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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.07.21

Do linchamento em praça pública


Luís Alves de Fraga

 

Não fiz, nem vou fazer, uma pesquisa sobre os últimos vinte anos, mas, parece-me, nunca como agora se pediram tantos linchamentos políticos de governantes.

Não me interessa se são do partido A ou B. Interessa-me que a oposição política, em Portugal (se calhar no resto do mundo) ganha forças e estabelece novas “fronteiras” quando pode pedir a cabeça de um político.

Aquele que, admito, foi alvo de uma tremenda campanha de linchamento, quando ainda membro do Governo, dá pelo nome de Miguel Relvas. Que tinha telhados de vidro, lá isso, parece, tinha, mas…

‒ E linchamentos de personagens em situação de destaque social?

Bom, isso é o pão-nosso de cada dia!

O jogo do tribunal da opinião pública está a tornar-se, entre nós, um meio de verdadeiro terrorismo civil, o que muito me preocupa!

 

Agora, tal como antes, o ministro Cabrita está na mira de todos os “pelotões de fuzilamento social”. Não interessam inquéritos, processos de averiguações, nem nada. Interessa derrubar um político, um homem. Não há a preocupação de analisar factos; a preocupação é “queimar” o nome e a pessoa na praça pública!

 

No largo de S. Domingos, em Lisboa, está um cínico monumento, que parece tentar pedir desculpa a todos os judeus que ali foram mortos há várias centenas de anos, mas, a verdade, é que, naquela época, foram eles os perseguidos e hoje são políticos, figuras públicas, figuras anónimas, porque está-nos enraizado no sangue, na carne, no comportamento, esta cobarde forma de atentar contra a vida dos outros, sem nos preocuparmos com os resultados subsequentes.

Há um, dois ou três dias, de manhã, num qualquer canal de televisão ‒ daqueles que estupidificam a audiência ‒ onde se senta um senhor com ar patibular e mais um ou dois advogados desejosos de visibilidade, ouvi, de passagem, comentar o assassinato de uma mulher de cinquenta e poucos anos pelo marido de oitenta, porque “ela queria empregar-se, sair de casa e, depois, do casamento; queria ser livre”.

Claro que o velhote, na boca daqueles carrascos, foi um malvado, um criminoso, um homem incapaz de perceber fosse o que fosse. Foi mais um a engrossar a violência doméstica.

 

Mudei de canal e comentei com a minha mulher esta acção pouco pedagógica de fazer e de comentar notícias. Expliquei-lhe que ninguém foi capaz de olhar para aquele homem de oitenta anos e procurar “entrar-lhe” na cabeça!

É que, a um homem daquela idade, pouco ou nada lhe resta se não souber perceber que tem oitenta anos, que já não é um ser capaz de competir seja com quem for, que, se calhar, toda a vida esteve centrado na sua virilidade e no respeito que, através dela, julgava conseguir; que toda a vida esteve centrado na força física e no respeito que, através dela, julgava infundir. Ninguém, de entre aqueles juízes de opereta triste, olhou para o assassino e para os distúrbios que lhe assaltam a mente todas as noites, todos os dias, quando de homem ‒ segundo os critérios de uma sociedade onde cresceu e viveu ‒ já nada lhe resta!

Ficámos, eu e a minha mulher, a dissecar o que é ter cinquenta e tal anos e ter oitenta e o quanto é preciso perceber para se conseguir ter uma relação de casal estável quando ele é um velhote e ela ainda é capaz de parecer uma “mulher inteira”. Teríamos feito um programa televisivo educativo e destruidor destes pseudo-jornalistas que só gostam de ver “sangue”, vingança e, mais do que tudo, crueldade tão igual ou superior àquela que eles descobrem e acusam nas suas vítimas!

Isto não é liberdade de expressão; é subvertê-la, levando à subversão da democracia. É um sinal de fim de ciclo.

 

Esta sociedade global e autofágica, onde o importante é estar na crista da onda, mesmo que sem prancha de surf e sem saber surfar, irrita-me, desgosta-me e leva-me a crer que, por caminhos ínvios, está a pedir uma dura ditadura, que proíba desmandos sociais disfarçados de moral-comum. Comportamentos destes são desviantes da democracia e, por arrasto, da liberdade, pois, de modo subliminar, conduzem ao culto da violência.