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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

07.06.20

Fases da minha vida ‒ 16

(O estudo e as classificações)


Luís Alves de Fraga

 

Ao ingressar na Academia Militar, ido dos Pupilos do Exército, foram várias as novidades encontradas ‒ algumas já referidas ‒, mas a que contundiu mais com os hábitos adquiridos por mim, em anos de internato, foi a relacionada com as horas destinadas a estudo.

Com efeito, nos Pupilos só tínhamos duas horas e meia para estudar, que exigiam um grande aproveitamento do tempo, mas, na Academia, as horas de estudo, creio, eram duas, antes do jantar, e não era exercida grande vigilância sobre quem as utilizava para o fim previsto ou para outro qualquer. Isto foi a minha perdição, no primeiro ano. Perdição acumulada com a dificuldade das matérias leccionadas (as tais do primeiro ano da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

Vejamos como se harmonizaram os astros para desgraça minha.

 

Habituado a testes ‒ na altura, chamados pontos escritos ‒ deparei-me com a total ausência de controlo do saber até às primeiras frequências, por volta de Fevereiro. Assim, passava as horas de estudo a escrever contos, a ler romances, a compor epístolas para uma namorada que tinha, a fumar, a conversar, enfim, a fazer tudo menos a apreender as complexas matérias leccionadas em aulas teóricas ‒ durante as quais, consequência da lengalenga das explicações doutorais, era possuído do maior sono jamais imaginado ‒ e em aulas práticas onde, de prático, fazia quase nada.

Está claro, as notas do final do primeiro semestre foram uma desgraça completa! Tão desgraçadas que, por volta do mês de Abril, me convenci de que só um milagre me podia salvar. E, na minha cabeça, o milagre começou a ganhar forma: a guerra em Angola ia acesa e rija, a marcha de contingentes militares para África fazia-se em grande velocidade, donde, era preciso despachar oficiais também, depressa e em força, de modo a seguirem de pronto para a colónia. Acrescia que, em Portugal, a situação política parecia estar instável ‒ ocorrera, no começo de Janeiro de 1962, o assalto ao quartel de Beja ‒ provada pelas sucessivas entradas de prevenção das unidades militares (e da Academia Militar também). Logo, não ia ser por causa das Matemáticas Gerais, da Geometria Descritiva e da Física Geral que se deixaria de fazer oficiais do quadro permanente. Assim, o problema não era meu, mas deles! Deles, ou seja, do ministro do Exército, do comandante da Academia e dos respectivos professores, que tinham ali mesmo à mão de semear uma caterva de jovens entusiastas capazes de pegar em armas e defender o Império. Seria verdadeira estupidez desprezar tamanha oportunidade!

Tal como eu, uma boa multidão de jovens cadetes acreditou no milagre: o problema era deles!

Realmente, em Julho, depois das manobras finais, o problema foi nosso: reprovámos redondamente, sem apelo. Ou seja, de trinta e dois alunos do primeiro ano de Administração Militar, passaram para o segundo, salvo erro, nove! Na verdade, aprovaram somente vinte e oito por cento dos alunos!

 

No ano seguinte arranjei como desculpa para o chumbo o facto de gostar muito de ser cadete! Era uma vida cheia de maravilhas… Mas apliquei-me ao estudo com afinco!

Foi por via desse afinco que fui punido a primeira vez na Academia (punição escolar, que não fica registada no processo individual, depois da ascensão a oficial). Eu conto.

 

Corria, provavelmente, o final do mês de Maio ou o começo de Junho e era uma sexta-feira à tarde, momento dedicado às célebres marchas pelas estradas secundárias que cruzavam a Amadora e iam até Belas, serra da Carregueira, Caneças, À da Beja e por aí fora; marchas onde fardávamos de fatos camuflados, capacete de aço, cartucheiras, cantil e a velha espingarda Mauser. Eram quilómetros para lá e para cá, de maneira a chegarmos ao aquartelamento próximo das seis horas, com bolhas nos pés e um cansaço que nos invadia completamente, quase nos incapacitando para outras actividades. No sábado seguinte, de manhã, íamos ter uma frequência ‒ a última ‒ de Geometria Descritiva; na anterior a minha nota fora fraca e se não a compensasse significativamente iria parar a exame final e poderia reprovar, facto que me punha a meio caminho da saída da Academia. O mesmo se passava com o meu amigo e camarada de curso, também antigo aluno dos Pupilos, António José Mendes Dias Trancoso. Tomámos uma resolução: faltar à marcha e ficar a estudar na camarata, onde seria improvável irem procurar-nos. Pensado e feito.

Numa das voltas do batalhão, ao passar por uma sebe, que oferecia condições para não sermos vistos, saímos e fomos, equipados, para a camarata, e, fazendo da cama estirador e dos baús bancos, começámos a rever a matéria empenhadamente. Como estava de costas para a porta não vi entrar o oficial de serviço ‒ único que tinha de ficar nas instalações ‒ que nos viu, sem a mínima réstia de dúvida, a estudar. Não teve compaixão. Participou e fomos punidos com a módica quantia de cinco dias de prisão escolar cada um! Equivalia a dez dias de detenção, facto que me dava margem de trinta dias para futuras punições. Houve quem, no ano anterior, por estar ausente desde uma quarta até à segunda-feira seguinte, só fosse punido com o triplo do número de dias de prisão! Às vezes, mais vale cair em graça do que ser engraçado!

 

Passei o ano e fui progredindo, em marcha normal, nas matérias, daí para a frente, fáceis de concluir, por serem ou de índole técnica (dessas tinha mais do que a necessária preparação adquirida no curso dos Pupilos) ou de natureza castrense (dessas eu gostava).

No terceiro e último ano do curso era-nos dada a possibilidade de escolher entre prosseguirmos carreira no Exército ou passar para a Administração Aeronáutica (a Força Aérea ainda não tinha a sua Academia). Poucos optámos pela segunda solução, mas, mesmo assim, alguns ficaram excluídos por falta de vaga: estávamos escalonados por classificação e esta contava até às centésimas.

 

Foi nesse ano que se iniciou a disputa pela obtenção de melhoria de notas, pois alguns camaradas meus sabiam da importância futura de ficar à frente ou ficar a trás… Isso poderia representar anos na promoção ao posto imediato. E, por causa disto, passaram-se coisas pouco dignas e dignificantes, que me escuso referir, mas que não esqueci, e, como se vê, não esqueço. Mesmo assim, consegui ficar classificado em penúltimo lugar num curso (o de Administração para a Força Aérea) de oito alunos. Estávamos no ano de 1965.

A guerra havia-se estendido à Guiné e a Moçambique. A falta de oficiais do quadro permanente era enorme. Nesse ano, sim, o Exército estava com um grave problema entre mãos. Tão grave que se tornou determinante para que o último passo do curso da Academia Militar fosse abreviado: não tivemos férias e iniciou-se logo o tirocínio, que, na Administração Aeronáutica, acabou nas primeiras semanas de Dezembro de 1965.

 

Foi promovido a alferes com a antiguidade de 1 de Novembro desse ano. A minha vida profissional ia começar.

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