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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.06.20

Fases da minha vida ‒ 15

(Instrução física e militar)


Luís Alves de Fraga

 

Desde o primeiro até ao último ano do curso da Academia Militar a actividade física intensificava-se e mudava de modalidade, ou seja, aquilo que no início se limitava a ginástica, hipismo, marchas de média distância com equipamento e armamento completos e ordem unida, no ano final passava à prática de boxe, judo, luta militar, aplicação militar (exercícios incluindo todo o tipo de obstáculos e outros mimos).

 

O objectivo era evidente para quem estivesse com atenção e algum espírito crítico: criar, em doses sucessivas, o endurecimento, a coragem, a resiliência nos futuros oficiais. Claro que estes aditamentos, porque não são de natureza física, instalavam-se, com maior ou menor firmeza, nas nossas mentes, gerando mecanismos psíquicos para nos capacitarem a enfrentar o esforço físico e o sacrifício em combate. A morte e a dor teriam de nos passar ao lado de forma a não afectar a determinação nos actos de obediência e de comando. Só um treino desta natureza justifica que não tenham sido muito grandes ‒ em número e gravidade ‒ os casos de stress pós-traumático entre os oficiais do quadro permanente durante e no fim da guerra em África. Não me restam dúvidas, nós saíamos bem preparados para, psicologicamente, suportar embates de várias naturezas. Acima de todos havia um que, sem dúvida, caracterizava (e deve caracterizar ainda) os jovens alferes, tenentes e capitães do meu tempo: a capacidade de tomar decisões em situação de desnorte, caos ou catástrofe. Podiam não ser as melhores decisões, mas havia sempre uma, qualquer que fosse.

Como exemplo desta situação ‒ verificável pela consulta dos jornais da época ‒ temos os títulos das notícias, na sequência do dia 25 de Abril de 1974, chamando aos capitães os homens sem sono, porque acudiam a toda a hora e em qualquer circunstância aos mais diferentes pedidos de intervenção para resolver problemas sociais, políticos e, até, económicos. Afinal, o que estava em jogo, era a capacidade de decidir em ambiente de anomia social. Era para isso que tínhamos sido preparados.

 

Explicar os mecanismos usados, ao nível da instrução militar, para alcançar o fim indicado, não é tarefa fácil, mas vou tentar, através de exemplos pessoais, juntar aqueles que, na minha opinião, terão servido para o efeito.

Como já referido, o hipismo é, e foi, a modalidade mais apropriada para aprender o que fazer e como fazer no momento certo, pois não se trata somente de uma técnica que se conhece, porque, na sua prática, estão em jogo duas vontades autónomas e completamente independentes: a do cavaleiro e a do cavalo. O primeiro tem de dominar o segundo, sendo que este procurará impor a sua vontade, se não se sentir subordinado.

A velha e desgastada pergunta dos instrutores de hipismo, quando um cadete era atirado ao chão pelo cavalo ‒ «Quem o autorizou a desmontar?» ‒ não era absolutamente nada sádica! Ela traduz o que acabei de referir: sem autorização do instrutor, o acto de desmontar só podia resultar da vontade do cavalo e essa não tinha cabimento no picadeiro! E não se pense que, a este propósito, o nosso rei D. Duarte era um simples pensador sem razão. Ele, como qualquer cavaleiro medieval, conhecia bem o valor psicológico de montar toda a sela (há selas mais fáceis de montar do que outras). E o que era verdade no século XV continua a ser verídico nos séculos XX e XXI.

 

Uma outra modalidade de instrução decisória passa pelo exercício da liderança e, para tal, todos os cadetes eram treinados, comandando temporariamente conjuntos de camaradas seus. Creiam, não é nada fácil exercer acção de comando ou chefia sobre iguais, sobre aqueles que se sentem tão habilitados para o exercício do mando como aqueles que os mandam. Para se alcançar essa capacidade não basta ser empossado no cargo; é preciso conseguir superioridade sobre quem se comanda, ou seja, é necessário saber liderar. Quando se é capaz de comandar iguais está-se habilitado a comandar quem, naturalmente, se sente menos capaz para o exercício da autoridade.

Era isto que se aprendia, ao longo dos meses, dos anos, na Academia Militar do meu tempo.

 

Mas, a prática, ia mais longe, para nos treinar em ambiente semelhante ao que se vive em combate sujeito a grande esforço físico e, até, algum perigo. Disso tivemos a experiência nas manobras, no Campo Militar de Santa Margarida, no começo do Verão de 1962.

Fizemos de soldados, de graduados e passámos por todos os esforços ‒ o que custou foi esse ano, porque, nos subsequentes, já estávamos habituados ‒ comuns a uma dura campanha. As longas marchas sob um sol escaldante, as esperas infinitas para mudar de posição, mas, mais do que tudo, as provas de patrulhas segundo percursos devidamente balizados, às vezes, ouvindo o zumbido dos disparos de armas com munição verdadeira, constituíam um processo de nos ir pondo à prova e, ao mesmo tempo, de nos fazer ultrapassar as dificuldades psicológicas que se levantam em momentos de intenso esforço físico e psiquíco, associando a tudo isto um outro efeito: o da interajuda no grupo.

 

Todos os anos fomos tendo manobras, exercícios e treinos mais duros, contudo, sentidos mais brandamente, pois a nossa forma de estar e pensar já estava a moldar-se dentro do formato que nos devia acompanhar por toda a vida.

A Academia Militar, tal como as suas congéneres da Marinha e da Força Aérea, em Portugal e em todos os países, era ‒ e deve continuar a ser ‒ uma fábrica de oficiais militares.

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