficial miliciano feito na Escola Prática de Administração Militar; chegou ao cúmulo de admitir antigos alunos dos Pupilos do Exército habilitados somente com o curso de contabilidade.
Estes oficiais, sem mais requisitos ou formação específica na área da Administração e das Finanças e, menos ainda, na de oficial do quadro permanente, foram ocupando todos os postos da hierarquia, muitos deles, chegando a oficiais generais.
Não me julguem mal os que pensam estar por trás das minhas anteriores considerações algum espírito elitista, porque, aceitando como corrente e normal esta forma de recrutamento de oficiais para o quadro permanente, para que serviriam as Academias Militares? Ora, o facto é que elas existem, pelo menos em todos os Estados europeus, para não dizer de todo o mundo!
Realmente, o que eu penso é que, nesse tempo, tal como ainda agora, prevalecia, na Força Aérea, um tipo de elitismo específico: o piloto-aviador é necessariamente superior e, por o ser, carece de formação coberta por um diploma de uma Academia; os restantes oficiais existem para “fazer funcionar” a Força Aérea, desde que o façam de modo a que os aviões possam ir para o ar.
Claro, este elitismo demonstra um completo desrespeito pelo Conhecimento e pelo conhecimento castrense, pois, como julgo ter provado antes, a socialização militar profunda exige tempo, treino e, por isso, vocação. Daí que, nas boas-vindas dadas, em 19 de Outubro de 1961, na Academia Militar, nos tenha sido enfatizado o facto de, pela carreira das armas, ninguém conseguir chegar à fortuna. Isto estabelece a diferença entre uma escolha para ter um ganha-pão e optar por servir o Estado na defesa nacional.
Recordando a Força Aérea de 1965, lembro, para além dos diferentes tipos de engenheiros (alguns sem reconhecimento académico em Portugal), uma série especialidades preenchidas por oficiais ou oriundos de sargentos ou de oficiais milicianos passados aos quadros através da frequência de cursos técnicos ministrados na, então, Base Aérea n.º 2, na Ota, onde se concentrava, na prática, quase todo o saber especializado do ramo: ali fazia-se recruta e curso de cabo, de sargento e de oficial especialista. Eram raras as especialidades que iam fora para aprender fosse o que fosse ‒ talvez os da área de electrotecnia, que frequentavam a Escola Militar de Electromecânica, em Paços de Arcos. Na fase inicial, nos anos de 1950, bastantes sargentos foram aos EUA fazer cursos práticos para conseguirem levar a bom termo a manutenção da frota aérea renovada com material americano.
Teriam de passar mais de duas dezenas de anos para, através de umas quantas medidas acertadas, levar este bando fardado até ao que de mais semelhante pode haver com um ramo das Forças Armadas.
Irei, com calma e paciência, mostrando essa mutação.