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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

04.02.21

Diálogos de consciência


Luís Alves de Fraga

 

Seria estultícia minha vir para aqui, agora, discretear sobre a existência de Deus, da alma, de outra vida. Já está tudo dito. Todavia, por imperativo de consciência, sinto vontade de me deixar embrenhar numa reflexão sobre o divino na vida do Homem.

 

Não me restam grandes dúvidas sobre a necessidade que o Homem ‒ e refiro-me, em particular, ao das culturas Mediterrâneas, depois designadas por ocidentais ‒ face aos fenómenos telúricos, atmosféricos e celestes inexplicáveis na sua simples, mas paradoxal complexidade, teve de inventar deuses ‒ no início também eles celestes e ou telúricos ‒ para se proteger do desconhecido ou para procurar controlar esse desconhecido, aplacando-lhe iras através da forma de relacionamento mais antiga na sociedade humana, a mercantil: eu ofereço-te algo e, em troca, tu dás-me o que te peço. Sendo um comércio é, também, uma chantagem.

E o Homem fez deuses de todas as formas e feitios para todas as coisas, para todas as aflições, para todas as alegrias e tristezas!

 

Em determinado momento do longo percurso da humanidade nesse todo espaço ‒ bem delimitado ao Médio Oriente ‒ o Homem percebeu que deuses destrutíveis eram pouco deuses. Assim terá nascido, na cultura ocidental, o monoteísmo inventado pelos Judeus.

Era muito melhor ter um só deus, que comandava tudo e não falecia de cada vez que se lhe destruía a representação ou o templo. Foi um deus mais consistente e, ainda influenciados pelo politeísmo, mas seguindo uma variante mais inteligente, cristãos e islâmicos prenderam, cada um em sua gaiola, o seu deus. Não fizeram nada de diferente dos Gregos; estes criaram o Olimpo onde puseram os deuses tão humanos como os seus criadores. E, claro está, para não serem, na essência, originais, cristãos e islâmicos, atribuíram aos seus deuses o direito de serem os criadores da vida, da Terra, do universo, do paraíso, do inferno e do purgatório (que, felizmente, acabou!).

 

Sucederam-se, depois de assentes as três religiões do Livro, guerras entre os crentes de cada uma delas em nome do monopólio teológico. E tal estado de coisas estabeleceu uma diferença tremenda entre os deuses e as religiões: é que a religião é a propaganda que leva a escolher entre deuses, logo, entre obediências. Depois, depois cada qual invoca o perdão do seu deus para fazer mal aos que pedem a protecção do outro deus.

 

Então, não há dúvida, religião e deuses são invenções humanas na continuação do melhor politeísmo arcaico. Se assim for, isto coloca-me no ponto de partida, isto é, a necessidade de explicação para aquilo que não tem explicação através da Ciência: a inexplicabilidade da morte e do que há para além dela. Assim, o medo primitivo subsiste. Já não é a trovoada, o relâmpago, o tremor-de-terra, o eclipse, a seca ou a inundação que causam medo, mas somente esse imenso desconhecido do desconhecido. E afirmam alguns, com jactância, a sua ausência de medo, porque, senhores de certezas incertas garantem o nada para além do tudo.

 

Em consciência, rebelde a qualquer dependência religiosa, cada vez mais se me enraíza a dúvida como nos astrónomos subsiste a interrogação sobre os buracos negros no universo, fazendo-me crescer a pequenez, a insignificância humana, ao pensar no verdadeiro sentido da infinitude onde roda este pedaço de matéria orgânica e inorgânica a que chamamos Terra.

 

Depois do tempo das grandes caçadas na floresta da vida, engelhada a pele, perdida a acuidade visual e a agilidade elástica dos músculos, sentado no chão a olhar as estrelas na noite escura, sem saber se haverá um nascer de sol no amanhã que aguardo, sou exactamente igual ao meu distante avô que, enrolado em peles, na caverna da Gália, quando ainda não havia Gália, assistia pasmado e receoso ao fogo caído dos céus, fazendo arder a floresta que lhe servia de espaço de caça.

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