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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

30.12.21

De Portugal à China, passando pelos EUA


Luís Alves de Fraga

 

Pois é, quem sabe, ao certo, qual a nossa capacidade de defesa no âmbito de uma guerra chamada ou dita “clássica”? De que meios dispomos e quantos homens e mulheres podemos mobilizar de imediato? E quantos são os reservistas prontos para uma mobilização em curto período de tempo? E qual o material de guerra, entre sistemas de armas e munições, que temos para substituir aquele que for destruído nos primeiros embates?

Os meus amigos não sabem e eu também não, embora consiga obter algumas respostas mais rapidamente do que a maior parte de vós.

 

Somos um país com uma grande costa marítima, virada para a área por onde se faz a maior parte do trânsito entre a Europa, África e América do Centro e Sul; temos dois arquipélagos atlânticos profundamente estratégicos e sabemos que possuímos dois submarinos modernos e umas fragatas (novas, velhas, mas restauradas, ou somente velhas?).

E quantas esquadras de aeronaves de combate possuímos em condições de defender o espaço aéreo nacional e por quanto tempo?

Tudo isto são questões que nos deviam preocupar, agora mais do que nunca, pois estamos integrados num bloco económico e político ao qual, ao longo da História, sempre virámos as costas: a Europa.

 

Na verdade, poucas vezes estivemos envolvidos nas problemáticas europeias e nas suas quezílias ‒ que duraram séculos, se as contarmos desde as mais pequenas às maiores ‒, pois a nossa preocupação sempre se centrou na defesa do comércio marítimo, na manutenção dos postos comerciais de além-mar e na luta contra a constante ameaça espanhola.

‒ Temos, agora, inimigos potenciais ou declarados?

‒ Nunca tivemos tantos como agora!

Proporcionalmente, em face da quantidade de inimigos potenciais ou declarados por causa de interesses cruzados ou conflito de interesses, nunca estivemos tão mal equipados e preparados para enfrentar uma guerra, mesmo que de muito curta duração.

 

Tal situação de risco resulta de um falso conceito de defesa cujo assento principal tem lugar na “certeza indiscutível e indiscutida” de que fazemos parte de duas alianças, em cuja confiança devemos depositar todos os “nossos ovos”, o mesmo é dizer, as nossas esperanças de sobrevivência: a NATO e a União Europeia (UE).

Ora, é aí que “bate o ponto”!

A NATO tem como espinha dorsal as Forças Armadas dos EUA; a UE confia na NATO e nas capacidades da Alemanha e da França, porque, tudo o mais, é “missanga”.

Quando chegar, se chegar ‒ e vai chegar ‒ a altura de deitar mãos às armas, há um fenómeno que surgirá de imediato: os grandes blocos desfazem-se num instante, porque, sobre os interesses colectivos, vão impor-se os interesses de cada Estado. Assim, e não estamos longe disso, os EUA vão desprezar a NATO para se concentrarem no Pacífico, porque a sua “fronteira frágil” está a definir-se no sul da Ásia (o “inimigo” deslocou-se da Rússia para a China). Por outro lado, não devemos esquecer que a distância mais curta entre Moscovo e Washington é a que passa pelo pólo Norte. Ora, se a Rússia quiser “incomodar” os EUA, sai reforçada a tese da defesa do Pacífico, pois, deste modo, a marinha americana pode colocar no mar a sua força, ameaçando Moscovo pela retaguarda geográfica.

 

A UE poderá ser vítima de uma forte ameaça da Rússia e a “linha de contenção” far-se-á pela junção das forças militares alemãs e francesas com um vaguíssimo apoio belga, holandês e italiano, pois o resto não tem expressão militar decisiva.

Já para a Europa do Sul a ameaça pode estar centrada no Norte de África e a “linha de contenção” ‒ embora o tipo de guerra possa ser claramente diferente da chamada “clássica” ‒ terá de passar por Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia.

 

É por causa destes cenários que se me levanta a questão da nossa defesa e do pouco interesse que a ela se dedica.

Já deveríamos ter alterado o sistema de recrutamento militar, voltando ao velho serviço militar obrigatório (SMO), já deveríamos ter renovado o material de combate terrestre, bem como se deveria ter forças especiais em número muito elevado para actuar num tipo de guerra assimétrica; impõe-se uma Força Aérea capaz de ir além da defesa do espaço aéreo nacional, bem como uma marinha passível de projectar poder muito para além das nossas águas nacionais e internacionais atlânticas.

 

São estas as preocupações governamentais ou, ao menos, do Ministério da Defesa e do EMGFA? Não me parece. A falta de todos os meios, em especial humanos, é notória e, creia-se, não vai ser a GNR quem colmatará a falha das Forças Armadas. Ou contamos connosco ou, se depositamos esperanças nas alianças e nos aliados, bem podemos prepararmo-nos para o pior cenário.