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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.06.22

E se eu fosse americano?


Luís Alves de Fraga

 

Muitas vezes esquecemo-nos de nos colocarmos no lugar do outro para lhe compreender as razões ou, até, a falta delas. Por isso mesmo, resolvi hoje fazer um exercício dialéctico, colocando-me na pele de um americano, nos dias que correm, para perceber como veria esta guerra que acontece na Europa de Leste.

Mas, “ser americano” não é coisa fácil, pois, não consigo estabelecer um padrão médio de cidadão dos EUA, assim, terei de começar por criar alguns tipos de americanos. Correndo todos os riscos possíveis neste exercício (admito estar a deixar de fora alguns pontos de vista, que poderão pôr em causa as minhas conclusões) prefiro arriscar, pois se o não fizer, nada acabo por concluir; logo, é preferível uma conclusão distorcida do que a total ausência de conclusão.

 

Começarei por delinear os tipos de americanos que julgo caberem nesta coisa de ser americano.

O americano rural ‒ homem ou mulher que vive na pequena cidade dos Estados do interior ou no interior dos Estados do litoral.

O americano urbano ‒ homem ou mulher das grandes cidades dos EUA, habituado a ler um jornal de grande tiragem e a ver os telejornais de uma ou de várias estações de televisão, mas que, educacionalmente, não frequentou nenhuma universidade.

O americano urbano com curso universitário ‒ homem ou mulher das grandes cidades que acrescenta ao traçado anterior o facto de ter um curso universitário conseguido numa universidade estatal de classificação mediana dentro do leque de todas as universidades.

O americano urbano intelectual ‒ homem ou mulher que, estando dentro do traçado anterior, frequentou uma universidade com renome dentro do leque de todas as universidades e que tem um bom emprego com um bom nível de vida.

O americano urbano tecnocrata com largos rendimentos ‒ homem ou mulher que, estando dentro dos parâmetros anteriores, vive quase em exclusivo para vencer dentro do seu ramo de actividade.

O americano urbano intelectual e liberal ‒ homem ou mulher que, enquadrando-se do traçado anterior, consegue definir opiniões próprias porque sabe fazer sínteses integrativas do mundo que o rodeia.

 

Creio que através desta meia dúzia de estereótipos sou capaz de dar uma ideia aproximada de como é vista, pelos americanos, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

Comecemos pelo primeiro, que constitui a grande maioria da população dos EUA.

 

Não estarei muito longe da verdade se disser que o americano rural pouco mais sabe sobre o mundo do que aquilo que se passa à sua volta no Estado onde vive. É totalmente influenciado pela televisão, pela propaganda e pela religião; normalmente, é incapaz de pensar pela sua própria cabeça, sendo radicalmente patriota, através de identificar as liberdades americanas como únicas e mais apropriadas para qualquer país; tem tendência a ser xenófobo e racista. Para ele, a Rússia ainda é sinónimo de URSS e de inimigo principal dos EUA. Embora admirando os veteranos de todas as guerras em que os EUA entraram, não gosta muito das Forças Armadas e não aceita o recrutamento militar a não ser que a América corra risco de morte. Este tipo de americano constitui a maioria da população.

 

O americano urbano, porque não tem abertura intelectual de qualquer espécie, é a vítima ideal das televisões e da opinião pública circulante, acredita com facilidade no que lhe é dito pelos políticos que são da sua simpatia. Raramente usa de meios-termos nos seus julgamentos, porque a vida para ele é dicromática. Vive a cidade como local de trabalho e de prazeres básicos: comer e divertir-se. Para ele a guerra russo-ucraniana está bem delimitada pelo que lhe é dito pelos comentadores televisivos ou dos jornais que lê. Nem sempre confunde a Rússia com a URSS, mas, os russos são sempre os maus da fita.

 

Já o americano urbano com curso universitário, embora sujeito ao mesmo tipo de pressão daquele que vive na cidade, é capaz de aceitar a vida com mais cores do que o simples branco e preto, mas, para ele, a América continua sempre em primeiro lugar. Não é um bronco, mas a sua capacidade de diálogo e de compreensão da vida está bastante limitada pela comunicação social. É capaz de ter desejo de visitar países estrangeiros, mas, uma vez fora dos EUA, olha para tudo à luz dos padrões do seu próprio país, transportando sempre uma desconfiança básica que o coloca de pé atrás. Não troca a vida nos EUA pela possibilidade de viver noutro país, pois faltam-lhe os produtos a que está habituado. Pode ter desconfianças sobre a Rússia, mas não é radical, embora a razão esteja sempre nas razões invocadas pelos políticos americanos.

 

De repente abre-se um fosso entre o americano urbano intelectual e todos os restantes grupos anteriores. Trata-se de uma minoria muito activa, bastante esclarecida, que faz questão de ler o que se publica a favor e contra os EUA, embora faça as suas opções políticas que podem ir do lado esquerdo do leque ideológico até ao lado direito. É neste grupo que se encontram as mentes mais críticas da política americana, seja porque a acham moderada ou porque a consideram extremista. Têm plena consciência do que é a liberdade de expressão e de como a podem usar para defender ou atacar os pontos de vista oficiais ditados por Washington. Quase nunca renegam a sua condição de americanos, mas são capazes de compreender as culturas diferentes da sua. Ocupam cargos de destaque médio/superior no sistema educacional, na política e na comunicação social. Face à guerra entre a Rússia e a Ucrânia tanto a podem atacar como defender com argumentação devidamente estribada em autores ou investigadores de crédito, porque estão habituados a ler, em inglês, autores estrangeiros, nomeadamente europeus.

 

Quase em oposição ao grupo anterior surge o americano urbano tecnocrata com largos rendimentos. Trata-se de gente que poderia integrar-se no patamar dos intelectuais, mas que, acima de tudo, se rendeu ao deus dinheiro e, por isso, defendendo os interesses dos grandes financeiros americanos, defende os seus próprios interesses, de modo a poder manter um nível de vida invejável junto dos seus compatriotas. É gente que, com grande surpresa de todos, de um momento para o outro muda de campo e ataca os anteriores patrões, pondo a nu todos os podres do sistema. Claro que esta situação ocorre ou já muito tarde na carreira, em especial quando não depende dos rendimentos do trabalho, ou quando, detentor de um bom fundo de maneio, espera obter maior projecção nacional ou internacional. Porque, no fundo, são mercenários ao serviço de interesses alheios, sem esquecer os seus próprios interesses, nunca podemos acreditar no que dizem sobre o conflito no Leste da Europa, pois afirmam aquilo que admitem ser de mais interesse para a entidade que lhes paga (de certa maneira, é neste grupo que incluo os oficiais superiores e generais dos EUA, bem como a maioria dos diplomatas daquele país).

 

Chegamos ao último dos estereótipos que, por minha exclusiva vontade, escolhi para arrumar a população dos EUA: o americano urbano intelectual e liberal. Este grupo é, na minha opinião, minoritário, porque precisa de reunir os conhecimentos dos dois anteriores sem, contudo, fazer outra opção que não seja a da completa liberdade de expressão do pensamento sem qualquer tipo de sujeição a ninguém: afirma-se, por decisão própria, completamente capaz de, sendo um guardião da democracia, defendê-la mesmo que tenha de colocar em causa todo o sistema democrático tal como ele existe nos EUA, ou seja, com todas as entorses de que padece ao dizer que defende a liberdade de todos, acabando por vigiar todos, através de um sistema policial secreto. Estão neste grupo aqueles que criticam toda ou parte da política externa americana.

 

Chegado a este momento, pergunto-me:

‒ Mas que americano é que eu poderei ou poderia ser?

O problema está nesta questão. Não é fácil transportar-me para os EUA e poder ser um deles. Com a formação e experiência de vida que tenho, naturalmente, seria um americano urbano intelectual e liberal. Mas seria? É que estou a partir da plataforma onde me coloco como português! Se tivesse nascido numa pequena cidade rural dos EUA eu seria hoje, com a idade que tenho, aquilo que sou em Portugal? Não. Jamais eu seria assim. Provavelmente, não passaria de um reformado preocupado com os netos, com os encontros na sede dos veteranos de guerra, para dois dedos de conversa, recordando os bons velhos tempos de campanha, os automóveis guiados, os mortos em combate, os malvados vietcongues, as ressacas das bebedeiras e da erva fumada, a vida na pequena cidade e muito pouco mais. Assim sendo, quando me falassem no actual conflito, pela certa, eu veria na Rússia a URSS e o seu sistema comunista contra o qual havia combatido e acharia muito bem que destruíssem Moscovo, de preferência antes que de lá chegasse à América algum míssil, porque maior do que os Stats não há nenhum país no mundo.

 

Depois disto valerá a pena deixar uma única pergunta:

‒ Quem são os americanos?

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