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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Eu li um livro...

 

Acabei de ler um livro extraordinário, mas, antes de tecer considerações sobre ele, gostaria de vos fazer duas perguntas:

⸺ Alguém se lembra de um homem chamado Varela Gomes?

⸺ São capazes de me dizer quem é António Louçã? Não, não é Francisco Louçã! É António Louçã.

 

Comecemos pelo último.

António Louçã é, de facto, irmão de Francisco Louçã, mas mais do que irmão do político do Bloco de Esquerda e Professor universitário, António Louçã é historiador. E foi como historiador que se cruzou com Varela Gomes. E escreveu a biografia deste coronel do 25 de Abril de 1974 que havia sido o capitão responsável por uma das últimas intentonas contra a ditadura antes do golpe final.

Varela Gomes foi o militar que, na noite de 31 de Dezembro de 1961, liderou a parte militar do “assalto” ao quartel de Infantaria de Beja e levou dois tiros de pistola disparados pelo segundo comandante daquela unidade quando, cheio de coragem, mas com alguma ingenuidade, lhe dava voz de prisão no quarto onde dormia, no quartel.

 

É a biografia de Varela Gomes que, com extraordinário rigor histórico e sem qualquer tipo de preconceito político, António Louçã fez. Todavia, não se ficou pela história desse militar revolucionário, pois, com igual rigor, foi entrelaçando a vida política e social do país na vida do coronel. E chega-se ao fim com a certeza de todas as mentiras, de todas as injúrias, de todas as ignomínias criadas à volta de um militar idealista, revolucionário, puramente revolucionário, que conseguiu, por força desse idealismo gerar contra ele desentendimentos em quase todos os quadrantes políticos nacionais, fazendo, contudo, grandes amizades pessoais.

 

Pela mão de António Louçã, consegue-se perceber o papel desempenhado pela célebre 5.ª Divisão – a da dinamização cultural no PREC – e pelos elementos que a integravam, estando Varela Gomes na sombra. Mas percebe-se também a “descolagem” feita pelo PCP – se é que alguma vez esteve “colado” – da extrema esquerda durante esses tempos em que se aprendia o significado da palavra Liberdade. Percebe-se, com imensa clareza, o papel dos militares mais destacados do MFA. Percebe-se o errado e deformado entendimento de Washington sobre o que acontecia em Portugal. Percebe-se, também, que, como pivot de quase tudo isto, estava, mais em destaque ou menos em destaque, Varela Gomes. Percebe-se o que não foi o gonçalvismo e quando é que houve gonçalvismo. Percebem-se as hesitações de um processo revolucionário e os avanços das forças contra-revolucionárias. Percebe-se o que foi o “regresso” à democracia em 25 de Novembro e o papel de Mário Soares e de muitos dos oficiais ainda de “um certo” MFA. Percebe-se a fuga de Varela Gomes e o seu exílio quando Portugal festejava a democracia sem “revolução”.

 

António Louçã, através de uma escrita impecável, com recurso a fontes fidedignas, entrelaça Varela Gomes no tecido político de Portugal, pelo menos, desde as eleições fantoche de 1958, e gera uma necessidade de leitura rápida para se chegar ao fim daquilo que nós, os mais velhos, vivemos. Consegue aquilo que é virtude num historiador: explicar melhor os acontecimentos e com mais clareza, exactidão e correcção do que são vistos e contados por quem os viveu.

Enfim, é um livro que aconselho a quem ainda o não leu.

Varela Gomes: «Que outros triunfem onde nós fomos vencidos»: Biografia. Lisboa: Parsifal, 2016.

Obrigado António Louçã.

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