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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.10.20

Elísio de Moura e Fernando Fonseca


Luís Alves de Fraga

 

Provavelmente, estes nomes nada dizem aos meus leitores, contudo, são referências da medicina portuguesa.

Do primeiro contam-se ‒ ou contavam-se ‒ muitas histórias verdadeiras, do segundo, nem tantas. Ambos foram professores de medicina. Elísio de Moura era mais velho e a ele se devem os primeiros estudos de neurologia e psiquiatria feitos em Portugal; Fernando Fonseca destacou-se pela cautela dos seus diagnósticos.

 

De Elísio de Moura, bracarense distinto, corre que foi consultado por um paciente que sofria, há muito, de dores de estômago. A consulta foi feita em desespero de causa, porque o homem já havia corrido tudo o que era hospital e consultório médico sem qualquer proveito. O professor ouviu, tranquilamente e sem interromper, as queixas do doente e, no final, simplesmente lhe disse:

‒ Rape o bigode ‒ um bigode de estimação, que o queixoso usava desde jovem.

Intrigado, pagou a consulta e em casa desabafou, com a mulher, a fúria contra o prestigiado clínico.

‒ Rapar o bigode, ele está parvo ou julga que eu sou louco? ‒ disse para a plácida e desesperada esposa.

Os tempos passaram e as dores continuaram. A mulher, sem ter onde se agarrar, dizia-lhe para fazer o que o professor havia mandado. Já desesperado o homem, certa manhã, rapou o bigode. Após quatro ou cinco semanas, as dores no estômago desapareceram ‒ Tenho de ir falar com o médico ‒ resmungava com a esposa. E foi.

 

Perante o mestre o paciente só lhe fez uma pergunta:

‒ O que é que o meu bigode tinha a ver com as dores no estômago?

Elísio de Moura, com bonomia, explicou:

‒ Olhe, o senhor é um vaidoso e tem um tique, lamber, com o lábio inferior, o lábio superior e, por causa de não aceitar ter um bigode já com pêlos brancos, pinta-o de preto, donde, estava sempre a engolir tinta que lhe agredia as paredes do estômago.

O homem rendeu-se, pois, sem bigode e com tique, deixou de sofrer de padecimentos estomacais.

 

De Fernando Fonseca sei uma história ‒ se calhar há muitas mais ‒ que passo a contar.

Perante um quadro clínico difícil, o médico assistente de uma doente com uma embolia pulmonar, quase incapaz de falar e respirar, com a vida suspensa por um fraco fio de cabelo, aconselhou a família a que permitisse chamar o afamado professor para dele obter um diagnóstico mais preciso e a terapêutica mais aconselhável, que ele, médico da paciente há vários anos, não conseguia acertar.

Veio o professor Fernando Fonseca ao quarto da doente, sentou-se e, quando o médico assistente ia explicar o que se passava, com voz imperativa disse:

‒ Deixe a doente falar ‒ e, depois, com tom carinhoso, continuou ‒ Ora, minha senhora, como puder, conte-me tudo o que sente. Não se preocupe com o tempo, porque eu espero o que for necessário.

Ao cabo de mais de uma hora o clínico, mestre de futuros clínicos, já fora do quarto, fez o diagnóstico do mal e deu a indicação da melhor terapêutica a seguir.

 

São duas histórias que podiam acabar aqui, mas, quanto a mim, algo ficava por dizer. Faltava, tal como me dizia o professor da quarta classe, a moral da história, o mesmo é dizer, a conclusão.

São vários os laços que unem estes dois episódios, mas destaco dois, por os julgar mais importantes: o respeito pelo doente mais aquilo que ele tem para dizer e o olho clínico, ou seja, tudo o que não é dito, mas é intuído pelo médico.

 

Trago isto à colação porque, como todos já reparámos, perante médicos feitos a partir dos alunos mais classificados do nosso ensino, só há, usualmente, duas ou três coisas às quais estes jovens clínicos prestam real atenção: ao computador e ao teclado, aos meios auxiliares de diagnóstico ‒ análises, TAC, ressonâncias magnéticas, ecografias e mais uma imensa panóplia que, felizmente, existem ‒ e à receita medicamentosa. O doente, enquanto pessoa, assim como aquilo que ele diz, o que veste, as atitudes que toma, tudo isso passa ao lado destes pólos de uma máquina que serve os seres humanos, mas pouco ou nada têm a ver com humanidade. São médicos sem o tão importante e necessário olho clínico, por isso, ficam tão longe de Elísio de Moura e Fernando Fonseca, que, com muito pouco para ajudar no diagnóstico, faziam verdadeiros milagres.

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