Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.05.21

Estratégia Nacional


Luís Alves de Fraga

 

Em 2019 a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou um livrinho intitulado Pode Portugal ter uma estratégia? da autoria de Bruno Cardoso Reis, cuja formação, ao que se diz na badana da obra, foi feita no estrangeiro, nomeadamente na Grã-Bretanha.

O título do livro é bastante sugestivo, pois traz para o domínio do grande público um tema importante, actual e pouco ou nada debatido. Um tema que até, julgo com grande dose de certeza, infelizmente não faz parte das preocupações dos nossos governantes, desde o Primeiro-Ministro ao ministro da Defesa Nacional.

 

Antes do mais, será conveniente explicar que, na maioria das vezes, se utiliza o termo estratégia de maneira errada e inapropriada. Confunde-se, frequentemente, estratégia com política, com táctica, com acção ou medida. Estratégia, numa definição muito simples, é o conjunto de atitudes que, em resposta a uma atitude externa e inteligente, se adopta para impor ao oponente a nossa vontade. Assim, percebe-se que toda a gente faz estratégia nas suas relações até mais íntimas; só que se faz estratégia sem ter noção do que se está a fazer. A estratégia existiu sempre ou, pelo menos, desde que o Homem vive em sociedade.

Claro que a Estratégia Nacional é algo de mais complicado do que aquela que usamos no nosso dia-a-dia, mas, na base, está o mesmo princípio: saber o que queremos conseguir, enquanto nação, quem se opõe ou pode vir a opor ao nosso desejo, identificar com verdade e seriedade as nossas vulnerabilidades, conhecer os nossos pontos fortes, avaliar de forma rigorosa as vulnerabilidades e pontos fortes dos nossos oponentes, estudar e implantar soluções, de toda a natureza, que nos permitam desenvolver acções tendentes à realização dos nossos objectivos, assumindo, assim, a forma de objectivos estratégicos. Este patamar advém da importância do que se quer alcançar ou seja da graduação da segurança nacional que temos em vista.

 

Como se percebe, a componente militar da Estratégia Nacional é reduzida, pois a força armada só deve actuar em dois sentidos, a saber: primeiro e mais importante, como elemento dissuasor em relação à vontade dos oponentes à concretização do objectivo nacional; segundo, como elemento de imposição da vontade nacional em caso de subida do patamar da oposição para níveis bélicos. Daqui resulta que jamais se deve descurar a vertente da defesa militar nacional, pois fazê-lo é reduzir o segmento dissuasor da política e da estratégia. Um Estado desarmado ou mal armado é um convite à aceitação da vontade nacional dos seus oponentes; é um Estado fantoche, sem fronteiras de qualquer natureza.

 

Poderão, os meus leitores mais desprevenidos, supor que hoje, talvez como ontem, se pode confiar nas alianças entre Estados amigos. Ora, não há erro maior do que esse! Explico.

As alianças fazem-se e mantém-se com base na convergência de interesses mútuos e quando se estabelecem entre um Estado declaradamente menos poderoso do que um outro isso quer dizer que o mais fraco se sujeita a aceitar ser explorado numa ou várias das suas fragilidades a troco de protecção militar. A verdade é que tal protecção só existirá em relação a um terceiro se o Estado protector não vir molestados os seus interesses nacionais, defendendo o aliado, pois, na hipótese de sair prejudicado, sacrifica a aliança e o aliado, dando desculpas diplomáticas jamais contestáveis pelo amigo traído. A História está cheia de exemplos desta natureza. Assim, os bons estadistas definem as alianças convenientes, mas não desprezam a componente militar dos seus Estados.

 

Mas a defesa nacional, como disse, vai muito mais para além da defesa militar. Vai até onde?

Vai até onde se quiserem definir vulnerabilidades, todavia, passa sempre pelas grandes infra-estruturas nacionais, que devem ser construídas tendo em conta, pelo menos, dois objectivos: um, servirem o interesse do Estado; outro, não facilitarem nem oferecerem vantagem a qualquer oponente concreto declarado ou potencial; passa pela economia, procurando defendê-la da concorrência estrangeira quer exportando a produção nacional quer gerando resistências às importações; passa pela defesa da moeda, mantendo-lhe a cotação mais conveniente ao desenvolvimento nacional; passa pela educação, orientando o ensino básico e superior para as áreas que retenham a mão-de-obra no país de modo a fixá-la, remunerando-a convenientemente; passa pela definição de uma política industrial e agrícola que aponte para a auto-suficiência; passa pela prática de uma política demográfica acertada e conveniente ao bem-estar nacional; passa pela montagem de serviços de informação estratégica que recolham dados para servirem os interesses nacionais ao mesmo tempo que desenvolvem acções de contra-informação susceptíveis de negar conhecimento aos oponentes reais ou potenciais; passa pela prática de uma política diplomática de valorização nacional; enfim, passa por tudo o que possa trazer vantagens para o país, negando-as às unidades políticas estranhas.

 

Deste apanhado muito sintético do que é a Estratégia Nacional ressaltam as honestas perguntas:

‒ Portugal tem uma Estratégia Nacional? E o Ministério da Defesa Nacional cuida da nossa efectiva defesa?

Responda quem for capaz.

1 comentário

Comentar post