Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

18.05.22

Esta coisa de ser médico


Luís Alves de Fraga

 

Ontem, ao fim da tarde, acompanhei um meu familiar a uma consulta médica de medicina geral e familiar, levada a efeito numa clínica privada, não das mais baratas da Grande Lisboa, porque se sentia com dores de garganta e de cabeça, cansaço geral, um pouco ranhoso e uma ligeira tosse, coisa que já se vinha arrastando, sem tratamento prescrito, desde há cinco dias.

Esse meu familiar tinha tido o cuidado de fazer, em casa, no período em causa, quatro testes rápidos para detecção de Covid 19, os quais deram sempre resultado negativo.

 

Ouvidas as queixas, a senhora doutora, com ar despachado e de quem se queria despachar, observou, à distância de mais de meio metro, com o pauzinho de baixar a língua, a garganta do paciente, auscultou-lhe as costas e, depois de tudo isto, ditou a sua sentença:

‒ Os pulmões estão bem; a garganta está ligeiramente inflamada; mas não há nada melhor do que fazer o teste na farmácia, porque deve estar com Covid ou, depois, logo se vê!

O meu familiar replicou que tinha feito, em casa, havia poucas horas ‒ quatro ou cinco ‒ um desses testes rápidos…

‒ Não, não. Tem de fazer numa farmácia ou num laboratório. Eles depois comunicam ao SNS e, não carece de qualquer atestado ou declaração médica, para justificar as faltas que tenha de dar no seu emprego.

E pronto, ao cabo de seis ou sete minutos de consulta, recebemos um papel com a indicação do tipo de teste (eu julguei que era um daqueles que demoram horas a obter o resultado), uma prescrição medicamentosa de um xarope, pastilhas de Tantum Verde, um anti-histamínico e mais Nimed.

 

Seguimos, de imediato, para o laboratório da cínica onde foi feito o teste exactamente nos mesmos moldes daqueles que se fazem em casa; os outros acabaram ou já nem são aconselháveis. Aviados os medicamentos, o meu familiar recolheu ao seu lar e eu fiquei a pensar…

 

Há pessoas que jamais deveriam ter obtido o diploma de médico com aprovação da Ordem para exercer clínica. E por uma razão muito simples: o exercício da medicina obriga a ter-se vocação e capacidade de empatia com o doente de modo a que se estabeleça um fio condutor de confiança entre o médico e o paciente. Mas não se trata só de empatia; é preciso que o clínico saiba ler nos olhos e na face daquele que tem na frente e, física ou psicologicamente, está a sofrer. Olhar para o doente como um ser absolutamente ignorante dos seus padecimentos e do que espera do médico é coisa que muitos tipos de bata branca e estetoscópio ao pescoço não sabem fazer. Julgo que, nestas condições o curso que lhes estava mais apropriado, na área da saúde, era o de veterinário, porque os pacientes desses médicos, para além de não saberem queixar-se, aceitam qualquer tratamento, medicamento ou sentimento com indiferença, pois, raramente se estabelece qualquer relação emotiva entre quem trata e quem sofre.

 

Na verdade, esta coisa de ser médico não passa por ser um bom aluno na escola básica, no ensino secundário e, até, na faculdade; passa por se ter vocação e capacidade de entrar dentro do sofrimento do outro, não para o lamuriar, mas para o tratar das suas queixas físicas de modo a sarar as dores psíquicas, que surgem do facto de não se ter saúde.

Quem não tem vocação clínica não a exerça. Pode ser um excelente investigador laboratorial, talvez, até um bom professor, mas fuja do consultório. Ganhe dinheiro de outra forma, porque bestas já há muitas e, por cá, abundam as de duas pernas.

1 comentário

Comentar post