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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.04.20

Fases da minha vida ‒ 1.A

(Coisas do ser e do coração)


Luís Alves de Fraga

 

Afinal, resolvi não passar de imediato para a minha entrada no Instituto dos Pupilos do Exército, porque, ou bem que vou falar de mim e, então, não deixo coisas curiosas para trás ou vou, somente, levantar pontas de véus da minha vida. Assim, opto pela primeira hipótese. Vamos lá a algumas curiosidades ‒ que me lembro ‒ da minha mais recuada infância.

 

O meu primeiro encantamento pelo belo sexo começou ‒ não posso precisar a idade, mas antes da meia-dúzia ‒ quando a minha irmã (mais velha sete anos do que eu) levou, para estudar, lá em casa, uma colega trigueira e com covinhas nas bochechas quando sorria. Não parava de me pendurar na cadeira onde se sentava e não conseguia conter o desejo de a encher de beijinhos. Se eu tivesse cinco anos, ela deveria ter doze. Só não menciono o nome de tal beldade por natural resguardo. Nunca o esqueci!

 

Mantendo-me neste domínio, recordo, o elemento que mais me atraía nas jovens mulheres (meninas com mais dez, quinze anos do que eu): eram os vastos seios, que admirava sem retenção moral ‒ que não tinha ‒ de qualquer espécie… Eram bonitos e, se me perguntassem ‒ que muitas vezes perguntaram ‒, não receava dizer que Fulana tinha umas bonitas maminhas, por serem grandes!

E este desbragamento levava-me a ficar silencioso e calado ‒ o extremo contrário do meu comportamento habitual ‒ em certas circunstâncias, que passo a recordar.

 

Os meus pais gostavam de ir, com outros casais amigos, ao teatro de revista, no Parque Mayer, em Lisboa. Alugavam um camarote de terceira ordem ‒ os mais baratos ‒ e lá entravam quatro adultos, eu e a minha irmã. Ficava ao colo da minha mãe.

Terei visto actuar nomes grandes desse género teatral ‒ Estêvão Amarante, Luísa Satanela, Hermínia Silva, Beatriz Costa ‒ e, não percebendo bem os diálogos dos vários quadros, que faziam rir os espectadores, concentrava-me ‒ recordo-me muito bem ‒ no conjunto de coristas, que generosamente, de acordo com os padrões daquele tempo, mostravam pernas bem torneadas, cinturas estreitas e vastos seios quase a saltar das vestes apertadas, coloridas e reluzentes. Era o meu momento de completa quietude e emudecimento. Como gostava de ver tais beldades moverem-se no palco e pavonearem-se ritmicamente ao som de músicas, que nem recordo nem saberia repetir, tal a minha absorção no quadro onde se deleitavam os meus olhos, já então, gulosos!

Para gáudio de alguns adultos amigos dos meus pais, quando me interrogavam sobre a minha redobrada atenção explicava tudo muito claramente e, posta a hipótese de poder ir até aos bastidores, uma vez, inquiriram-me sobre o que gostaria de lá fazer ou ser; a minha resposta foi desconcertante: espelho! Espelho para ver as coristas vestirem-se despirem-se!

 

Algo de semelhante ocorria quando íamos ao Coliseu dos Recreios assistir a espectáculos circenses. Nunca me encantaram os ilusionistas que tiravam coelhos da cartola, nem os domadores de leões, nem os apresentadores de cães amestrados. O que me enfeitiçava mesmo eram as partenaires nos seus fatos minguados, cheios de lantejoulas, bamboleando-se ao fazerem gestos largos, que permitiam ver as curvas fartas, à moda da época.

 

Saltando no tempo, talvez quatro ou cinco anos, no Carnaval de 1951, a grande moda musical, um furor, foi a raspa!

Nesses dias de folguedo, fomos a um dos vários bailes do Lisboa Ginásio Clube, onde eu e a minha irmã, desde sempre, praticávamos educação física. Por lá conheci uma menina dois anos mais velha do que eu ‒ a Maria Amélia ‒ que morava na minha rua, um pouco lá mais para baixo. Confesso, foi a minha primeira grande paixão verdadeiramente amorosa.

 

Naquele tempo, tudo era difícil. As meninas não saíam de casa quando queriam e não havia justificação para se encontrarem com um rapazinho desconhecido da família. Resultado: restava-me esperar, especado, em frente do prédio, olhando a janela e assobiando a raspa ‒ cujos acordes ainda sei ‒ na esperança de que a Maria Amélia viesse espreitar e me compensasse com um sorriso ou, maravilha das maravilhas, com um aceno de mão.

Nada aconteceu. A paixão durou ainda uns meses, mas, depois, foi substituída por uma outra nascida nos bancos da catequese, na igreja dos Anjos.

 

Era uma menina loura, quase angelical, que concitava sobre si o desejo de alguns rapazes ‒ os mais atrevidos ‒ se sentarem ao seu lado, enquanto a catequista falava dos pecados mortais, veniais e das labaredas do inferno.

No inferno estava a minha vida, porque um parvalhão, reguila, chegava mais cedo e sentava-se ao lado da minha diva.

Claro, tudo acabou numa cena de soco e pontapé, no jardim da igreja. Ele ficou com um olho negro e eu com um alto atrás da orelha esquerda. A beldade loura deixou de ir à catequese e nós, os pretendentes, ficámos a olhar-nos de soslaio.

 

Quando me preparava, numa explicadora, para os exames de admissão ao liceu e aos Pupilos, conheci uma menina, também loura e de cabelo comprido, que apagou a lembrança de todas as outras. Era mais velha um ano do que eu e acabou por vir a ser um caso muito mais sério do qual falarei em altura mais apropriada.