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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

08.04.20

Fases da minha vida ‒ 1


Luís Alves de Fraga

 

Tanto quanto me lembro, em criança, nunca quis ser nem cowboy, nem índio, nem polícia (abrenúncio satanás!) nem bombeiro, nem médico ou enfermeiro.

Lembro-me de brincar com a serrinhas de cortar as ampolas das injecções, que o meu pai aplicava, fazendo operações em bonecos de papel pouco imaginativamente inventados por mim. Mas isso não me levava a expressar a vontade de ser médico! Julgo, essa brincadeira era consequência da profissão do meu progenitor.

 

Talvez, por ter nascido durante a 2.ª Guerra Mundial e ter visto muitos filmes sobre o conflito ‒ não existiam limites de idade para assistir a espectáculos ‒ comecei a ter gosto pelas brincadeiras com soldados de chumbo, que os havia à venda em vários locais e com fardas e cores atractivas, imaginando-me a comandar tropas em lutas e confrontos tão variados quanto a minha imaginação me permitia.

Acho que, a acrescentar ao já dito, teve também influência nesta fase inicial da minha vida o facto de o meu avô materno ser 1.º sargento reformado de cavalaria, falar das campanhas de África, contar episódios da Grande Guerra em França e, mais ainda, ter um grande planisfério onde pregava alfinetes com papelinhos coloridos para marcar as reconquistas aliadas.

 

Mas, claramente, ser agente da autoridade cívica, embora andassem fardados e armados, nunca esteve no meu imaginário infantil, porque recordo muito bem a tarde em que foi conhecida a vitória aliada na Europa, a alegria popular na zona da Graça, em Lisboa, e a manifestação espontânea que se gerou, descendo a minha rua e o modo como a polícia de segurança pública atacou à bastonada esses homens, tão-somente por festejarem o fim de um tempo de medo e insegurança. Lembro ainda a raiva que senti subir por mim acima! Não percebi, nos meus quatro anos de vida, o motivo para aquela brutalidade. A minha mãe segurava-me à janela do nosso segundo andar e queria-me calado quando eu gritava uma raiva que, ainda agora, não sei de onde me chegava.

 

A minha antipatia pelos polícias vinha já de trás, por causa da perseguição que faziam às peixeiras, que, ao fim da tarde, gritavam os seus pregões para que as freguesas lhes comprassem os peixes trazidos nas canastras à cabeça. Deixava-me possesso o modo como os agentes corriam atrás daquelas mulheres, obrigando-as a perder mercadoria, que caía no chão, e chinelas, que lhes saltavam dos pés. Depois de terem feito todo o desalinho, os guardas iam-se embora, para a Graça, enquanto as desgraçadas voltavam a recolher os pertences deixados ao longo do passeio fronteiro ao meu prédio.

Creio, assim se justifica a minha antiga aversão pelos polícias ‒ reconheço, é um preconceito sem fundamento nos dias de hoje ‒ e só à custa da lógica racional a ultrapasso no plano pessoal e, até, institucional.

 

Assim fui crescendo e, um dia, já não recordo como, fiz amizade com um rapaz, um pouco mais velho, morador na minha rua. Estava de férias e falou-me do Instituto dos Pupilos do Exército ‒ filho de divorciados, o pai era sargento ‒ onde era aluno. Eu frequentava aquilo que hoje se designa por quarto ano de escolaridade. Entusiasmei-me com a farda, a vida por ele descrita, as possibilidades futuras, coisa que, para mim, naquela altura, não constituía preocupação. Cheguei a casa e disse ao meu pai: «Gostava de ir para os Pupilos do Exército». Pegou-me na palavra e não mais a deixou cair.

Iniciava-se, então, a segunda fase da minha vida.