urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga Fio de Prumo Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria LiveJournal / SAPO Blogs luisalvesdefraga 2020-06-16T08:15:50Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:221942 Luís Alves de Fraga 2020-06-16T09:14:00 Fases da minha vida ‒ 21 2020-06-16T08:15:50Z 2020-06-16T08:15:50Z <p> </p> <p>Como alferes, por conseguinte, oficial, ainda que no posto de menor graduação, eu tinha direito a viajar na 1.ª classe do navio I (havia a 2.ª e a 3.ª classes). A cabine ou camarote que me coube em sorte não era grande coisa, embora fosse espaçosa e com vista para o deque de bombordo. Ficava mesmo ao fundo, quando se caminhava para a ré, junto da escada de acesso à piscina (um tanque de água salgada que chegava para se darem cinco braçadas curtas no sentido do comprimento e três ou quatro no da largura).</p> <p>Havia o bar, a sala de jogo e de festa, o salão de refeições e o longo deque por onde se podia caminhar ou estar sentado à volta de mesas ou reclinado em cadeiras de repouso.</p> <p>Navegar num paquete não era, para mim, novidade, por isso sabia que a bordo os passageiros têm distracções várias para ocupar o tempo. Naquela época os paquetes ainda não tinham a configuração de grandes hotéis flutuantes dentro de grandes centros comerciais. Eram confortáveis, com certo tipo de luxo clássico e algum requinte, mas viajar era viajar e não uma fonte de despesa.</p> <p>Estes navios transportavam, também, carga nos porões que separavam a 3.ª classe, a vante, da 1.ª classe, a meia nau, e no espaço desta para a 2.ª classe, que ficava à ré.</p> <p> </p> <p>As primeiras vinte e quatro horas de navegação, como vim a perceber, reservava-as o comandante do navio para nos ambientarmos ao espaço e às condições primárias de vida a bordo. Fomos descobrindo as salas, os salões, o bar e o modo como nos devíamos deslocar.</p> <p>Chegámos ao Funchal, uma ampla baía que se não restringe ao espaço marítimo frente à cidade, creio, depois do almoço e, de imediato, tomei a decisão de visitar de novo, a cidade. Nunca são excessivas as incursões, pelo menos, naquela urbe. Ver o mercado dos lavradores e a <em>baixa</em> absolutamente cosmopolita é imprescindível, principalmente em época invernosa, como foi o caso. E a razão é simples: sai-se de Lisboa agasalhado para os nossos frios e chega-se ao Funchal e suporta-se andar sem sobretudo, sem luvas, bastando o normal fato, camisa e gravata. Mas eu tinha mais uma razão sobre todas as mais comuns para visitar a <em>baixa</em> funchalense: ir beber um copo de leite no celebérrimo café-pastelaria <em>Golden Gate</em>, o café que fica <em>à esquina do mundo</em>, no dizer de Ferreira de Castro. Estava a criar tradição, pois a primeira vez que estive no Funchal, com a idade de seis anos, o meu pai levou-me a beber o copo de leite ao, já então, afamado <em>Golden Gate</em>; fez-me um <em>discurso</em> sobre as virtudes daquele leite com gordura (por estranho que possa parecer ainda recordo o sítio exacto onde estava a mesa e como eram as cadeiras). Íamos a caminho dos Açores. Na volta tornámos a beber leite no estabelecimento. Quando fui, com a idade de quinze anos, agora sozinho, à terra do meu pai, repeti, nas duas viagens, o que havia feito antes (aqui para nós, sempre que volto, vou lá tomar um copo de… vinho Madeira e já não o de leite!)</p> <p> </p> <p>Saímos ao fim do dia, já noite, e deliciei-me com o espectáculo de ver o Funchal iluminado semelhante a um grande presépio. É inesquecível a paisagem.</p> <p>No dia seguinte, ao almoço, tínhamos companhia. Eu conto.</p> <p>No salão de jantar havia várias mesas para quatro pessoas e uma maior, ao topo, que tinha seis ou sete lugares. Nessa surgiu o comandante do navio, como anfitrião, acompanhado de personagens que, admito, seriam militares de elevada graduação e pessoas distintas, na época. Recordo-me de uma senhora com cerca de trinta e tal anos, bonita, trajando, ao longo dos dias da viagem, vistosos saris.</p> <p>Nas restantes mesas estava um oficial chefe de cada um dos diferentes serviços de bordo. Na minha calhou-me o <em>castiço</em> senhor Vinhais, chefe do serviço de máquinas, homem à volta dos cinquenta e poucos anos. Procurava fazer <em>conversa de ocasião</em>, mas, realmente, aquele não era o seu ambiente natural. Percebi que se sentiria muito mais confortável sentado à mesa de uma tasquinha de bairro a beber umas cervejas e a comer amendoins ou tremoços. O mesmo não acontecia com outros oficiais do navio com quem tive oportunidade de cavaquear naqueles longos dias de navegação.</p> <p>Por cima do salão havia uma espécie de balcão ou um mini palco onde actuava, durante as refeições, um grupo musical com piano, violinos, e instrumentos de sopro. Estava consensualmente estabelecido que, ao jantar, se ia vestido mais a rigor.</p> <p>De tarde havia, na sala de jogo e dança, sessões de bingo ou baile ou cançonetas para distracção dos passageiros da 1.ª classe. Noutras tardes havia <em>corrida de cavalos</em>, no deque, ou <em>jogo da malha</em>.</p> <p>Mal o tempo começou a aquecer a piscina foi cheia de água do mar e, de manhã, davam-se umas braçadas e apanhava-se um pouco de sol.</p> <p>Devo recordar que a maior estirada na viagem foi entre o Funchal e São Tomé, cerca de dez dias.</p> <p>A partir de certa altura começou a tornar-se muito mais agradável ficar no interior do navio do que nos deques, pois o calor húmido era quase insuportável e os prazeres do ar condicionado começaram a mostrar a sua importância na região dos trópicos.</p> <p> </p> <p>Desembarcámos em São Tomé, mas, por não haver cais de encosto, o navio ficou ao largo, usando os passageiros embarcações ligeiras para ir a terra. Fui logo no primeiro transporte e, no pequeno molhe da cidade, encontrei vários oficiais do Exército e, entre eles, estava um antigo companheiro dos Pupilos, em cumprimento do serviço militar obrigatório. Foi agradável e deu-me dicas para a rápida visita que fiz à cidade e aos arredores mais imediatos.</p> <p>Comprei, a um vendedor ambulante, uma pequena e finíssima bengala ‒ tipo pingalim ‒ que me acompanhou nas duas comissões em África ‒ usava-a como adorno, à <em>maneira</em> britânica, debaixo do braço ‒ e desapareceu há anos, com grande pena minha.</p> <p>Depois de sairmos de São Tomé reparei num casal, ainda jovem, embora mais velhos do que eu e a minha mulher, que, com muita frequência olhavam para nós, quando estávamos no bar. Criada a condição para chegarmos à conversa, vim a saber que se tratava do, já então, célebre locutor e artista de teatro Álvaro de Lemos. Faziam um casal bem-disposto que nos foi colocando ao corrente da vida em Lourenço Marques. Desconfiei de algumas coisas que me disse, nomeadamente sobre a ausência de clima de guerra na cidade. Achei impossível, mas, por delicadeza, não quis mostrar a minha surpresa. Em boa hora optei pelo prudente silêncio, como se verá mais para a frente.</p> <p> </p> <p>Acostámos em Luanda, por um dia, outro no Lobito e visitei Benguela, depois foi a vez de Mossâmedes e tive oportunidade de entrar uns quantos quilómetros pelo deserto. Seguimos para a Cidade do Cabo, que visitei, tendo por lá passado uma noite. Aí vi o que era o verdadeiro racismo, praticado, aliás, de parte a parte.</p> <p>A 1.ª classe, que quase ficara vazia em Luanda, encheu-se com sul-africanos. Nunca tinha visto coisa semelhante; entraram, deixaram a bagagem nos camarotes, e dirigiram-se ao bar de onde não arredaram pé. Bebiam uma cerveja logo seguida de um copo de aguardente! Faziam a viagem, quase não saindo do navio e escolhiam os mais pequenos e que iam mais a norte para terem mais tempo de bebedeira. O seu espanto foi, quando estávamos a chegar a Lourenço Marques, ver o alferes miliciano negro, fardado e a passear-se na 1.ª classe como era seu direito. Muitos viravam a cara para o lado e outros afastavam-se como se o oficial tivesse doença grave e contagiosa.</p> <p> </p> <p>Interessante foi a noite de Natal a bordo, cuja tripulação enfeitou a rigor as salas de festas e a de jantar onde não faltaram os doces tradicionais da época, ainda que o bacalhau fosse um prato alternativo.</p> <p> </p> <p>O desembarque em Lourenço Marques fez-me acordar para uma outra realidade: a guerra, que, julgava eu, iria ser o ambiente da capital da província, como na altura se designava.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:221471 Luís Alves de Fraga 2020-06-13T12:51:00 Fases da minha vida ‒ 20 2020-06-13T11:56:50Z 2020-06-13T12:47:38Z <p> </p> <p>Mal conclui o tirocínio, na Base Aérea n.º 1, em Sintra, fui mandado marchar para a Base Aérea n.º 2, na Ota, a alguns quilómetros de Lisboa, onde era difícil chegar rapidamente se, acaso, perdesse a pequena camioneta de passageiros, que transportava os oficiais e partia de Lisboa, só parando, depois, junto ao edifício dos bombeiros do bairro da Encarnação, pouco antes de entrar na exígua autoestrada existente até Vila Franca de Xira. O transporte não esperava por ninguém! Uma vez perdido, cerca das sete horas da manhã, restava a alternativa do comboio e de uma carreira de autocarro, que só chegava à porta de armas da Base ao meio-dia.</p> <p> </p> <p>Comandava a Base um jovem coronel, promovido àquele posto por distinção na guerra em Angola, que, oito anos depois, se vai tornar conhecido do povo português, dada a sua participação na Junta de Salvação Nacional, criada na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974: Diogo Neto.</p> <p>A unidade era uma das mais completas de Portugal continental. Para além de por lá se fazer a instrução inicial de voo, especializava pilotos na manobra de aviões a jacto: os T-33 A, <em>Shooting Star</em>. Voava-se, ainda, o F-86 <em>Sabre</em>. Foi por altura da Primavera que, depois de montado, passou a ser operado o Fiat G-91, uma aeronave com uma elevada velocidade e um efeito psicológico muito notável sobre o combatente terrestre.</p> <p>Do ponto de vista infra-estrutural era, também, extraordinária esta unidade. Para além dos edifícios necessários para alojar praças do serviço geral, alunos especialistas, instruendos, oficiais e sargentos sem família, tinha um bairro com vivendas destinadas à instalação de oficiais e sargentos casados. Uma magnífica piscina, um campo de ténis e um moderno edifício para servir de messe de oficiais (local onde fica o refeitório, o bar, salas de jogo e outras comodidades de lazer). Ocupava uma muito significativa área de pinhal e quase se constituía num centro urbano autónomo.</p> <p> </p> <p>Fui nomeado adjunto do chefe de contabilidade, que era um capitão ex-aluno dos Pupilos, bastante mais antigo do que eu, com formação feita na Escola do Exército. Já estavam colocados no conselho administrativo, também como adjuntos, dois alferes milicianos (um deles, o Janeira, também antigo aluno). O capitão, VS, tinha um modo brusco de falar, mas era um excelente e competente oficial de Administração. Não pactuava com a mínima tentativa de irregularidade. Toda a vida foi incorruptível até ao mais ínfimo pormenor. Tal facto valeu-lhe nunca ter recebido louvor de qualquer comandante ou chefe.</p> <p> </p> <p>Sabedor de muita teoria sobre tudo ‒ desde finanças públicas até movimentações militares no terreno, passando por contabilidade ‒ faltava-me a prática do dia-a-dia de um conselho administrativo. Ia-a aprendendo pela observação e pela execução das tarefas que o capitão VS me atribuía. Mas, este e o Janeira, ofereceram-se para uma comissão militar em Moçambique, por volta de Março ou Abril, tanto quanto sou capaz de recordar.</p> <p>Foi substituído por outro capitão de Administração, também ex-aluno dos Pupilos, mas dos que, sendo miliciano, passaram ao quadro permanente sem frequência, sequer da Escola Prática de Administração Militar! Creio, embora sem certeza, terá sido dos poucos antigos alunos que reprovou nas provas de aptidão física no concurso à Escola do Exército.</p> <p>Era um ressabiado! Pôs-me à prova de toda a maneira e feitio, chegando a humilhar-me só porque eu tinha frequentado a Academia Militar. Se fosse hoje, ter-me-ia queixado hierarquicamente dele. Teve, até ao fim da carreira, atitudes pouco abonatórias do seu carácter. A título de exemplo, recordo uma conversa que mantive com ele, talvez no final do século XX, a propósito de um seu irmão mais velho, sargento de artilharia, que concorreu à Academia Militar e foi oficial daquela arma, tendo, até, mais tarde, concluído, no Instituto Superior Técnico, o curso de engenharia civil. Muitos anos depois, comentando com ele a morte desse irmão e as conquistas por ele conseguidas, teve o seguinte comentário: «Não foi nada mau, para quem andou oito anos na instrução primária!» É assim que certos seres, ditos humanos, se caracterizam!</p> <p> </p> <p>Entretanto, logo no início do ano de 1966, fui convidado pelo director da escola de formação de cabos especialistas para leccionar matemática aos soldados-alunos. O convite era aliciante, pois, durante os meses da instrução, ganharia mais quinhentos escudos (dois euros e meio, convertendo para a moeda actual). Ora, o meu soldo ilíquido era de dois mil e quatrocentos escudos (um pouco menos de onze euros) e só a renda do pequeno apartamento que aluguei no bairro da Graça, em Lisboa, era de mil cento e dez escudos (cinco euros e cinquenta e quatro cêntimos).</p> <p>Por esta altura, já casado, dava, nos tempos de repouso, explicações particulares de Matemática, por cuja hora cobrava, se a memória não me atraiçoa, entre vinte e vinte e cinco escudos (qualquer coisa como dez a doze cêntimos do euro). Era um complemento para <em>arredondar</em> os ganhos.</p> <p> </p> <p>Os meses passaram numa relação de trabalho tensa e insatisfatória. Aprendi coisas curiosas sobre o modo como me devia comportar com subordinados hierárquicos, nomeadamente os sargentos.</p> <p>Um velho sargento-ajudante, conhecedor do seu trabalho, certa vez, pediu-me <em>explicações</em> sobre como fazer determinada operação com a Agência Militar. Eu sabia o que me perguntou, mas percebi a armadilha. Resposta: «Então o senhor ajudante a trabalhar há tantos anos nesses assuntos vem fazer-me uma pergunta tão fácil? Ora vá para a sua secretária e resolva o problema!» Nunca mais teve <em>dúvidas</em>.</p> <p>Noutra altura foi um sargento, alentejano e bom homem, que, vendo-me atrapalhado com a conferência de uma longa soma, já depois de toda a gente ter ido almoçar, se abeirou da minha secretária e disse-me: «Meu alferes, vou dar-lhe uma ajuda, se não importa.» Ficou um quarto de hora e, ensinou-me um truque simples para fazer a conferência. Nunca mais esqueci.</p> <p> </p> <p>Creio que pelo final de Outubro ou começo de Novembro saiu na Ordem à Aeronáutica a minha nomeação para comissão de serviço em Moçambique. Respirei de alívio.</p> <p>Como levava a minha mulher tive a possibilidade de requerer o embarque por via marítima ‒ era uma <em>viagem turística</em> oferecida pela Força Aérea.</p> <p>Embarcámos num navio <em>rasca</em> ‒ o <em>Império</em> ‒ de propósito: levava mais tempo, mas passava por mais portos onde, provavelmente, nunca voltaria a expensas minhas!</p> <p> </p> <p>Parti a 6 de Dezembro de 1966. Íamos chegar vinte dias depois a Lourenço Marques.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:221203 Luís Alves de Fraga 2020-06-10T22:23:00 Fases da minha vida ‒ 19 2020-06-10T21:28:07Z 2020-06-10T21:28:07Z <p> </p> <p>Nas nossas Forças Armadas ainda imperam resquícios de princípios nobiliárquicos para a promoção aos mais altos postos da carreira militar.</p> <p>Vou explicar a minha afirmação.</p> <p> </p> <p>Olhando a História, não me consta que Viriato ‒ o lendário <em>general</em> comandante dos Lusitanos contra as legiões de Roma ‒, para além de chefe de bando, tivesse frequentado qualquer tipo de curso para conduzir a luta; ampliando horizontes, o oficial de artilharia Napoleão Bonaparte foi general por razões políticas e conhecimentos de táctica e estratégia, Gustavo Adolfo, da Suécia, por ser rei, foi general e criou os estados-maiores modernos, Frederico II, da Prússia, foi um <em>general</em>, que organizou os seus exércitos; saltando para a actualidade, Sebastião Mabote, a <em>alma da estratégia militar</em> da FRELIMO, não frequentou nenhuma Academia Militar até à vitória do movimento de libertação de Moçambique, o mesmo aconteceu com Nino Vieira, na Guiné, bem como com todos os condutores militares das guerras assimétricas em desenvolvimento no mundo. É que, se se aprende a liderar homens em campanha militar, é preciso levar em conta que, nem sempre, esse saber, adquirido nos bancos das Academias, é condição primeira para comandar.</p> <p>Ora, em Portugal, tal como noutros Estados, os comandos superiores dos ramos das Forças Armadas são exercidos somente por determinado tipo de oficiais, que, <em>por direito divino</em> podem ascender aos mais elevados postos do generalato. Vejamos.</p> <p> </p> <p>Generais há-os de duas estrelas (majores-generais ou contra-almirantes), de três estrelas (tenentes-generais ou vice-almirantes) e de quatro estrelas (generais ou almirantes). Mas, às três e às quatro estrelas, só podem ascender os <em>nobres</em>, ou seja, os de determinadas armas, classes ou especialidade: na Armada, os da classe de Marinha; no Exército, os das armas tidas por combatentes (infantaria, cavalaria, artilharia e as diferentes engenharias); na Força Aérea, os pilotos-aviadores.</p> <p>Nada justifica esta limitação, pois, num tempo de assimetrias, num tempo de staffs, os comandantes distinguem-se essencialmente por saberem decidir, fazendo escolhas e optando entre as propostas apresentadas pelos seus estados-maiores e não porque fizeram uma carreira com determinado percurso prático e académico. Se calhar, perdem-se pelo caminho excelentes decisores militares, por não reunirem as tais condições de <em>direito divino</em>.</p> <p> </p> <p>Colocada a questão nos termos simples e objectivos que deixei expostos, vejamos, agora, o que ocorreu no meu tempo (1965-1996) de oficial no activo da Força Aérea.</p> <p> </p> <p>Depois de ter sido promovido a alferes, em Novembro de 1965, fui tenente em Maio de 1967 e capitão em Dezembro de 1970. Note-se que a promoção a capitão foi mais rápida do que eu esperava, porque deixou de ser por vacatura para passar a fazer-se por diuturnidade e, por já ter cinco anos de oficial subalterno, consegui almejar o posto que, se continuasse com iguais condições, só seria previsível alcançar ao cabo de seis ou sete anos de tenente. Tudo por uma razão muito simples: as promoções faziam-se de acordo com as vagas existentes nas respectivas especialidades e aquelas resultavam da dimensão estabelecida para os respectivos quadros permanentes. Ver-se-á, de seguida, o efeito perverso desta gestão de pessoal.</p> <p>Segundo consta na minha carta patente, só em Julho de 1981 fui promovido a major o que me fez estar onze anos como capitão. Nesta altura, eram já majores e, alguns, tenentes-coronéis os alferes pilotos-aviadores de 1965 preparando-se para ser majores os capitães engenheiros aeronáuticos com menos dez anos de oficial do que eu!</p> <p>Em Julho de 1986 fui promovido a tenente-coronel e só em Março de 1994 alcancei o posto de coronel, resultando assim que, quase estive, no penúltimo posto da minha carreira, oito anos. Por esta altura, começavam a atingir o generalato os pilotos-aviadores do meu curso da Academia Militar e outros coronéis engenheiros, para não me referir aos médicos da Força Aérea muito mais modernos do que eu na vida castrense.</p> <p> </p> <p>Na minha especialidade, ocupavam os mais altos postos da hierarquia os tais oficiais oriundos de milicianos que se agarravam aos cargos como verdadeiras lapas presas à rocha. Para se fazer uma ideia de como foi esse pesadelo de injustiça, basta referir que de 1974 até depois de 1994, em ano que não posso precisar com exactidão, o posto de brigadeiro (major-general) de Administração Aeronáutica foi ocupado por oficiais não oriundos da Academia Militar, por conseguinte vindos de milicianos. Foram cerca de vinte anos de promoção tapada por oficiais cuja formação, do ponto de vista castrense, deixava bastante a desejar.</p> <p> </p> <p>Porque o tempo de cadete da Academia Militar conta ‒ e contava ‒ como tempo de serviço, em 1981, aquando da promoção a major, eu tinha, efectivamente, vinte anos de tropa, o que me colocava, na época, a meio do necessário para passar à situação de reserva com cinquenta por cento da respectiva pensão, tendo quarenta anos de idade. Surgia, assim, uma boa oportunidade para virar costas a uma carreira e a uma vocação, enveredando por outra que me fizesse esquecer alguns incómodos já vividos e a injustiça de uma progressão tão lentamente desgastante.</p> <p>Foi por essa altura que ocorreu uma guinada na minha vida capaz de me levar a equacionar todo o meu futuro.</p> <p>Contarei mais adiante.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:221064 Luís Alves de Fraga 2020-06-09T18:59:00 Fases da minha vida ‒ 18 2020-06-09T18:00:29Z 2020-06-09T18:03:27Z <p> </p> <p>Poder-se-á perguntar o que era, nesses anos recuados de 1965, o Serviço de Intendência e Contabilidade, hoje, e muito bem, chamada Administração Aeronáutica.</p> <p>Procurarei explicar, no fundamental, o que se fazia no Serviço e, consequentemente, no que estavam empenhados os oficiais deste quadro.</p> <p> </p> <p>Os órgãos de execução da especialidade eram três: a Direcção de Serviço, os Conselhos Administrativos e as Messes. Em princípio, onde estivesse uma unidade da Força Aérea a Direcção do Serviço de Intendência e Contabilidade (DSIC) estaria presente através de um oficial da especialidade. Havia excepções: os pequenos aeródromos (de manobra e de trânsito) não tinham <em>antenas</em> da DSIC, mas já nos aeródromos-base e nas bases aéreas existiam conselhos administrativos.</p> <p> </p> <p>As grandes divisões e consequentes funções da Direcção do Serviço eram, em síntese, cinco ou seis: organização e gestão do orçamento da Força Aérea, verificação das contas (despesa) da Força Aérea, verificação das contas de gerência dos diferentes conselhos administrativos, conferência dos orçamentos de fundos privativos da Força Aérea, relacionamento oficial com a delegação da Direcção-Geral da Contabilidade Pública, condução e verificação dos concursos públicos em geral e, em particular, os de aquisição de fardamentos e combustíveis para a Força Aérea.</p> <p>Como se percebe, as ligações, do ponto de vista financeiro e orçamental da Força Aérea, com o Estado e o Ministério das Finanças faziam-se através da DSIC e dos conselhos administrativos, passando por aquela. Assim, o Serviço de Intendência e Contabilidade e os oficiais da especialidade, nos conselhos administrativos, sujeitavam-se a dupla obediência: uma, à hierarquia militar do ramo e, outra, não menos importante e responsável, ao Ministério das Finanças através da Direcção-Geral da Contabilidade Pública.</p> <p>Enfatizo o último aspecto, porque ele era estabelecido por decreto-lei do Governo, com data muito anterior à da formação da Força Aérea. Na prática, este simples facto, traduzia-se na possibilidade legal de a DISC e os presidentes dos conselhos administrativos se corresponderem com entidades civis e militares com liberdade igual à que era dada aos comandantes das unidades e outros chefes.</p> <p>O fundamento para esta <em>força</em> dos serviços financeiros advinha da própria ditadura de Salazar: todas as despesas deviam ser controladas por órgãos capazes de impor a disciplina orçamental. Esta dependência gerava uma pesada responsabilidade sobre os órgãos executivos do orçamento do Estado: os membros dos conselhos administrativos respondiam judicial e pecuniariamente por todas as irregularidades cometidas no exercício das suas funções. Isto fazia dos oficiais de Intendência e Contabilidade militares com <em>subtis</em> poderes de <em>limitação</em> da vontade dos comandantes, embora estes a pudessem exercer, dando, por escrito, a ordem que, de imediato, ilibava os membros dos conselhos administrativos de todo o comprometimento.</p> <p> </p> <p>Como se vê, por força de disposições legais, recaía sobre os oficiais financeiros uma enorme responsabilidade, mas, também, um <em>poder invisível</em> limitador de atropelos da Lei. Assim, era fácil ou agradar à hierarquia mandante, constituída por oficiais pilotos-aviadores ‒ arranjando <em>saídas</em> mais ou menos legais para satisfazer as suas exigências, ‒ ou, pelo contrário, manter com a hierarquia uma relação tensa, por via do cumprimento rigoroso das leis, directivas e normas financeiras do Estado.</p> <p> </p> <p>Percebe-se, deste modo, a importância de se possuir uma sólida formação militar adquirida na Academia, durante o curso e o tirocínio; não se podia ter uma postura de simples <em>funcionário</em> e, muito menos, de subserviente subordinado hierárquico. A verticalidade, a frontalidade e a coragem desenvolvidas durante os anos de formação castrense era básica para saber estabelecer fronteiras de relacionamento.</p> <p> </p> <p>Como se verá, com o desenrolar das minhas memórias, estes aspectos, aparentemente inúteis, são fundamentais para explicar atitudes pessoais.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:220728 Luís Alves de Fraga 2020-06-08T22:32:00 Fases da minha vida ‒ 17 2020-06-08T21:34:18Z 2020-06-08T21:34:18Z <p> </p> <p>Quando me apresentei no Estado-Maior da Força Aérea, situado na avenida da Liberdade, este ramo das Forças Armadas havia acabado de completar treze anos de existência. Assim, posso considerar-me, hoje, um <em>pioneiro</em> da Aeronáutica Militar e, por isso, reflectir sobre essa Força Aérea inicial.</p> <p> </p> <p>O novo ramo nasceu da junção de material e homens das Aeronáuticas Militar e Naval. E, só o facto de ser uma <em>junção</em>, foi suficiente para gerar uma certa <em>hibridez</em> no conjunto. Não havia, ainda, o verdadeiro <em>espírito de corpo</em>, aliás, muito difícil de criar quando, à partida, alguns se sentiam diferentes dos restantes, quando alguns chamavam a si a razão de ser da força, a glória dela existir e não arrastavam, nem distribuíam, pela totalidade do efectivo, os louros alcançados, antes lhe atribuíam as responsabilidades das <em>falhas</em>.</p> <p>Claramente, na Força Aérea da minha iniciação, havia os pilotos e os <em>outros</em>; entre os oficiais pilotos existiam três <em>separações</em>: os que tinham vindo do Exército (em muito maior número), os provenientes da Armada e os oriundos de sargentos. Assim, muito embora se disfarçasse muito, a Força Aérea não era um <em>corpo</em>; era um <em>ajuntamento</em>.</p> <p> </p> <p>Na minha especialidade ‒ designada, então, de um modo que a menorizava, por Serviço de Intendência e Contabilidade ‒ os oficiais dos mais altos escalões ‒ majores, tenentes-coronéis, coronéis e o brigadeiro ‒ eram todos oriundos do Exército, com frequência do curso de Administração Militar na Escola do Exército; daí para baixo começava a grande balbúrdia, que permitiu, facilitou e consolidou a menorização do Serviço. Balbúrdia, que passo a explicar.</p> <p> </p> <p>Porque a transição de tenentes e de alferes de Administração Militar ou de Administração Naval para a Força Aérea não se fez em quantidade suficiente, porque demoravam anos a formar, na Escola do Exército/Academia Militar/Escola Naval, esse tipo de oficiais, porque o mais <em>importante</em> era ter os aviões a voar, porque era nos pilotos que assentavam os pilares da <em>espinha dorsal</em> da Força Aérea, Kaúlza de Arriaga, major e tenente-coronel engenheiro do Exército, mas subsecretário e, depois, secretário de Estado da Aeronáutica, entendeu por bem colmatar a falta de oficiais com a formação apropriada e conveniente, admitindo oficiais milicianos do Serviço de Administração Militar do Exército ou já directamente da Força Aérea, com habilitações mínimas em Economia, Finanças ou Contabilidade somente. Quando digo mínimas, às vezes, não passavam da alínea g) do, então, sétimo ano dos liceus ‒ condição básica para entrar no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras ‒ e o respectivo curso de oficial miliciano feito na Escola Prática de Administração Militar; chegou ao cúmulo de admitir antigos alunos dos Pupilos do Exército habilitados somente com o curso de contabilidade.</p> <p>Estes oficiais, sem mais requisitos ou formação específica na área da Administração e das Finanças e, menos ainda, na de oficial do quadro permanente, foram ocupando todos os postos da hierarquia, muitos deles, chegando a oficiais generais.</p> <p> </p> <p>Não me julguem mal os que pensam estar por trás das minhas anteriores considerações algum espírito elitista, porque, aceitando como corrente e normal esta forma de recrutamento de oficiais para o quadro permanente, para que serviriam as Academias Militares? Ora, o facto é que elas existem, pelo menos em todos os Estados europeus, para não dizer de todo o mundo!</p> <p>Realmente, o que eu penso é que, nesse tempo, tal como ainda agora, prevalecia, na Força Aérea, um tipo de elitismo específico: o piloto-aviador é necessariamente superior e, por o ser, carece de formação coberta por um diploma de uma Academia; os restantes oficiais existem para “fazer funcionar” a Força Aérea, desde que o façam de modo a que os aviões possam <em>ir para o ar</em>.</p> <p>Claro, este elitismo demonstra um completo desrespeito pelo Conhecimento e pelo conhecimento castrense, pois, como julgo ter provado antes, a socialização militar profunda exige tempo, treino e, por isso, vocação. Daí que, nas boas-vindas dadas, em 19 de Outubro de 1961, na Academia Militar, nos tenha sido enfatizado o facto de, pela carreira das armas, ninguém conseguir chegar à fortuna. Isto estabelece a diferença entre uma escolha para ter um ganha-pão e optar por servir o Estado na defesa nacional.</p> <p> </p> <p>Recordando a Força Aérea de 1965, lembro, para além dos diferentes tipos de engenheiros (alguns sem reconhecimento académico em Portugal), uma série especialidades preenchidas por oficiais ou oriundos de sargentos ou de oficiais milicianos passados aos quadros através da frequência de cursos técnicos ministrados na, então, Base Aérea n.º 2, na Ota, onde se concentrava, na prática, quase todo o <em>saber</em> especializado do ramo: ali fazia-se recruta e curso de cabo, de sargento e de oficial especialista. Eram raras as especialidades que iam <em>fora</em> para aprender fosse o que fosse ‒ talvez os da área de electrotecnia, que frequentavam a Escola Militar de Electromecânica, em Paços de Arcos. Na fase inicial, nos anos de 1950, bastantes sargentos foram aos EUA fazer cursos práticos para conseguirem levar a bom termo a manutenção da frota aérea renovada com material americano.</p> <p> </p> <p>Teriam de passar mais de duas dezenas de anos para, através de umas quantas medidas acertadas, levar este <em>bando</em> fardado até ao que de mais semelhante pode haver com um ramo das Forças Armadas.</p> <p>Irei, com calma e paciência, mostrando essa mutação.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:220593 Luís Alves de Fraga 2020-06-07T08:38:00 Fases da minha vida ‒ 16 2020-06-07T07:40:22Z 2020-06-07T07:40:22Z <p> </p> <p>Ao ingressar na Academia Militar, ido dos Pupilos do Exército, foram várias as <em>novidades</em> encontradas ‒ algumas já referidas ‒, mas a que contundiu mais com os hábitos adquiridos por mim, em anos de internato, foi a relacionada com as horas destinadas a estudo.</p> <p>Com efeito, nos Pupilos só tínhamos duas horas e meia para estudar, que exigiam um grande aproveitamento do tempo, mas, na Academia, as horas de estudo, creio, eram duas, antes do jantar, e não era exercida grande vigilância sobre quem as utilizava para o fim previsto ou para outro qualquer. Isto foi a minha perdição, no primeiro ano. Perdição acumulada com a dificuldade das matérias leccionadas (as tais do primeiro ano da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).</p> <p>Vejamos como se <em>harmonizaram os astros</em> para desgraça minha.</p> <p> </p> <p>Habituado a testes ‒ na altura, chamados <em>pontos escritos</em> ‒ deparei-me com a total ausência de controlo do saber até às primeiras frequências, por volta de Fevereiro. Assim, passava as horas de estudo a escrever contos, a ler romances, a compor epístolas para uma namorada que tinha, a fumar, a conversar, enfim, a fazer tudo menos a apreender as complexas matérias leccionadas em aulas teóricas ‒ durante as quais, consequência da lengalenga das explicações doutorais, era possuído do maior sono jamais imaginado ‒ e em aulas práticas onde, de prático, fazia quase nada.</p> <p>Está claro, as notas do final do primeiro semestre foram uma desgraça completa! Tão desgraçadas que, por volta do mês de Abril, me convenci de que só um milagre me podia salvar. E, na minha cabeça, o <em>milagre</em> começou a ganhar forma: a guerra em Angola ia acesa e rija, a marcha de contingentes militares para África fazia-se em grande velocidade, donde, era preciso despachar oficiais também, <em>depressa e em força</em>, de modo a seguirem de pronto para a colónia. Acrescia que, em Portugal, a situação política parecia estar instável ‒ ocorrera, no começo de Janeiro de 1962, o assalto ao quartel de Beja ‒ provada pelas sucessivas entradas de prevenção das unidades militares (e da Academia Militar também). Logo, não ia ser por causa das Matemáticas Gerais, da Geometria Descritiva e da Física Geral que se deixaria de <em>fazer</em> oficiais do quadro permanente. Assim, <em>o problema não era meu, mas deles</em>! Deles, ou seja, do ministro do Exército, do comandante da Academia e dos respectivos professores, que tinham ali mesmo à mão de semear uma caterva de jovens entusiastas capazes de pegar em armas e defender o Império. Seria verdadeira estupidez desprezar tamanha oportunidade!</p> <p>Tal como eu, uma boa multidão de jovens cadetes acreditou no <em>milagre</em>: <em>o problema era deles</em>!</p> <p>Realmente, em Julho, depois das manobras finais, o problema foi nosso: reprovámos redondamente, sem apelo. Ou seja, de trinta e dois alunos do primeiro ano de Administração Militar, passaram para o segundo, salvo erro, nove! Na verdade, aprovaram somente vinte e oito por cento dos alunos!</p> <p> </p> <p>No ano seguinte arranjei como desculpa para o <em>chumbo</em> o facto de <em>gostar muito de ser cadete</em>! Era uma vida cheia de maravilhas… Mas apliquei-me ao estudo com afinco!</p> <p>Foi por via desse afinco que fui punido a primeira vez na Academia (punição escolar, que não fica registada no processo individual, depois da ascensão a oficial). Eu conto.</p> <p> </p> <p>Corria, provavelmente, o final do mês de Maio ou o começo de Junho e era uma sexta-feira à tarde, momento dedicado às célebres marchas pelas estradas secundárias que cruzavam a Amadora e iam até Belas, serra da Carregueira, Caneças, À da Beja e por aí fora; marchas onde fardávamos de fatos camuflados, capacete de aço, cartucheiras, cantil e a velha espingarda Mauser. Eram quilómetros para lá e para cá, de maneira a chegarmos ao aquartelamento próximo das seis horas, com bolhas nos pés e um cansaço que nos invadia completamente, quase nos incapacitando para outras actividades. No sábado seguinte, de manhã, íamos ter uma frequência ‒ a última ‒ de Geometria Descritiva; na anterior a minha nota fora fraca e se não a compensasse significativamente iria parar a exame final e poderia reprovar, facto que me punha a meio caminho da saída da Academia. O mesmo se passava com o meu amigo e camarada de curso, também antigo aluno dos Pupilos, António José Mendes Dias Trancoso. Tomámos uma resolução: faltar à marcha e ficar a estudar na camarata, onde seria improvável irem procurar-nos. Pensado e feito.</p> <p>Numa das voltas do batalhão, ao passar por uma sebe, que oferecia condições para não sermos vistos, saímos e fomos, equipados, para a camarata, e, fazendo da cama estirador e dos baús bancos, começámos a rever a matéria empenhadamente. Como estava de costas para a porta não vi entrar o oficial de serviço ‒ único que tinha de ficar nas instalações ‒ que nos viu, sem a mínima réstia de dúvida, a estudar. Não teve compaixão. Participou e fomos punidos com a <em>módica quantia</em> de cinco dias de prisão escolar cada um! Equivalia a dez dias de detenção, facto que me dava margem de trinta dias para futuras punições. Houve quem, no ano anterior, por estar ausente desde uma quarta até à segunda-feira seguinte, só fosse punido com o triplo do número de dias de prisão! Às vezes, mais vale cair em graça do que ser engraçado!</p> <p> </p> <p>Passei o ano e fui progredindo, em marcha <em>normal</em>, nas matérias, daí para a frente, fáceis de concluir, por serem ou de índole técnica (dessas tinha mais do que a necessária preparação adquirida no curso dos Pupilos) ou de natureza castrense (dessas eu gostava).</p> <p>No terceiro e último ano do curso era-nos dada a possibilidade de escolher entre prosseguirmos carreira no Exército ou passar para a Administração Aeronáutica (a Força Aérea ainda não tinha a sua Academia). Poucos optámos pela segunda solução, mas, mesmo assim, alguns ficaram excluídos por falta de vaga: estávamos escalonados por classificação e esta contava até às centésimas.</p> <p> </p> <p>Foi nesse ano que se iniciou a disputa pela obtenção de melhoria de notas, pois alguns camaradas meus sabiam da importância futura de ficar à frente ou ficar a trás… Isso poderia representar anos na promoção ao posto imediato. E, por causa disto, passaram-se coisas pouco dignas e dignificantes, que me escuso referir, mas que não esqueci, e, como se vê, não esqueço. Mesmo assim, consegui ficar classificado em penúltimo lugar num curso (o de Administração para a Força Aérea) de oito alunos. Estávamos no ano de 1965.</p> <p>A guerra havia-se estendido à Guiné e a Moçambique. A falta de oficiais do quadro permanente era enorme. Nesse ano, sim, o Exército estava com um grave problema entre mãos. Tão grave que se tornou determinante para que o último passo do curso da Academia Militar fosse abreviado: não tivemos férias e iniciou-se logo o tirocínio, que, na Administração Aeronáutica, acabou nas primeiras semanas de Dezembro de 1965.</p> <p> </p> <p>Foi promovido a alferes com a antiguidade de 1 de Novembro desse ano. A minha vida profissional ia começar.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:220279 Luís Alves de Fraga 2020-06-04T12:52:00 Fases da minha vida ‒ 15 2020-06-04T11:59:47Z 2020-06-04T11:59:47Z <p><div id="qpYqnk1592295360" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpYqnk1592295360-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div> </p> <p> </p> <p>Desde o primeiro até ao último ano do curso da Academia Militar a actividade física intensificava-se e mudava de <em>modalidade</em>, ou seja, aquilo que no início se limitava a <em>ginástica</em>, hipismo, marchas de média distância com equipamento e armamento completos e ordem unida, no ano final passava à prática de boxe, judo, luta militar, aplicação militar (exercícios incluindo todo o tipo de obstáculos e outros <em>mimos</em>).</p> <p> </p> <p>O objectivo era evidente para quem estivesse com atenção e algum espírito crítico: criar, em doses sucessivas, o endurecimento, a coragem, a resiliência nos futuros oficiais. Claro que estes <em>aditamentos</em>, porque não são de natureza física, <em>instalavam-se</em>, com maior ou menor firmeza, nas nossas mentes, gerando mecanismos psíquicos para nos capacitarem a enfrentar o esforço físico e o sacrifício em combate. A morte e a dor teriam de nos <em>passar ao lado</em> de forma a não afectar a determinação nos actos de obediência e de comando. Só um treino desta natureza justifica que não tenham sido muito grandes ‒ em número e gravidade ‒ os casos de stress pós-traumático entre os oficiais do quadro permanente durante e no fim da guerra em África. Não me restam dúvidas, nós saíamos bem preparados para, psicologicamente, suportar embates de várias naturezas. Acima de todos havia um que, sem dúvida, caracterizava (e deve caracterizar ainda) os jovens alferes, tenentes e capitães do meu tempo: a capacidade de tomar decisões em situação de desnorte, caos ou catástrofe. Podiam não ser as melhores decisões, mas havia sempre uma, qualquer que fosse.</p> <p>Como exemplo desta situação ‒ verificável pela consulta dos jornais da época ‒ temos os títulos das notícias, na sequência do dia 25 de Abril de 1974, chamando aos capitães os <em>homens sem sono</em>, porque acudiam a toda a hora e em qualquer circunstância aos mais diferentes pedidos de intervenção para resolver problemas sociais, políticos e, até, económicos. Afinal, o que estava em jogo, era a capacidade de decidir em ambiente de anomia social. Era para isso que tínhamos sido preparados.</p> <p> </p> <p>Explicar os mecanismos usados, ao nível da instrução militar, para alcançar o fim indicado, não é tarefa fácil, mas vou tentar, através de exemplos pessoais, juntar aqueles que, na minha opinião, terão servido para o efeito.</p> <p>Como já referido, o hipismo é, e foi, a modalidade mais apropriada para aprender o que fazer e como fazer no momento certo, pois não se trata somente de uma <em>técnica</em> que se conhece, porque, na sua prática, estão em jogo duas vontades autónomas e completamente independentes: a do cavaleiro e a do cavalo. O primeiro tem de dominar o segundo, sendo que este procurará <em>impor</em> a sua vontade, se não se sentir subordinado.</p> <p>A velha e desgastada pergunta dos instrutores de hipismo, quando um cadete era atirado ao chão pelo cavalo ‒ «Quem o autorizou a desmontar?» ‒ não era absolutamente nada sádica! Ela traduz o que acabei de referir: sem autorização do instrutor, o acto de desmontar só podia resultar da vontade do cavalo e essa não tinha cabimento no picadeiro! E não se pense que, a este propósito, o nosso rei D. Duarte era um simples pensador sem razão. Ele, como qualquer cavaleiro medieval, conhecia bem o valor psicológico de montar <em>toda a sela</em> (há selas mais fáceis de montar do que outras). E o que era verdade no século XV continua a ser verídico nos séculos XX e XXI.</p> <p> </p> <p>Uma outra modalidade de instrução decisória passa pelo exercício da liderança e, para tal, todos os cadetes eram treinados, comandando temporariamente conjuntos de camaradas seus. Creiam, não é nada fácil exercer acção de comando ou chefia sobre iguais, sobre aqueles que se sentem tão habilitados para o exercício do mando como aqueles que os mandam. Para se alcançar essa capacidade não basta ser empossado no cargo; é preciso conseguir superioridade sobre quem se comanda, ou seja, é necessário saber liderar. Quando se é capaz de comandar iguais está-se habilitado a comandar quem, naturalmente, se sente menos capaz para o exercício da autoridade.</p> <p>Era isto que se aprendia, ao longo dos meses, dos anos, na Academia Militar do meu tempo.</p> <p> </p> <p>Mas, a prática, ia mais longe, para nos treinar em ambiente semelhante ao que se vive em combate sujeito a grande esforço físico e, até, algum perigo. Disso tivemos a experiência nas manobras, no Campo Militar de Santa Margarida, no começo do Verão de 1962.</p> <p>Fizemos de soldados, de graduados e passámos por todos os esforços ‒ o que custou foi esse ano, porque, nos subsequentes, já estávamos habituados ‒ comuns a uma dura campanha. As longas marchas sob um sol escaldante, as esperas infinitas para mudar de posição, mas, mais do que tudo, as provas de patrulhas segundo percursos devidamente balizados, às vezes, ouvindo o zumbido dos disparos de armas com munição verdadeira, constituíam um processo de nos ir pondo à prova e, ao mesmo tempo, de nos fazer ultrapassar as dificuldades psicológicas que se levantam em momentos de intenso esforço físico e psiquíco, associando a tudo isto um outro efeito: o da interajuda no grupo.</p> <p> </p> <p>Todos os anos fomos tendo manobras, exercícios e treinos mais duros, contudo, sentidos mais brandamente, pois a nossa forma de estar e pensar já estava a moldar-se dentro do formato que nos devia acompanhar por toda a vida.</p> <p>A Academia Militar, tal como as suas congéneres da Marinha e da Força Aérea, em Portugal e em todos os países, era ‒ e deve continuar a ser ‒ <em>uma fábrica de oficiais militares</em>.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:220004 Luís Alves de Fraga 2020-05-26T12:51:00 Fases da minha vida ‒ 14 2020-05-26T11:57:20Z 2020-05-26T11:57:20Z <p> </p> <p>Na Academia Militar, no meu tempo, para se frequentar as armas e os serviços do Exército e o curso de pilotagem aeronáutica tinha de se estar habilitado com as alíneas (designação da época) de ciências físicas e matemáticas, ficando excluídos da carreira militar todos aqueles que tivessem marcada aptidão para as alíneas de letras (incluídas Direito, História e Filosofia). E o fundamento para tal modelo de concurso já começava a não fazer sentido, especialmente no que tocava às chamadas <em>armas</em>: infantaria, cavalaria e artilharia. E não fazia sentido, porque o desenvolvimento tecnológico era já, então, suficientemente avançado, dispensando a necessidade de saber física, química e matemática para fazer evoluir tropas em combate desde o posto de alferes a general. A prova absoluta disto mesmo tivemo-la, em 1973, quando guerrilheiros, na Guiné e Moçambique, sem formação especial, usando uma arma sofisticada ‒ o SAM 7 ‒ derrubaram aeronaves de elevado custo financeiro e grande valor operacional. Só este acontecimento ‒ se nos nossos estados-maiores militares se reflectisse sobre as coisas significativamente importantes ou se deixasse de usar a velha tradição castrense de que <em>é assim, porque sempre foi assim</em> ‒ era suficiente para alterar as exigências literárias de admissão à Academia Militar e, mais tarde, à Academia da Força Aérea, passando a incluir como passíveis de dar excelentes oficias os alunos com formação básica em letras.</p> <p> </p> <p>Claro que este requisito académico tinha tido a sua razão de ser, muito mais de natureza política do que de âmbito científico. Em duas palavras a explicação é simples.</p> <p>No <em>ancient regime</em> a nobreza tinha, naturalmente e por direito, lugar imediato no comando de tropas; no século XVIII começaram a surgir as primeiras escolas de formação de oficiais, em especial, para comandar tropas de artilharia e para dirigir trabalhos de construção militar. Era o despertar da cultura burguesa, que se impunha pelo saber e não pelo nascimento. A Revolução Francesa, acabando com a preponderância cultural da aristocracia, acabou circunscrevendo as ciências ditas exactas como fonte de uma nova cultura. Este facto teve imediatos e necessários reflexos na formação dos oficiais do exército na Europa. A Portugal chegou em pleno liberalismo, depois da vitória de D. Pedro, em 1834.</p> <p> </p> <p>Para além da condição <em>científica</em>, antes referida, acresce que, na Academia Militar, tínhamos de, no primeiro ano lectivo, a par de cadeiras de índole castrense, fazer com aproveitamento as disciplinas do primeiro ano da Faculdade de Ciências: Matemáticas Gerais, Física Geral, Geometria Descritiva e Desenho Rigoroso. Era dose!</p> <p>Todas eram leccionadas por oficiais do Exército, menos a regência de Geometria Descritiva, que estava entregue a um civil. Acrescentavam-se, depois, duas cadeiras semestrais tipicamente militares (uma delas foi, no meu tempo, a já referida Deontologia).</p> <p> </p> <p>O facto de serem ministradas por docentes militares evidenciava um aspecto subtil, que, na altura, nos passou despercebido, mas, com o rodar dos anos e a minha própria experiência de vida, se me tornou evidente: a par do conhecimento específico de cada cadeira estava subjacente a análise implícita, devida ao professor, das qualidades castrenses dos cadetes. Isso era tão evidente no meu tempo (como o é ainda agora) que admira não ter sido percepcionado logo de imediato através de um simples facto, que passo a relatar.</p> <p>Na universidade, um aluno que use de meios pouco ou nada lícitos para provar saber o que não sabe, obtém a classificação de zero e reprova; na Academia Militar, para além dessa imediata consequência, é punido disciplinarmente. Ou seja, fica marcada a sua propensão para a desonestidade (mesmo que <em>natural</em> na comunidade académica nacional) com a possibilidade de ter desfecho futuro no percurso formativo.</p> <p> </p> <p>Ao longo do curso de três anos e de mais quase dois semestres lectivos de tirocínio (aquisição de experiência prática para o exercício imediato das funções de oficial subalterno ‒ alferes e tenente) os cadetes aprendiam matérias de índole universal e conhecimentos específicos de duas naturezas: os gerais ao oficialato e os particulares da sua arma ou serviço.</p> <p>Exemplifico: os universais poderiam ser as Matemáticas Gerais; os gerais iam da topografia à estratégia, passando por história militar, fortificações, táctica geral, transmissões, motores, armamento e muitos mais; os particulares variavam entre os necessários às engenharias, à cavalaria, à infantaria, à artilharia e ao serviço de administração militar.</p> <p>Curiosamente, havia o cuidado de ensinar as bases fundamentais, com acrescentos teóricos, que tornassem a Academia na escola formadora para <em>toda a vida militar</em> e não somente para alcançar determinados postos na hierarquia. Todos os cursos seguintes, para a progressão no oficialato eram <em>acrescentos</em> ao saber, podendo constituir condição de promoção, mas o conhecimento estrutural devia ser adquirido no fim dos anos lectivos do internato na Academia Militar. Assim, ao concluir o curso, eu <em>sabia</em> ler uma carta militar (entenda-se mapa) e perceber onde se situavam as várias unidades constitutivas de uma divisão de infantaria; <em>percebia</em> se estava instalada ofensiva ou defensivamente; se ocupava as linhas de altura ou os vales ou as encostas; <em>sabia</em> os fundamentos da estratégia ‒ a ciência dos generais ‒ e como e quando se devia passar à ofensiva ou à defensiva, distinguindo, no teatro de operações, as diferentes zonas fundamentais para sustentar o empenhamento das tropas em primeiras linhas. Enfim, eu alferes era quase general! Claro que, função do desempenho da actividade diária própria da minha especialidade, na Força Aérea, em poucos anos perdi essa <em>bagagem</em> teórica. Perdi-a eu tal como todos os meus camaradas do Exército e os pilotos-aviadores! Tínhamos muito mais em que pensar e a guerra colonial chamava por nós.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:219769 Luís Alves de Fraga 2020-05-23T16:09:00 Fases da minha vida ‒ 13 2020-05-23T15:12:36Z 2020-05-23T15:12:36Z <p> </p> <p>Depois dos cadetes do primeiro ano da Academia Militar estarem capazes de marchar com alguma <em>cagança</em> (pouca, ainda, muito pouca!) e de, parados, fazer as voltas todas do regulamentos ou abrir fileiras ou perfilar pela direita ou alinhar pela frente ou pelos lados, começou a formatação psicológica ‒ tão necessária a quem quer ser militar do quadro permanente ‒ que eu chamaria de <em>acção psicológica</em>.</p> <p>Nesta fase foi fundamental a atitude do capitão Pedrosa, o <em>Zé d’Adega</em>, a quem me referi anteriormente. Era suficientemente alucinado, com total falta de sentido autocrítico, exagerado em tudo e, por isso, aquilo que deveria ser uma actuação dissimulada, sub-reptícia, disfarçada, para surtir um efeito mais profundo e muito mais marcado e marcante, passou a ser alvo de risadas, de chacota e quase de rejeição.</p> <p> </p> <p>Na formatura da manhã, após o pequeno-almoço, quando tínhamos de seguir para as aulas, o capitão Pedrosa, fazia-nos <em>recitar</em> ‒ o termo é mesmo este ‒ o Código de Honra do Cadete da Academia Militar.</p> <p>Não tenho dúvidas quanto ao interesse e valor desse código naquele momento crucial; deveria ser interiorizado por todos os novos alunos, pois era uma peça importantíssima na socialização, que supõe a carreira das armas, sobre a qual se deviam construir todos os esteios necessários à verticalidade e estruturação de quem vai comandar homens em situações extremas e que podem ter de dar e levar a dar a vida em prol de um objectivo nem sempre claro ou compreensível por quem combate.</p> <p>A forma como era declamado o Código tornava-o ridículo e, por mais repetido que tenha sido, creio, hoje, os cadetes desse tempo, oficiais reformados e velhos, não o devem saber, embora tenham apreendido o seu sentido último. O que devia ser lembrado como chave de uma socialização nova e necessária, perdeu-se lá nas calendas da memória.</p> <p> </p> <p>Mas houve outras formas, subtis, embora visíveis, de nos <em>entrar na psique</em>. Recordo duas a merecerem tratamento relevante: Mouzinho e a Deontologia Militar.</p> <p>Vamos a elas.</p> <p> </p> <p>O curso entrado na Academia Militar em Outubro de 1961 teve como patrono a figura de Mouzinho de Albuquerque. E compreende-se. A guerra colonial tinha começado em Angola e havia que chamar à memória dos cadetes desse ano a reminiscência de um grande capitão de África. Um militar que foi prestigiado no seu tempo por feito julgado quase impossível (devo acrescentar que, para mim, nessa altura da minha vida, ele fulgia lá no topo dos topos como exemplo único de bravura e de capacidade de servir a Pátria; estudos posteriores, análises feitas muito mais tarde com a frieza ‒ quiçá, o cinismo ‒ que os anos dão, levaram-me a perceber como de um militar comum, embora <em>duro</em> e intransigente, se <em>faz</em> um herói, mas isso ficará para depois…). E um patrono assim era uma responsabilidade para quem o tinha!</p> <p>Mas antes, creio eu, já havia espalhados pelas paredes das camaratas e outros pontos bem pensados, quadros com retratos e transcrições de escritos de Mouzinho. Textos curtos, mas incisivos, e outros mais longos, mas memoráveis. A carta de Mouzinho ao príncipe real D. Luís Filipe, quando foi nomeado, por D. Carlos, aio do suposto futuro Rei de Portugal é o exemplo mais acabado dessa <em>acção psicológica</em> para nos moldar dentro dos quadros mentais do que deve ser um soldado. Dessa, sim, ainda hoje recordo algumas frases ‒ lapidares ‒ que me forjaram o modo de estar na vida e no meio castrense.</p> <p> </p> <p>A Deontologia Militar, cadeira, creio, semestral, era ministrada pelo capelão da Academia, tenente-coronel licenciado em Direito e sacerdote católico, António dos Reis Rodrigues. Havia quem o designasse por <em>Urubu</em>, mas, indubitavelmente, era um homem superiormente inteligente, sabendo com muita exactidão o que se pretendia dele, enquanto docente daquela disciplina.</p> <p>Quando nós, cadetes, fazíamos barulho ou conversávamos nas aulas ele interrompia e, com olhar severo, dizia:</p> <p>‒ Se não respeitam o professor têm de obedecer ao tenente-coronel!</p> <p>Note-se a força desta frase crua, mas acutilante. Ele integrava, em absoluto, a farda que usava, os galões que lhe conferiam uma autoridade que jamais poderia ser contestada por qualquer um de nós sem que tal fosse indicador de uma total falta de vocação militar. Este homem foi marcante pelos apontamentos da disciplina que regia e à qual tínhamos de dedicar tanta atenção como a todas as outras.</p> <p>O meu relacionamento com ele, embora ainda dentro do âmbito da prática católica ‒ fui um dos poucos cadetes do meu tempo a aderir ao movimento, do qual ele era responsável no patriarcado de Lisboa, designado por Juventude Universitária Católica (JUC), que abandonei no segundo ano de frequência ‒ foi muito escasso e pouco dialogante.</p> <p>O volume por onde estudávamos Deontologia Militar ‒ foi há poucos anos que me desfiz dele, estando em depósito na biblioteca dos Pupilos do Exército ‒ é ainda agora um excelente manual onde estão compiladas as ideias fundamentais do comportamento moral, cívico, político e castrense que devem orientar um oficial desde o mais baixo posto até ao mais elevado da hierarquia. Este manual foi estudado por todos nós e, por pouco que tenha ficado guardado na memória, há, em cada um, os resquícios necessários para termos completado a carreira sem ferir em excesso aquilo que era esperado fizéssemos.</p> <p>Foi com o tenente-coronel António dos Reis Rodrigues que eu ‒ e todos os outros, que a tal tomaram atenção ‒ aprendi ser possível e, até, desejável que as Forças Armadas tomem o poder político quando aqueles que o detém já não representam os legítimos interesses da Nação!</p> <p> </p> <p>A formatação não se ficava pelo que descrevi; ela era feita ainda mais subtilmente enquanto aprendíamos conhecimentos diversos.</p> <p>Lá irei.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:219548 Luís Alves de Fraga 2020-05-20T01:42:00 Fases da minha vida ‒ 12 2020-05-20T00:43:52Z 2020-05-20T00:43:52Z <p> </p> <p>Depois de cumpridas as primeiras formalidades de admissão e recepção de fardamento nós, os novos cadetes da Academia, começámos a ter os rudimentos de instrução militar. Formávamos em círculo e, no meio, um jovem tenente, pacientemente, ia explicando e exemplificando as várias posturas e movimentos.</p> <p>Para mim tudo aquilo era uma repetição desnecessária, pois, durante, sete anos, no mínimo, treinei e ensinei a chamada <em>ordem unida</em>. Às vezes, olhava com sentido crítico o instrutor, pois, alguns, não pareciam fadados para o que estavam a fazer. Já nem me quero lembrar da figura triste da maioria dos meus camaradas acabados de vir do liceu! Eram descoordenados nos movimentos, desequilibrados nas voltas, meias voltas e reviravoltas. Tinham posturas pouco condizentes com aquela que se exige de um militar e, em especial, de um oficial.</p> <p>Recordo com particular saudade aquele que, estando na roda, tinha as duas mãos nos bolsos; o instrutor perguntou-lhe o motivo para tal e, na resposta ‒ com o jeito mais ou menos faia, mais ou menos ingénuo, mais ou menos espertalhão do lisboeta típico ‒, disse que estava a tirar o lenço do bolso. O tenente não se deu por achado e inquiriu se o cadete tinha um lenço em cada algibeira. Para espanto de todos nós, o meu camarada ergue as mãos com dois lenços. Foi o desconcerto geral, até do instrutor, que fez os possíveis para se não dar por achado.</p> <p> </p> <p>Em duas semanas, se não estou equivocado, aquela amálgama de jovens era já capaz de cumprir os mínimos para entrar em formatura e responder com suficiente capacidade às ordens dos cadetes mais antigos. Daquela massa descoordenada, nasceram <em>hipóteses</em> de militares com postura a condizer com a carreira que se iniciava.</p> <p>Mas, o que a maioria não desconfiava, é que, a par da exigida coordenação, os instrutores estavam a <em>moldar</em> outros aspectos, que não só os motores!</p> <p> </p> <p>Na verdade, a ordem unida ‒ nome que se dá aos movimentos conjuntos e síncronos de uma tropa ‒ visa <em>domesticar</em> as mentes dos instruendos; é uma forma de subordinar quem nunca foi sujeito à disciplina colectiva; esta é fundamental na vida castrense, pois, especialmente, em combate, ninguém pode ou deve pensar que alcança a vitória por si só, pois todos contam com todos.</p> <p>Esta <em>domesticação</em> e <em>moldagem</em> passa por aspectos julgados meramente preparatórios do físico do futuro oficial, contudo, feita uma análise mais profunda e cuidada, podemos concluir que, afinal, o mais importante são aspectos psíquicos e, em simultâneo, disciplinares. Darei alguns exemplos.</p> <p> </p> <p>Mesmo no começo dos anos 60 do século passado, quando todas as deslocações já eram mecanizadas, qual seria o interesse em obrigar os cadetes a, durante os dois primeiros anos, terem aulas de equitação? Aulas, diga-se em abono da realidade, violentas, tanto pelo desgaste psicológico como pela perigosidade física. É que não se tratava de aprender a <em>passear a cavalo</em>; aprendia-se volteio, montando em pêlo, saindo das aulas, por vezes a sangrar do ânus, tal o atrito contra a rude manta que cobria a coluna do animal; caía-se muito facilmente e corria-se o risco de apanhar um coice do cavalo. Em média eram cerca de quinze montadas no picadeiro. Havia cadetes que tinham terror das aulas de equitação.</p> <p>Qual era a necessidade?</p> <p>Uma só: aprender a impor a vontade própria contrapondo-a à vontade e manha do animal; superar o medo do que podia acontecer. Acima de tudo, dominar temores, superar dificuldades.</p> <p> </p> <p>Não se esgotava na prática hípica os mecanismos para disciplinar e <em>moldar</em> caracteres. O salto do muro, o salto da vala, a corrida no pórtico, o salto para o galho, a subida do <em>muro das osgas</em>, a descida no <em>slide</em> sem qualquer segurança para além da força das mãos, o salto de uma camioneta em andamento com enrolamento no solo, a descida, com enrolamento, das escadas eram tantos outros exercícios que punham à prova a capacidade do cadete se transformar num oficial capaz de marcar pelo exemplo e liderar sem mostrar receios. No fundo, queria-se fazer crescer uma certa <em>loucura controlada</em> capaz de levar a correr riscos sempre que necessários.</p> <p>De todos os <em>meios</em> usados pelos instrutores destaco dois, por me parecerem especialmente marcantes: a prova de agressividade e a corrida com máscara antigás. Eu conto.</p> <p> </p> <p>Na prova de agressividade o instrutor mandava dois cadetes calçaram umas luvas de boxe pouco acolchoadas e cronometrava, creio, quinze ou vinte segundos para que os dois se envolvessem à pancada, sem qualquer restrição de golpes… valia tudo. Mas a coisa não era assim tão <em>simples</em>! É que a escolha era sempre desigual: um alto com um baixo, um melhor constituído com outro pior, um com características de ferocidade com outro aparentemente calmo. Vi um cadete ‒ que não chegou a oficial ‒ fugir à frente de outro que o foi; soube de vários narizes fracturados que, no entanto, levaram os intervenientes ao oficialato.</p> <p>A corrida com máscara antigás foi executada nas manobras, no Campo Militar de Santa Margarida, no final do primeiro ano (1962), e consistiu no seguinte: após uma progressão por todo o terreno, feita em acelerado, durante vários quilómetros, a patrulha era obrigada a descer um vale com grande declive e a subir a vertente oposta, servindo-se das mãos para vencer a inclinação; chegados ao topo esperava-nos um instrutor com um jeep e máscaras antigás que, com a cara suada, colocávamos e, depois, tínhamos de correr atrás da viatura donde o tenente verificava se alguém aliviava a máscara para conseguir respirar. Pensei que morria, mas a frase insistentemente gritada ou murmurada pelos oficiais era sempre a mesma: «O limite da resistência humana ainda está por descobrir!»</p> <p> </p> <p>Ao cabo de um ano de formação, na Academia Militar, estava-se longe de se ter conseguido mudar os jovens civis, antigos alunos do liceu, em oficiais do Exército, embora a maioria julgasse o contrário. Isso mesmo foi visível para mim, com a preparação militarizada adquirida em sete invernos de Pupilos do Exército, no contacto com os cadetes do segundo ano. Era perceptível em coisas simples, tais como a tentativa de praxe, da qual rapidamente desistiam, usando uma frase com que denunciavam a sua impreparação, ainda que, conscientemente, não a admitissem: «O <em>infra</em> vá-se embora, porque já é <em>praça velha</em>». Era também detectável nas <em>crises</em> de autoritarismo confundidas com capacidade de liderança.</p> <p> </p> <p>Voltarei, mais tarde, a este aspecto, que reputo muito importante, para se perceber como uma formação mais longa faz toda a diferença entre um oficial miliciano e um oficial do quadro permanente (questão que, nem mesmo os velhos oficiais com elevada graduação, durante a guerra colonial, perceberam ao aprovar cursos de curta duração para milicianos com experiência de campanha).</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:219265 Luís Alves de Fraga 2020-05-18T20:34:00 Razões da aflição nacional 2020-05-18T19:36:58Z 2020-05-19T07:43:24Z <p> </p> <p>Naturalmente todos percebemos a necessidade e a urgência da retoma da actividade económica nacional. Temos familiares, amigos, conhecidos que ficaram sem emprego ou com salários muito reduzidos. Conhecemos alguém que teve de fechar a sua empresa.</p> <p> </p> <p>Isto tem várias explicações, mas aquela de que não se fala é, na minha opinião, a mais importante de todas: o tipo de empresas existentes.</p> <p>De facto, o tecido empresarial nacional é maioritariamente constituído por microempresas, mini empresas e pequenas empresas. São, por conseguinte, empresas que qualquer sopro as deita ao chão. Dão trabalho a pouca gente e não dão rendimentos significativos ao empresário. Estes não têm capital suficiente para suportar as convulsões do mercado, pois vivem nas margens do dia-a-dia.</p> <p> </p> <p>Esta tendência caracteriza a cultura portuguesa: mais vale ser patrão do que ser empregado! Assim, há uma constante apetência para a criação de minúsculas empresas incapazes de suficiência financeira. Dependem, quase completamente, de empréstimos bancários; estão sempre com <em>a corda na garganta</em>.</p> <p> </p> <p>Cabia aos poderes políticos alterar esta cultura, através da adopção de medidas tendentes à formação de quadros para trabalhos qualificados em empresas com dimensão média/grande; através de facilitar o investimento estrangeiro não em empresas de exploração de mão-de-obra de baixo custo, mas empresas capazes de absorver trabalhadores de médio/alto gabarito especializado.</p> <p> </p> <p>Assim, em resumo muito sintético, o que sempre fez falta em Portugal foi governantes com visão estratégica capaz de estudar as conjunturas e os contextos dialécticos, gerando respostas integradas e altamente supervisionadas para determinar políticas formativas, fiscais e financeiras que contrariem hábitos velhos e frágeis num mundo de tremenda concorrência.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:218908 Luís Alves de Fraga 2020-05-17T11:07:00 Fases da minha vida ‒ 11 2020-05-17T10:14:26Z 2020-05-17T13:13:57Z <p> </p> <p>Dei entrada na Academia Militar ‒ aquartelamento da Amadora, antigas instalações do Grupo de Esquadrilhas de Aviação República (GEAR) ‒ no dia 19 de Outubro de 1961.</p> <p>Não ingressámos todos no mesmo dia; fomos entrando até perfazermos um total de duzentos e cinquenta e sete cadetes, se a memória não me falha. Trajávamos, naturalmente, à paisana, acompanhados de uma mala para transportar os nossos pertences, e foi vestidos à civil que nos dirigimos para um moderno ‒ na altura ‒ anfiteatro situado num conjunto de edifícios claramente de construção recente. Viemos, mais tarde, a saber tratava-se do <em>palácio do Maravilhas</em>.</p> <p>Usou da palavra um capitão de infantaria ‒ era o comandante da 1.ª companhia de alunos ‒ os <em>infras</em> ‒ e chamava-se Pedrosa, cuja alcunha, também mais tarde aprendida, era <em>Zé d’Adega</em>. Sujeito espalhafatoso, nitidamente a querer impressionar os novos cadetes, exagerado nos movimentos de corpo, arengou durante, talvez, mais de meia hora.</p> <p> </p> <p>Três ou quatro ideias retive desse discurso: primeira, ia-nos ser entregue um livro no qual estava previsto <em>tudo</em> sobre o modo como nos devíamos comportar na Academia e fora dela, bem como tudo o que tínhamos direito e tudo os que nos estava vedado e, ainda, tudo sobre como deveríamos requerer o quer que fosse. Eram as ISI (se a memória não me atraiçoa) ou seja, as Instruções de Serviço Interno; segunda, estávamos ali para sermos oficiais do Exército português; e, terceira, a <em>carreira das armas</em> não era financeiramente rendosa para ninguém, mas, entre nós, estariam, pela certa, alguns futuros generais; quarta, quem se tivesse enganado na escolha do futuro poderia e deveria sair imediatamente. Ninguém saiu.</p> <p> </p> <p>Depois de identificarmos a nossa cama, o armário e o baú na camarata ‒ dividida em <em>compartimentos</em> separados por um murete de cerca de dois metros de altura, alojando dez cadetes ‒, fomos receber os artigos de fardamento: desde o bivaque às botas, passando por lençóis de cama, de banho, toalhas, camisas, fronhas de almofada, cinto, blusão, calças, polainitos.</p> <p> </p> <p>Cadetes mais antigos abeiravam-se de nós e, chamando-nos <em>infras</em>, ensaiavam as primeiras as acções de praxe, as quais se centravam na tentativa de intimidar o recém-chegado, fazendo-lhe perguntas, às vezes, bastante estúpidas.</p> <p> </p> <p>Os únicos antigos alunos dos Pupilos admitidos no primeiro ano da Academia foram, para além de mim, o António José Mendes Dias Trancoso e o Manuel António Duran dos Santos Clemente ‒ este havia sido, no Instituto, o comandante do batalhão de alunos, no ano transacto ‒ que, por nos destinarmos ao Serviço de Administração Militar, ficámos na mesma camarata, no mesmo compartimento e na mesma mesa, no refeitório.</p> <p> </p> <p>Para quem, como eu, vinha de um internato militarizado, as instalações, a vida e as <em>liberdades</em> oferecidas no aquartelamento da Amadora corresponderam a ter saído de um calabouço e a ter dado entrada numa pensão de quatro estrelas!</p> <p>Não me assustavam os horários, nem as formaturas, nem as continências, nem o rigor exigido no comportamento; o que me espantava era o facto de nas camaratas haver aquecedores, funcionando a água quente ‒ vinha habituado a <em>rapar</em> frio no Inverno ‒, ao pequeno-almoço poder escolher várias alternativas de alimentos ‒ ou todos, se para tal tivesse estômago ‒ desde o simples café com leite com pão e manteiga, até salsichas, iogurtes, ovos, mel, doce, cereais, ao almoço e jantar haver dois pratos e fruta e doce, vinho branco, tinto e água, poder fumar nas aulas práticas, consumir bebidas alcoólicas no bar de alunos, existir uma sala de música para os <em>maluquinhos</em> dos clássicos escutarem, no maior silêncio, as peças preferidas e, maravilha das maravilhas, sair entre o fim das aulas ‒ dezassete horas ‒ e regressar, devidamente autorizado, às dez da noite. A acrescentar a tudo isto, ainda recebia trezentos escudos, no final do mês, representando um alívio da conta bancária, que tinha de gerir cautelosamente, onde o meu pai guardara, mensalmente, o abono de família, que lhe era devido por ter um filho. Foi desse dinheiro que paguei explicações e tudo o mais necessário para concorrer à Escola Naval e à Academia Militar.</p> <p>A admissão na Academia deu-me a mais completa noção de liberdade nunca sentida nos sete anos anteriores, aquando da estadia nos Pupilos do Exército.</p> <p> </p> <p>Naturalmente, este sentimento não durou todo o tempo de formação. Seria, até anormal se tal sucedesse. Vingou até às férias do Natal. Depois tudo se tornou rotineiro e ganhou as dimensões de uma nova realidade.</p> <p>Lá irei, lá irei.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:218747 Luís Alves de Fraga 2020-05-14T10:49:00 Fases da minha vida – 10 2020-05-14T09:51:30Z 2020-05-14T17:42:07Z <p> </p> <p>Acabado o concurso à Academia Militar, feita a cadeira de Geometria Descritiva, restaram-me uns dias, talvez uma semana para gozar, efectivamente, férias… em Lisboa, na casa dos meus pais.</p> <p>Havia sido um Verão intenso, pois o concurso à Escola Naval ‒ minha primeira escolha no fim do segundo ano de contabilistas ‒ começava como, creio, ainda começa, logo no final de Julho ou primeiros dias de Agosto e voara o tempo em voltas burocráticas e em preparar-me ‒ com auxílio de uma explicadora ‒ para o exame de Matemática e para o de Geografia. Fiz as provas psicotécnicas e académicas e logo nestas fui excluído, não por causa da Matemática ‒ tinha uma boa <em>cunha</em> suficiente para superar as minhas carências ‒, mas por causa da Geografia onde tudo correu bem até à pergunta de desenvolvimento.</p> <p>Merece que conte.</p> <p> </p> <p>No final do primeiro trimestre do ano de 1961, como é sabido pelos mais velhos, começaram as operações militares em Angola e os jornais transbordavam, ainda em Julho e Agosto, de um <em>patriotismo</em> exacerbado. Os Portugueses andavam exasperados com os massacres levados a cabo no Norte de Angola, pela UPA. Vivia-se o espírito do <em>Rapidamente e em força</em> e do <em>Angola é nossa</em>, slogans lançados por Salazar num discurso feito algures.</p> <p>Ora, o comandante Renato Sequeira de Brito, professor da cadeira de Geografia, na Escola Naval, também antigo aluno dos Pupilos do Exército, entendeu levar os candidatos a mostrarem o que pensavam sobre o futuro de Angola, naquele momento.</p> <p>Ciente de que estava a responder a uma pergunta para ingresso no ensino superior militar, entendi que o <em>patriotismo</em> próprio de uma prova de exame de instrução primária não tinha ali cabimento e, se o pensei, melhor o coloquei em prática: achei por bem dizer que, embora a resistência de circunstância fosse necessária, a prazo, como acontecera com o Brasil, Angola, viria a ser independente.</p> <p>Jesus, Virgem Santa Maria, o que eu fui dizer! Reprovado por <em>falta de patriotismo</em> foi a resposta dada a um dos oficiais, também de Administração Naval, o comandante Diogo Afonso, um dos que <em>intercedia</em> por mim no concurso. De nada valeram as racionais <em>chamadas de atenção</em>. O regente da cadeira era, pelos vistos, um visionário, um crente em soluções impossíveis e, acima de tudo, um <em>homem do Estado Novo</em>.</p> <p>Acaba aqui a história que me levou a não poder ser hoje, provavelmente, um capitão-de-mar-e-guerra, reformado, da nossa Armada!</p> <p> </p> <p>Sem férias decentes e sem resultados do concurso à Academia Militar o meu pai entendeu ‒ e bem ‒, no dia do começo das aulas nos Pupilos mandar-me apresentar para frequentar o terceiro ano do curso de contabilistas. E eu fui, porque nem outra coisa me passou pela cabeça! Poderei ter achado violento ‒ se achei, já não me lembro ‒, mas uma ordem do meu pai não era para ser refutada.</p> <p>Fui e ainda tive um ou dois dias de aulas. Mas ‒ aqui, presumo, terá havido mão da minha mãe ‒, talvez no terceiro dia ‒ lá para 9 de Outubro, que foi segunda-feira ‒, de manhã, avisaram-me que o meu pai estava na parada da 2.ª Secção e queria falar comigo. Fui ter com ele e disse-me: «Vamos ser recebidos pelo senhor director». Não me deu a curiosidade de averiguar do motivo e fui com ele direito ao gabinete do coronel Ferreira Gonçalves.</p> <p> </p> <p>O diálogo começou por o meu pai expor que eu estava ali porque não se sabia, ainda, o resultado do concurso à Academia Militar, que não tinha tido férias e julgava justo eu ter alguns dias de repouso, se fosse aprovado nas provas já concluídas. O director, muito amável, com uma amabilidade que lhe desconhecia, prontificou-se a telefonar para o gabinete de estudos da Academia e saber se eu estava ou não na situação de ser admitido.</p> <p>Não tardou a resposta: eu já era cadete da Academia Militar e poderia ir para casa. Contudo, o inesperado, o impensável, o inacreditável, aconteceu, e passo a relatar.</p> <p>O rigoroso e nada simpático coronel Alfredo Ferreira Gonçalves, director do Instituto dos Pupilos do Exército, disse, textualmente, ao meu pai:</p> <p>‒ Senhor Fraga, não deixe o seu filho ir para a Academia Militar; ele tem um outro futuro na frente!</p> <p>Fiquei estarrecido. O que era aquilo? O meu director não queria que eu fosse militar de carreira? Poderiam contar-me tudo, mas aquilo que acabara de ouvir jamais acreditaria.</p> <p>O meu pai, com a tranquilidade que lhe era habitual, respondeu:</p> <p>‒ Senhor director, o Luís Manuel é quem decide. Os olhos de ambos estavam fixos em mim. Tinha arquitectado vários planos B para o caso de não entrar na Academia, mas não previra este cenário. Eles esperavam uma resposta.</p> <p>‒ Eu quero ir para a Academia Militar!</p> <p>Acabara de cortar definitivamente o cordão umbilical que me prendia à Casa, ao director, ao curso de contabilistas e a outras hipóteses que se me abririam na vida. Defini, naquele momento e com aquela frase, o meu presente.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:218603 Luís Alves de Fraga 2020-05-11T14:17:00 Fases da minha vida ‒ 9 2020-05-11T13:18:57Z 2020-05-11T19:12:16Z <p> </p> <p>Depois da <em>morte</em> de uma paixão, depois de um <em>chumbo</em>, depois de uma <em>excomunhão</em> o meu regresso ao Instituto dos Pupilos do Exército já só tinha um significado: concluir o ano lectivo e tentar ingressar ou na Escola Naval ou na Academia Militar.</p> <p>Procurei alcançar o maior rendimento possível nos estudos, mas, como já disse, aquele ano lectivo era muito difícil. Esgadanhei nos livros o mais que pude, contudo, as notas não foram famosas. A minha natural propensão não ia no sentido das ciências físicas nem matemáticas. Estar naquele caminho representou muito esforço e muito sentimento de suficiência, porque era um aluno só suficiente!</p> <p> </p> <p>Chegado a Junho fui sujeito a várias provas orais e lá me safei com uma média baixinha. Mas…</p> <p>Há aqui uma história, da qual só tive conhecimento um ano depois, que merece ser relatada. Quem ma contou foi, nem mais nem menos, o director dos Pupilos do Exército, era eu já cadete da Academia Militar, quando, uma vez, fui visitar a 2.ª Secção do Instituto.</p> <p> </p> <p>Do que me disse o coronel Ferreira Gonçalves, em Junho de 1961, na reunião dos professores, antes dos exames, ao discutir-se quem aprovava ou não, eu estava em vias de ser excluído, por falta de positivas em mais de duas ou três disciplinas. Perdeu-se tempo a analisar o meu caso e, porque também professor, o padre Ruy Corrêa Leal foi taxativo na sua opinião: havia que eliminar-me, sem apelo nem agravo. Rua, com as pernas cortadas!</p> <p>Foi o director quem exigiu que me fosse dada a possibilidade de ir a exame escrito e oral. Fui e passei. Todavia, a razão para o austero director me contar este episódio, que me seria completamente alheio, está ligada a uma outra história. Aí vai.</p> <p> </p> <p>Como já relatei, desde 1959, com a reforma da Escola do Exército em Academia Militar, os alunos dos Pupilos, com o curso de contabilistas, poderiam concorrer a todas as armas e serviços, porque, cumulativamente, estavam habilitados, também, com o, então designado, 7.º ano alínea f) dos liceus. Ora, havia uma das cadeiras correspondente àquela equivalência que só era leccionada no último ano do curso de contabilistas, donde, porque eu estava a concorrer com o penúltimo, a aceitação às provas na Academia Militar era condicionada à aprovação nessa derradeira disciplina, que deveria fazer em época especial, determinada pelo director do Instituto. Não era fácil a tal disciplina em falta; tratava-se de Geometria Descritiva, coisa de que eu nunca ouvira falar!</p> <p> </p> <p>Lá pelo meio de Agosto ‒ creio, já depois de ter feito algumas das provas de admissão ‒ tive de ir aos Pupilos e encontrei o severíssimo director que, de chofre, me lançou as perguntas: «Quando é fazes exame de Geometria Descritiva? Sabes alguma coisa da matéria?». Olhei-o nos olhos e respondi: «Não sei nada e faço quando o meu director mandar».</p> <p>Marcou-me o exame para treze dias depois e deu-me o programa da matéria para eu saber o que tinha de estudar. Olhei para aquilo exactamente como diz o provérbio popular: <em>como boi para palácio</em>!</p> <p>Nesse mesmo dia consegui arranjar uma explicadora, que levava um preço módico, para me ensinar o programa em lições intensivas com duração de cinco ou seis horas diárias.</p> <p> </p> <p>Descobri que tinha uma capacidade, até aí, minha desconhecida: <em>ver no espaço</em>, ou seja, imaginar, em abstracto, objectos que não existem. Este facto foi fundamental para perceber a forma de representar no papel esses objectos, idealizando-os atravessados por rectas ou por planos. Em doze dias passei do completo desconhecimento da Geometria Descritiva para a capacidade de transpor da representação no 1.º quadrante para o 4.º.</p> <p>No décimo terceiro dia apresentei-me a exame escrito, com a presença do director e, depois de concluído, fui sujeito a prova oral, cerca de meia hora após ter sabido da aprovação com uma nota que, se aceite, iria ser superior à do meu condiscípulo que havia frequentado o ano completo de aulas; assim, a classificação teria de ser mais baixa. E foi.</p> <p> </p> <p>Na opinião do coronel Ferreira Gonçalves, só um indivíduo <em>muito inteligente</em> teria condições para fazer o que eu fiz!</p> <p>Juro, na altura, não liguei a mínima importância ao facto; o que queria era entrar para a Academia Militar. Agora, era esperar pela saída dos resultados do concurso. Mas, para o director, a minha aprovação naquela cadeira confirmou a aposta que havia feito dois meses antes, quando o padre Ruy me queria ver excluído dos Pupilos por falta de aproveitamento escolar!</p> <p> </p> <p>Até chegar à Academia Militar falta, ainda, um episódio passado nos Pupilos entre o director e o meu pai, com a minha presença.</p> <p>Vê-lo-emos mais tarde.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:218338 Luís Alves de Fraga 2020-05-08T11:32:00 Dia Mundial da Língua Portuguesa 2020-05-08T10:40:55Z 2020-05-08T10:40:55Z <p>Porque julgo muito interessante, deixo aqui um vídeo que nos afaga o ego linguístico mesmo quando temos de viver com o chamado Novo Acordo Ortográfico (NAO) o qual nos desvincula das origens etimológicas das nossas palavras.</p> <p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/ykFR5vZB9lY?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:218071 Luís Alves de Fraga 2020-05-08T11:05:00 Centeno e a entrevista 2020-05-08T10:06:40Z 2020-05-08T10:06:40Z <p> </p> <p>Ontem, na RTP 3, Mário Centeno esteve à conversa com o especialista em assuntos económicos daquela estação. Uma entrevista sem agressões nem ataques inquisitoriais. Uma entrevista conduzida com o declarado desejo de deixar o ministro das Finanças expor os seus pontos de vista de modo a esclarecer os Portugueses.</p> <p> </p> <p>Na sequência, ficaram claros alguns aspectos interessantes: o saldo orçamental previsível para o final deste ano vai ser deficitário na ordem dos 6% do PIB; tal não é visto, pelo ministro, como uma calamidade, se comparado com a vitória da gestão de 2019 (esta serviu, na opinião do governante, para provar que somos capazes de grandes recuperações financeiras); está garantido o apoio da União Europeia ‒ uma parte a fundo perdido e outra por empréstimo; não parece delinear-se, como opção para a crise económica, um tempo de austeridade, embora tenha de haver sacrifício. O ministro enfatizou a crise sanitária e não a crise económica.</p> <p> </p> <p>Curiosamente, um comprovado deslize de Centeno foi quando quis comparar as soluções da União Europeia com as dos EUA. Aí falhou em absoluto!</p> <p>Centeno sabe muito de finanças e de gestão dos dinheiros públicos, mas sabe pouco de História e, menos ainda, de Ciência Política.</p> <p>Explico.</p> <p> </p> <p>Os EUA são uma federação de Estados ‒ ou seja, cada um dos territórios integrantes perdeu totalmente a soberania, que foi cedida ao governo federal ‒ enquanto a União Europeia é, ainda, uma confederação de Estados ‒ ou seja, cada um dos integrantes mantém a soberania mais ou menos intacta, por isso, tem Ministério de Negócios Estrangeiros e Ministério da Defesa.</p> <p>Esta aparente semelhança faz toda a diferença, pois na <em>nossa confederação</em> ainda prevalece como valor maior o nacional, ou seja, em situação de perigo, de qualquer natureza, o <em>governo do Estado confederado</em> chama a si toda a autoridade para tomar decisões que dependem da sua Constituição Política e não da do governo da confederação, que pode ou não existir.</p> <p>Os EUA deixaram de ser uma confederação com a vitória dos Estados do Norte sobre os Estados do Sul, aquando da guerra civil. Assim, pode falar-se de uma consciência nacional americana enquanto que na União Europeia não há indicadores de <em>nacionalismo europeu</em>.</p> <p>Mário Centeno <em>meteu água</em> na comparação, porque esqueceu que a <em>independência</em> dos Estados federados americanos só gere uma autonomia <em>regional</em> e os Estados europeus têm soberania nacional.</p> <p> </p> <p>É nesta diferença que reside a dificuldade de entendimento na Europa quando se pretende tomar decisões a vinte e sete: há falta de identidade <em>comunal</em>, por excesso de identidade nacional.</p> <p>Os burocratas europeus, nomeadamente Centeno, gostariam de já ter ultrapassado este <em>empecilho</em> ‒ daí que o <em>lapso</em> de ontem tenha saltado tão espontâneo ‒ mas, na verdade, não se conseguem extirpar centenas de anos de história, nos quais prevaleceu a luta pela soberania nacional, para cairmos numa identidade jamais existente.</p> <p>Como tenho batalhado desde os anos 80 do século passado, o mais que se devia <em>construir</em> na Europa era um mercado comum, pesem embora, os inconvenientes que agora se sentiriam, nesta crise pandémica.</p> <p> </p> <p>Conclusão a tirar do que deixei dito: Centeno não pode ‒ não deve ‒ levar tão a peito a União Europeia, pois corre o risco de esquecer os interesses nacionais, que são os prevalecentes neste arranjo político no continente.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:217853 Luís Alves de Fraga 2020-05-07T12:38:00 Consumo ou austeridade? 2020-05-07T11:42:25Z 2020-05-07T11:42:25Z <p> </p> <p>Ontem vi parte de um painel liderado pelo José Gomes Ferreira, na SIC, onde peroraram uns senhores mais do que comprometidos com as grandes empresas e com a alta finança nacional; só um terceiro, professor do ISEG, me pareceu descomprometido e isento.</p> <p> </p> <p>A questão em debate era reflectir sobre como se recuperará a economia portuguesa. Dois dos intervenientes apostavam forte nas medidas de austeridade, ou seja, levar novamente os funcionários do Estado e pensionistas a pagarem a crise de modo a que, com todos os alívios possíveis, as empresas recuperem os lucros perdidos. O professor defendeu, e bem, que a economia readquire pujança através do aumento do consumo e, para tal, a austeridade é absolutamente inadequada, pois, sem dinheiro não é possível comprar.</p> <p> </p> <p>As divergências entre os intervenientes no painel resultam de dois ângulos de análise: ou se pede dinheiro emprestado para superar a crise ou vai-se buscá-lo internamente, evitando o endividamento.</p> <p>Na primeira perspectiva, transfere-se o pagamento da crise para o futuro, quer dizer, quem vai liquidar a dívida são os nossos filhos e os nossos netos; na outra solução, quem se lixa somos nós, os quase a morrer, os com alguns anos de vida e os com muitos anos de vida pela frente. Ainda mais resumidamente: uns preferem comprometer o futuro e outros o presente imediato.</p> <p> </p> <p>Pessoalmente, aposto na primeira hipótese: comprometer o futuro. Não o faço porque quero <em>empurrar com a barriga</em> o que se passa no presente. Não!</p> <p>Opto pela solução dos empréstimos por várias razões, das quais destaco duas, que, presumo, são basilares: as economias não tendem, ao longo do tempo, a <em>encolher</em>, mas sim a expandir-se; o preço do dinheiro vai baixando com a passagem do tempo.</p> <p>Vejamos com o pormenor possível.</p> <p> </p> <p>Foi em 2009 que se liquidou totalmente a dívida contraída cento e cinquenta anos antes por Fontes Pereira de Melo. O peso dos juros da dívida foi tornando-se mais baixo, porque em simultâneo, ocorreram dois efeitos: a desvalorização do dinheiro (efeito da inflação) e aumento da economia nacional (o mesmo é dizer, da capacidade produtiva do país), que deu uma dimensão menor ao valor em dívida.</p> <p>É evidente que, os juros das dívidas contraídas agora, vão ser, para a nossa capacidade produtiva momentânea, altos, mas, o objectivo, lá mais à frente no tempo, é fazer crescer essa tal capacidade de produção. Numa palavra, esta opção corresponde a uma aposta no enriquecimento da Nação.</p> <p>Claro, o objectivo dos empresários, investidores na economia, não é o de enriquecer os netos ‒ qualquer um deles ri-se dessa ideia, pois sabe que, deixando boas <em>infraestruturas financeiras</em> ao morrer, os netos, se souberem administrá-las, as vão ampliar ‒, mas o de se enriquecerem a si mesmos, e já, por isso, quanto mais benefícios colherem no momento presente, melhor será, mesmo que à custa do mau passadio dos seus trabalhadores.</p> <p> </p> <p>Espero ter sido suficientemente claro para que os leitores possam compreender os objectivos em presença e, assim, possam formar opinião sobre se a saída para a crise se faz com austeridade ou com consumo.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:217468 Luís Alves de Fraga 2020-05-06T11:53:00 Da guerra à paz 2020-05-06T10:57:11Z 2020-05-06T12:56:53Z <p> </p> <p>Há coisa de dois meses o novo vírus havia declarado <em>guerra</em> à humanidade e foram tomadas medidas apropriadas ao <em>estado de guerra</em> nos diferentes países.</p> <p>Ora bem, eu passei mais de duas dezenas de anos a estudar a Grande Guerra e o papel de Portugal nesse conflito, para além das consequência do mesmo nosso país; estudei durante vários anos a 2.ª Guerra Mundial e como Portugal sofreu os efeitos de uma guerra onde não foi combatente; o mais evidente nestes estudos foi o tempo de duração dos conflitos e, logo de seguida, o descalabro económico e social subsequente.</p> <p>Ambos duraram anos a resolver-se e anos a reencontrar sentido para as economias nacionais. As perdas humanas foram brutais.</p> <p> </p> <p>Discordo ‒ já o escrevi ‒ que se chame à pandemia uma guerra, mas se os poderes políticos assim a querem qualificar, têm de ser coerentes e assumi-la na íntegra. E se o fizerem, estamos a viver, com toda a propriedade, a 3.ª Guerra Mundial.</p> <p>Pela dimensão global desta <em>guerra</em>, pela forma como o <em>inimigo</em> se comporta, pela falta de <em>armamento</em> apropriado para o <em>derrotar</em>, esta <em>guerra</em> não é um <em>conflito</em> de curta duração nem é, falando a linguagem militar que querem adoptar, um <em>conflito</em> clássico simétrico; pelo contrário é completamente assimétrico. Foi assim tratado em todos os territórios por onde tem <em>aberto frentes de combate</em>: resguardar a <em>retaguarda</em> e <em>combater</em> <em>na linha da frente</em> com os meios humanos possíveis e usando o <em>arsenal</em> mais provável para minimizar os danos directos.</p> <p>Mas, ao fim de uns poucos meses, inicia-se a dança dos números da economia e da finança.</p> <p> </p> <p>O <em>combate assimétrico</em> começa a <em>perder</em> importância face aos danos colaterais e a <em>estratégia</em> tem de mudar, passando, agora, a serem danos paralelos a infecção, as mortes e o esforço da <em>primeira linha de combate</em>, assumindo-se como <em>campo de batalha privilegiado</em> a reafirmação da economia!</p> <p>Ao retomar a economia ‒ com todos os avisos contra o <em>inimigo</em> deste conflito assimétrico ‒ escancaram-se as portas a todos os desleixos dos <em>combatentes</em> ‒ somos nós, evidentemente ‒ que, por não <em>verem o inimigo</em>, por não <em>sentirem a ameaça</em>, ficam entregues a si mesmos, podendo <em>deixar-se dormir</em> no seu <em>posto na trincheira</em>.</p> <p> </p> <p>Olhando desta forma para a actual <em>guerra</em>, comparando-a com os dois conflitos mundiais passados, não sou capaz de compreender nem os <em>políticos</em> nem os <em>generais</em>! Não os compreendo, porque mudaram tudo do avesso! Ou, talvez, não tenham mudado…</p> <p>Realmente, em ambas as guerras mundiais, as vidas humanas passaram a valer zero! Morria-se tanto nas trincheiras como nos campos de batalha, como nas cidades bombardeadas sem se levar mais em conta as baixas entre civis e militares; importante era, foi, derrotar o poder económico do opositor para, deste modo, levá-lo à derrota!</p> <p>Pensemos na tal mudança de <em>estratégia</em> ‒ evidente com a abertura das actividades comerciais e industriais menos essenciais ‒ e comparemos: o <em>inimigo</em> não é o vírus e não interessam, de facto, as baixas que ele faz; o <em>inimigo</em>, nos diferentes países em <em>luta</em>, é a falência das economias, a dívida e o deficit orçamental.</p> <p> </p> <p>Não tenhamos dúvidas: os poderes políticos, em todos os Estados, estão a seguir a <em>mesma estratégia</em>! O que varia é o modo como a anunciam: uns, abertamente, declaram qual é o objectivo principal e outros, criticando aqueles, dissimulam, lamentam as perdas de vidas humanas, ensinam meios de <em>luta</em>, mas querem salvar a economia e a finança, porque sabem que os <em>generais</em>, mesmo em <em>guerras assimétricas</em>, estão mais salvaguardados do que o resto da <em>tropa</em>.</p> <p>Que venha a paz!</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:217242 Luís Alves de Fraga 2020-05-05T10:11:00 Poesia com métrica 2020-05-05T09:14:03Z 2020-05-05T09:14:03Z <p> </p> <p>Quanta poesia anda escondida por entre páginas de jornais velhos, revistas e outros periódicos esquecidos? Quanta ficou em gavetas carcomidas pelo bicho da madeira? Quantos poetas não viram ou não quiseram publicada a sua poesia?</p> <p> </p> <p>Houve tempo em que poetar implicava usar uma rigorosa métrica silábica a par de uma rima elegante. Foi, segundo estas balizas, que Camões escreveu toda a lírica e, também, <em>Os Lusíadas</em>. Foi assim que Garrett, António Feliciano de Castilho, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e tantos, tantos outros passaram à memória literária portuguesa. Foi sobre o silêncio de muitos, que bastantes fizeram ouvir os seus versos.</p> <p>Claro, há muito má poesia metrificada que merece o olvido geral, mas nem o mau justifica o silêncio sobre o bom, nem este deve servir para enterrar mais fundo aquele.</p> <p>Arrisco-me a dizer que os Portugueses têm ‒ será melhor dizer, tiveram? ‒ a poesia no sangue. É ‒ foi ‒, talvez uma manifestação da característica <em>saudade</em> ou da melancolia nacional. De certeza é/foi a marca dos sentimentos à flor da pele.</p> <p> </p> <p>O meu pai, como os jovens da sua época, açoriano ‒ motivo mais do que suficiente ‒, também versejou com métrica. Publicou em revistas da ilha Terceira, quando era seminarista, e muitos anos mais tarde voltou à poesia, quase no fim da vida, quando percebeu que poderia mostrar-se por dentro sem que tal fosse um acto de fraqueza.</p> <p>Estão esquecidos, até pela família, os poemas que fez. Guardo-os nos manuscritos e não recuperei os publicados em jornais.</p> <p>Há, contudo, um soneto pelo qual nutro especial carinho, por vários motivos: foi escrito já depois de ter completado sessenta anos, quando sentia não ir viver muito mais; mostra o sonhador que foi e não se permitiu ser ou expor como era; evidencia uma ternura que não lhe estava no hábito.</p> <p> </p> <p>Como acordei hoje com a memória dele ‒ do meu pai ‒ bem presente e mais a dos seus esquecidos poemas, deixo aqui o tal soneto dirigido ao cuidado dos netos ‒ a Helena Teixeira, o Luís Fraga Jr., a Inês Tavares Rodrigues Fraga e a Sofia Fraga ‒ e de um bisneto que gosta de poesia ‒ Carlos Tiago Robalo.</p> <p> </p> <p>«Os meus sonhos, como nuvens, vão dispersos</p> <p>‒ São pombas que fugiram de um pombal –</p> <p>Seguindo rumos vários, já imersos,</p> <p>Na senda de inclemente vendaval…</p> <p> </p> <p>Sonhos loucos, criados nos reversos</p> <p>Da cunhada medalha do Irreal,</p> <p>Procuram, em tropel, mundos diversos</p> <p>Em longa caminhada sideral.</p> <p> </p> <p>Gótica catedral, por mim erguida,</p> <p>Em cada ogiva pus, como em guarida,</p> <p>Um sonho, uma ilusão, uma quimera.</p> <p> </p> <p>Desfez-se a catedral – era de espuma,</p> <p>Das minhas ilusões ficou só uma,</p> <p>Incerta da Certeza que eu quisera!»</p> <p> </p> <p>Em tempo de isolamento, também nos isolamos sobre memórias e lembranças de outros tempos.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:216891 Luís Alves de Fraga 2020-05-04T21:48:00 Fases da minha vida ‒ 8 2020-05-04T20:49:50Z 2020-05-04T20:49:50Z <p> </p> <p>Quase a fazer dezoito anos, nas férias do Natal de 1958, encontrei, por mero acaso, na praça Marquês de Pombal, em Lisboa, aquela jovem loira que tinha sido minha colega nas explicações quando me preparava para o exame de admissão ao liceu e aos Pupilos do Exército. Em abono da verdade, por morar muito próximo da casa dos meus pais, nunca a havia perdido de vista e já havia, uma ou duas vezes, tentado formalizar um namoro ‒ porque, naquele tempo, tinha de ser tudo dito com declaração de amor para garantir que não se tratava de um devaneio de momento ‒, mas sem qualquer resultado efectivo. A desculpa era sempre a mesma: «Somos muito novos».</p> <p> </p> <p>Dessa vez, nas tais férias de Natal, fui mais persuasivo, já estava com dezassete anos (ela com dezoito), e não éramos dois meninos! Telefonema para lá, encontro mais tarde, e vá que ela me impõe a condição máxima: «Namorar sim, mas com autorização da mamã» (era órfã de pai).</p> <p>Lá fui eu, em fato domingueiro, pedir autorização à mamã. De agora em diante podíamo-nos encontrar na rua e conversar e ir lá a casa quando fosse conveniente. Saiu-me a sorte grande!</p> <p>Se há anos andava desejoso do namoro, naquela altura os meus sentimentos viraram em autêntica paixão. Ela era, ainda, estudante, tal como eu. A mim, feitas as contas, faltavam-me dois anos escolares para acabar o curso e, habilitado, iniciar uma boa carreira como contabilista em qualquer empresa. E, verdade seja, não faltavam colocações no mercado, em grandes firmas…</p> <p>A paixão fez vacilar o meu sonho de infância: ser militar. É que, para realizar esse sonho, teria de frequentar a Academia Militar e só poderia casar, no mínimo, aos vinte e quatro anos! Nem ela, nem eu, queríamos esperar tanto tempo! A paixão era mútua, nesta fase do namoro.</p> <p> </p> <p>Como disse, frequentava o equivalente ao décimo ano de escolaridade, que já ia avançado um período.</p> <p>Acabadas as férias de Natal voltei aos Pupilos, agora com imensa dificuldade, pois o meu desejo era estar no bairro da Graça, perto da minha amada.</p> <p>A vida do internato, com todos os rigores de então ‒ nem uma cabine telefónica tínhamos para comunicar com o exterior ‒, limitava-me os contactos à simples carta, a longas epístolas amorosas escritas ou na hora de estudo ou nos momentos livres após o jantar.</p> <p>Nesse ano os resultados escolares não foram afectados, embora a carga lectiva fosse enorme para o tempo de estudo disponível: por dia, duas horas e meia (uma logo de manhã, em jejum, das seis e trinta às sete e trinta e uma hora e meia ao fim da tarde, das dezoito e trinta às vinte). O número de disciplinas era <em>brutal</em>, porque, para além das inerentes ao curso de contabilista, juntavam-se as do correspondente ano do liceu (para termos condição de integração nas armas do Exército, sem ficarmos limitados ao Serviço de Administração Militar).</p> <p> </p> <p>A <em>apresentação</em> formal da minha namorada aos meus companheiros de Escola e, até aos oficiais e professores, foi feita no baile de finalistas.</p> <p>A notícia do meu namoro correu célere até aos ouvidos do Padre Ruy Corrêa Leal, mas ele não viu nenhuma fotografia! Isso, de certa forma, foi tranquilizante, pois não se apercebeu de como era <em>brasa</em> a minha namorada!</p> <p> </p> <p>Com as férias de Verão o namoro aprofundou-se ‒ poupo os leitores a pormenores desnecessários ‒, deixando-me ainda mais <em>louco</em> quando, em Outubro, regressei à vida de internato. E esse ano era verdadeiramente trabalhoso. De memória sou capaz de repetir os nomes das disciplinas: Contabilidade, Cálculo Financeiro, Matérias-primas, Direito Comercial, Direito Civil, Inglês, Francês, Física, Química, Matemática, Filosofia, Organização Política e Administrativa da Nação, Geografia e História (creio não ter esquecido nenhuma, porque, no ano seguinte, às contabilidades juntavam-se as cadeiras em falta da alínea f) do liceu).</p> <p>Em rigor, estudava na hora da manhã e no tempo de estudo da tarde escrevia longas cartas apaixonadas para a <em>mulher da minha vida</em>.</p> <p>Pouco antes do final do ano teve lugar o baile de finalistas (1959/60) e, novamente, fiz-me acompanhar de namorada e mãe da mesma. Mas, desta vez, a fotografia foi vista pelo padre capelão e fui <em>excomungado</em> (já tinha tido lugar um certo desaguisado entre nós os dois).</p> <p><em>Excomungado</em> e reprovado foi o que aconteceu no final do terceiro período! O aluno suficiente e <em>bem-comportado</em> caía redondamente do pedestal! Deixei de ser vice-presidente da mesa da Conferência de São Vicente de Paulo e passei a <em>soldado raso</em>!</p> <p> </p> <p>Mas, como um mal nunca vem só, em Setembro, o namoro acabou-se!</p> <p>E compreende-se a razão… Já empregada e a trabalhar, mais um ano de distância do sonhado casamento gera a possibilidade de <em>descobrir defeitos</em> no apaixonado! Além disso, <em>bons rapazes</em> havia-os aí aos montes!</p> <p>Comecei o ano lectivo de 1960/61, aquele que ia ser o último de Pupilos, <em>desfeito</em> e, em simultâneo, <em>renovado</em>. Reestruturei o meu futuro.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:216799 Luís Alves de Fraga 2020-05-03T14:38:00 Maio, entre 1 e 13 2020-05-03T13:39:26Z 2020-05-03T13:39:26Z <p> </p> <p>Não me quis pronunciar sobre as comemorações do 1.º de Maio, porque o fiz sobre o 25 de Abril, concordando com o formato adoptado.</p> <p> </p> <p>Para mim, o 1.º de Maio teria sido comemorado com um encontro dos dois responsáveis pelas organizações sindicais (CGTP e UGT) numa das duas sedes ou noutro local isolado e, cada um, discursaria sobre o que quisesse discursar. E estava feito o Dia do Trabalhador..</p> <p>Mas a CGTP quis fazer, em miniatura, o que faria em grande se não estivéssemos confinados.</p> <p> </p> <p>Claro que isto abriu, de imediato, a questão do 13 de Maio, em Fátima!</p> <p>Já sei, dizem-me os de sempre:</p> <p>- Não é a mesma coisa!</p> <p>Claro que não é! Todavia, abriu-se um grave precedente, já que até houve autocarros com gente que veio de fora para o 1.º de Maio.</p> <p> </p> <p>Julgo que uma insensatez não se apaga com outra insensatez.</p> <p>Deste modo, se eu fosse autoridade na Igreja Católica, não levaria para a frente qualquer tipo de festa no santuário, o mesmo é dizer, não seguiria o exemplo da CGTP.</p> <p>Evidentemente que daria uma bofetada com luva em todas as autoridades e não exporia os crentes à possibilidade e à tentação de desrespeitar o que se deve respeitar.</p> <p> </p> <p>Mas isto sou eu, que sou um impenitente <em>opinador</em> com a vaidade de ter sempre, ou quase, opinião sobre quase tudo, não é?</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:216463 Luís Alves de Fraga 2020-04-27T18:26:00 Fases da minha vida ‒ 7 2020-04-27T17:37:19Z 2020-04-27T17:37:19Z <p> </p> <p>Não foi a leitura do pequeno volume sobre a vida de S. João de Deus que se tornou determinante para a minha formação católica, quando tinha treze/catorze anos e estava nos Pupilos do Exército; ele foi a espoleta que me despertou para a exploração de uma <em>outra forma</em> de ser católico, a qual ia, necessariamente, muito para além da lengalenga dos pai-nossos, das ave-marias e de outras orações usuais ou mesmo da assistência à celebração da missa aos domingos.</p> <p>Essa <em>outra forma</em> passou por perceber a profundidade do que se exigia para ser católico. Sê-lo, descobri, não passava somente ‒ e até, talvez isso fosse secundário ‒ por entrar em certos rituais e participar neles; passava por compreender os principais sacramentos daquela religião e, muito em especial, o da confissão que, continuo a achar, é um dos mais importantes, por ser o mais formativo.</p> <p> </p> <p>É sobre isto que me vou debruçar, para se perceber esta fase da minha vida, que, depois de uma sólida ascensão, entra em declínio até por volta dos meus vinte e seis anos e desaparece em absoluto no meu regresso de Moçambique, em 1969.</p> <p> </p> <p>A confissão auricular pode ser, no mínimo, duas coisas: um processo de <em>regularizar contas com Deus</em> e um <em>caminho para o aperfeiçoamento individual</em>.</p> <p>Se olhada na primeira perspectiva ‒ creio ser a mais comum entre os que se dizem católicos ‒ a confissão é uma farsa para ambas as partes: para o que se julga crente e para Deus.</p> <p>É uma farsa, porque lhe falta o elemento mais necessário, aquele que a torna um <em>mecanismo</em> de <em>santidade</em>, e que resulta da conjugação de dois sentimentos: o verdadeiro arrependimento e o desejo da não voltar a pecar, o mesmo é dizer deixar de praticar os actos determinantes da necessidade de confissão. Uma confissão com um <em>arrependimento a prazo</em> é um embuste para aquele que se confessa, pois sabe que não tem intenção de emenda; confessa agora, peca mais logo e torna a confessar amanhã. Isto é uma entremez!</p> <p>Para ser valiosa, a confissão tem de ser antecedida do <em>exame de consciência</em> o qual, em boa verdade, não é mais do que uma autocrítica, que o católico preocupado com a sua <em>salvação</em>, fará constantemente, ou seja, estará sempre de sobreaviso quanto ao seu comportamento.</p> <p> </p> <p>Esta era a <em>tarefa</em> que assumi entre os meus treze/catorze anos e os vinte. Cheguei a <em>punir-me</em> ‒ sem necessidade de nenhuma recomendação sacerdotal ‒ privando-me de comer ou pão ou fruta às refeições face ao meu exame de consciência!</p> <p>Eu não brincava <em>em serviço</em>. E estou grato a mim mesmo e à Igreja Católica, pois foi deste modo que me formei, que moldei e disciplinei a minha personalidade. Acima de tudo, aprendi que posso mentir a muita gente, mas tenho a plena consciência da mentira, porque não minto a mim mesmo.</p> <p>‒ Mas não vivi a minha juventude com todas as <em>malandrices</em> próprias do tempo e da época? Fui um <em>anjinho</em>?</p> <p>‒ Nem pensem!</p> <p>Fiz tudo o que <em>devia fazer</em> até aos meus vinte anos, mas com consciência do <em>pecado</em> e com arrependimento e desejo de não voltar a repetir. Claro, quanto mais os anos iam avançando, mais fui tendo a noção de que estava a entrar no plano inclinado da <em>traficância</em> com o divino: pecava, pedia desculpa e voltava a pecar, sendo que o propósito, sincero e verdadeiro, de emenda começava a ser, antes do mais, uma <em>traficância</em> comigo. Havia, para me tranquilizar a consciência ‒ mas só para isso ‒, uma intenção de não voltar a repetir, contudo, quando a ocasião surgia, a vontade reduzia-se a quase nada.</p> <p> </p> <p>Foi neste contexto que, por volta dos meus dezassete anos, o capelão Ruy Corrêa Leal, nos propôs ‒ a quatro dos mais assíduos católicos de então ‒ a criação da delegação da Conferência de São Vicente de Paulo. Assumiu a presidência o Moita, a vice-presidência eu, como secretário ficou o Pamplona e como tesoureiro o Duran Clemente.</p> <p>Não sei nem nunca me passou pela cabeça averiguar qual a base lógica para esta escolha, mas, seja como for, as únicas relações que me assaltam são de duas ordens: as idades, que eram muito idênticas e a distribuição por cursos: dois frequentarem os de indústria e dois o de comércio.</p> <p>A nossa acção começou, primeiro, por arranjar, entre os alunos católicos de todas as idades, adesão à Conferência e, de seguida, com fundos financeiros angariados entre nós, o capelão e outros apoios externos (uma choruda participação da mãe do falecido marquês de Fronteira, Fernando de Mascarenhas, nossa <em>vizinha</em>), comprar géneros alimentícios para fazer pequenos cabazes que levávamos, ao fim das tardes de sábado, a <em>casas</em> de famílias <em>residentes</em> no bairro do Calhau.</p> <p> </p> <p>As <em>casas</em> eram, na sua maioria barracas de madeira e zinco e as poucas de alvenaria tinham uma só divisão.</p> <p>Ali aprendi o que era a real miséria ‒ financeira e moral ‒ destes bairros onde habitava a pobreza. Ali aprendi que as barracas têm um cheiro típico e uma ambiência interna característica. Ali vi a violência e a indiferença sociais exercida pelos possidentes sobre os que nada têm e que, tendo dignidade, acabam-na perdendo por força da indiferença de quem julga poder mais. Mas, ali, acima de tudo, comecei a aprender que a caridade não resolve o problema fundamental da falta de recursos e muito menos o da miséria.</p> <p>Aprendi eu e mais alguns dos meus companheiros, incluindo os mais novos, que, tempos depois ‒ e não terá sido por acaso ‒ passaram a militar nos diferentes quadrantes políticos da esquerda portuguesa.</p> <p> </p> <p>Em jeito de balanço, posso dizer, a vivência nos Pupilos do Exército, nos três últimos anos, marcou, por um lado, a culminância da minha prática católica e o começo do declínio desse aspecto. A grande vacilação deu-se quando surgiu a grande primeira paixão da minha vida, levando-me a pensar que a figura bíblica de Eva não aparece por mero acaso, ainda que não a veja como justificativa para a <em>perdição</em> do homem, bem pelo contrário.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:216089 Luís Alves de Fraga 2020-04-23T19:09:00 A Grande Guerra revisitada 2020-04-23T19:22:39Z 2020-04-28T11:32:51Z <p style="text-align: center;"><div id="qpB9jz1592295361" class="ink-carousel"><ul class="stage"><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li><li style="list-style: none;" class="slide all-100 align-center"><img class="lazyload-item" src="" /></li></ul><nav style="position: static;" id="qpB9jz1592295361-pagination" class="ink-navigation half-top-space"><ul class="pagination chevron"></ul></nav></div> </p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 534px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="O Fim da Ambiguidade - 2ª ed.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B181731b7/21781875_3BJpU.jpeg" alt="O Fim da Ambiguidade - 2ª ed.jpg" width="534" height="720" /></p> <p> </p> <p> </p> <p>Como regra, há muitos anos, leio vários livros ao mesmo tempo, ou seja, é normal ter dois ou três livros em sítios diferentes da casa para onde me desloco com a finalidade de os ler. Quando digo livros, não falo de romances ‒ que só leio muito de quando em vez ‒, mas de ensaios.</p> <p>De momento, tenho um cuja leitura entrou em <em>ponto morto</em> e vai-se arrastando penosamente; leio-o com dificuldade, porque se tornou monótono.</p> <p> </p> <p>Estou entusiasmado com um grosso volume ‒ seiscentas e cinquenta e cinco páginas ‒ do neoconservador Niall Ferguson, com o título <strong><em>O Horror da Guerra: 1914-1918</em></strong>. A obra foi publicada, no original, em 1988, e só está traduzida em português desde 2018, pela editora Temas e Debates.</p> <p>Trata-se de um historiador escocês com renome internacional e influência política na Grã-Bretanha, em França e nos Estados Unidos. A posição através da qual procura estabelecer originalidade centra-se na ruptura com as explicações usuais, buscando um olhar diferente sobre explicações anteriores. É o que faz no volume que estou a ler.</p> <p> </p> <p>Ainda não cheguei ao final da obra, mas já posso tirar algumas conclusões: o autor questiona todas as homenagens que se fundamentem no heroísmo e nos valores de amor à pátria, nomeadamente na célebre afirmação latina de que <em>É doce e honroso morrer (…)</em>; põe em dúvida a justificação para a beligerância britânica ter sido a invasão da Bélgica por tropas alemãs, tal como contesta, também, tantas outras explicações já tradicionais na historiografia da Grande Guerra. Depois, para total espanto meu, propõe-se fazer análises, partindo da posição condicional, ou seja, dito por outras palavras, se tal coisa não tivesse sido como foi como é que teria sido?</p> <p>Desta maneira, tanto quanto entendo, não se faz História; fazem-se juízos políticos ou, no mínimo, romanceiam-se os factos, baralhando-os de acordo com a vontade do <em>escritor</em>, tornando hipotético o acontecimento e a explicação do mesmo.</p> <p> </p> <p>Claro que a História se refaz e não pode dizer-se que está completa. Este <em>refazer</em> passa por encontrar outras explicações viáveis e verosímeis; jamais poderá ficar à deriva ou sujeito à vontade de quem aborda a temática em análise.</p> <p>Tentarei explicar melhor o meu ponto de vista.</p> <p>A verdade, em sentido absoluto, não existe; existem verdades para os acontecimentos que envolvam vários actores. Assim, a verdade de um, quanto à ocorrência em observação, será diferente da de outro, porque os condicionalismos que os levaram a agir de certa maneira são, também eles, diferentes. Deste modo, a história, o relato da ocorrência, terá de levar em conta toda a gama de <em>fios</em> que se entrelaçaram para se chegar ao <em>tecido</em> final.</p> <p>Levando em consideração o que acabo de expor, conclui-se que a História se refaça com uma só finalidade: explicar melhor todas as condicionantes que determinaram a ocorrência dos factos tal como aconteceram e nunca como poderiam ter acontecido.</p> <p> </p> <p>Vou continuar a ler o livro de Niall Ferguson, com o mesmo entusiasmo com que o iniciei, mas olhando-o criticamente, porque, sendo ele um neoconservador, simpatizante da causa de Marine Le Pen, me faz lembrar aqueles que, por cá, também querem <em>reescrever</em> a História <em>lavando-a</em> da <em>nódoa</em> salazarista. Seja como for, uma coisa tenho-a como certa: a razão da beligerância portuguesa já a expliquei, deixando-a escrita para a posteridade, e fi-lo, sem distorções, através de uma análise das condicionantes nacionais e internacionais da época, não dando origem a anacronismos. Admitindo que possa haver alguma coisa a acrescentar, os acrescentos não alteram a essência do que eu expliquei, pela primeira vez, em Portugal.</p> <p style="text-align: center;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:216039 Luís Alves de Fraga 2020-04-21T14:52:00 Fases da minha vida – 6 2020-04-21T13:53:40Z 2020-04-21T13:53:40Z <p> </p> <p>Por muito que tenha sido desafiante e encantadora a minha entrada nos Pupilos do Exército, por muito que os condiscípulos do meu tempo e de todos os tempos teçam maravilhas sobre a nossa vivência, a verdade é bem diferente, se quisermos ser completamente honestos.</p> <p>Realmente, o internato, a nova <em>ordem</em> de vida, o confinamento às paredes do Instituto, a <em>rudeza</em> de tratamento dos alunos mais velhos para connosco, os <em>putos</em>, abria, no mínimo, um desconforto dentro de nós que, em algum momento do dia, vinha tomar conta da nossa mente e gerar aquilo que, diz-se, só há na língua e natureza dos Portugueses: saudade. Às vezes, nem se sabia bem de quê se tinha saudade! Mas ela estava lá e uma certeza foi sendo marcada dentro de nós ‒ de mim: havia que saber viver com essa <em>mazela</em>, transformando-a nisso mesmo: uma <em>mazela tratável</em> de alguma forma!</p> <p> </p> <p>Encontrei a <em>panaceia</em> para o meu <em>mal</em> através do exemplo do meu comandante de pelotão: ir até à capela dos Castros, nos claustros do velho convento, e rezar. Limitava-me a, depois do jantar, passar por lá e orar, da forma aprendida na catequese. Havia, no largo espaço por trás do altar, um armário com livros e ‒ não me recordo como ‒ consegui ler um deles, pequeno em volume, sobre a vida de S. João de Deus. Fiquei deveras impressionado com a personalidade do santo e com a dedicação aos doentes. Isso foi fundamental para aceitar como rumo de vida uma atitude mais cristã e católica no meu dia-a-dia nos Pupilos do Exército.</p> <p> </p> <p>Mas, ligado à Igreja Católica, no Instituto, estava a figura do tenente-capelão Padre Ruy Corrêa Leal ‒ grafado exactamente assim! ‒, filho do general Corrêa Leal, antigo atirador de esgrima, na altura responsável pelo desporto nacional e, creio, pelas representações olímpicas do nosso país.</p> <p>Era um jovem sacerdote ‒ presumo que ainda não teria trinta anos ‒ sendo uma <em>vocação tardia</em>, pois entrara para o seminário maior por já ter completado o liceu. Como mais tarde pude confirmar, pertencia à clique de apoio do cardeal-patriarca de Lisboa, o salazarista Manuel Gonçalves Cerejeira. Percebia-se, facilmente, que estava fora do seu <em>meio</em>; nas aulas de Moral apresentava exemplos de gente de um nível social muito, mas mesmo muito distante daquele ao qual pertencia a maioria esmagadora dos alunos. Relacionava-se com as <em>senhoras infantas de Portugal</em>, com a condessa, a baronesa e mais não me lembro quem. Era um <em>menino queque</em> como se dizia na data.</p> <p>Sem qualquer tipo de juízo de valor, limitando-me a dizer o que todos nós víamos, tinha gestos e tiques, aqui e ali, amaneirados.</p> <p> </p> <p>Porque eu era praticante assíduo da capela, o capelão <em>adoptou-me</em> como fiel católico à semelhança do que fazia a mais outros dos alunos frequentadores do rezar o terço após o jantar. Esse facto valia para nós, os mais constantes católicos do Instituto, o epíteto de <em>bufos do padre</em>. Isso incomodou-me até ao meu quarto ano de frequência dos Pupilos, depois já estava suficientemente crescido e antigo na Casa para não mais dar importância a tais arremetidas verbais. Aliás, no final do 1.º ano de Contabilistas (o equivalente ao 10.º de escolaridade) o Padre Ruy propôs-nos, a um pequeno núcleo, a fundação de uma delegação da Conferência de S. Vicente de Paulo, sendo que o nosso <em>campo de actuação</em> seria o do antigo e paupérrimo Bairro do Calhau, bem por trás do palácio da Casa de Fronteira. Fui apontado para o cargo de vice-presidente da dita delegação.</p> <p>Guardarei para mais tarde descrever o que era e como funcionava a Conferência e de como foi dissolvente de práticas católicas, em alguns de nós, a acção hipoteticamente moral do capelão. Lá irei, lá irei, não pelo prazer de maldizer nem de justificar a minha postura perante a Igreja, mas tão-só de mostrar como um pseudo <em>educador</em> e <em>formador</em> de comportamentos gerou a necessidade de reverter princípios, orientando-os para objectivos bem mais práticos e mais valorosos.</p> <p> </p> <p>Agora, julgo, é preciso deixar bem esclarecido, segundo, está bem de ver, a minha opinião, aquilo a que se chamava <em>bufaria</em>.</p> <p>Em sete anos de convivência com o capelão nunca ele me perguntou, em circunstância alguma, por informações sobre os meus condiscípulos, nem eu lhos dava se a tal se atrevesse. Mas nunca, repito, nunca houve qualquer tipo de sondagem. Também não me consta que o tenha feito a outros dos restantes alunos católicos e que mais intimidade tinham comigo. Assim, a questão da <em>bufaria</em> só se pode colocar de uma de duas maneiras, separadas ou em conjunto, e que passo a explicar.</p> <p>Antes porém, devo esclarecer que a minha dedução é feita hoje ‒ e nunca me passou pela cabeça nos meus tempos de jovem ‒ com base na experiência de vida adquirida no contacto com as mais estranhas formas de comportamentos do ser humano.</p> <p> </p> <p>As tais duas maneiras, que posso avançar para justificar a nossa suspeita da existência de <em>bufaria</em>, são as seguintes: uma, as conversas tidas pelo padre-capelão com os oficiais instrutores e professores, que lhe relatavam um ou outro episódio do nosso comportamento, levando-o ao conhecimento daquilo que julgávamos nunca poderia chegar-lhe aos ouvidos, porque passado noutros âmbitos; outra, bem mais grave e mais astuta, terá ocorrido por haver condiscípulos que, sem grande formação moral e, menos ainda, católica, usavam o confessionário ‒ onde iam raras vezes ‒ para se queixarem de alguma coisa ou de alguém. Depois, porque para eles a confissão não tinha valor de sacramento, mas sim valor de instrumento de vingança, para, delatando comportamentos ou, pior, distorcendo realidades, por não serem identificáveis como <em>acólitos</em> do padre, se calhar, porem a circular a ideia da <em>bufaria</em> de modo a preservarem-se de qualquer suspeita.</p> <p>A Santa Inquisição viveu, quase sempre, de denúncias feitas por invejosos e traumatizados, cobardes e traidores; o mesmo se podia dizer da PIDE/DGS. Hoje sabemos que foi assim. Qual a razão para ser diferente no Instituto dos Pupilos do Exército do meu tempo?</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:luisalvesdefraga:215774 Luís Alves de Fraga 2020-04-18T20:10:00 Chamam-lhe guerra? 2020-04-18T19:13:02Z 2020-04-18T19:13:02Z <p> </p> <p>Então comportem-se como se fosse uma guerra!</p> <p> </p> <p>Se fosse um conflito bélico, a dívida iria subir sem parar e sem olhar a impostos futuros e, de certeza, nem seria com impostos que se resolveria a dívida contraída!</p> <p> </p> <p>Eis a razão para a minha discordância das afirmações feitas por António Costa e que transcrevo do <a href="https://www.publico.pt/2020/04/18/sociedade/noticia/eua-700-mil-casos-36-mil-mortos-1912846?utm_source=notifications&amp;utm_medium=web&amp;utm_campaign=1912846#40553" rel="noopener">Público</a>:</p> <p> </p> <p>«<strong><em>Ainda na entrevista ao Expresso, o primeiro-ministro António Costa afirma que só haverá um Orçamento do Estado suplementar quando houver uma visão sólida das necessidades financeiras do país. E alerta, face aos inúmeros apelos para ajudar famílias e empresas: "Não podemos apoiar ilimitadamente porque é preciso ter consciência de que a despesa de hoje é o imposto de amanhã. É preciso perceber que não é altura de contar tostões para acudir às necessidades da saúde pública, mas obviamente temos de ter em conta que há amanhã."</em></strong>»</p> <p> </p> <p>Temos de ter em conta, isso sim, que necessitamos de uma população a salvo de um perigo invisível e capaz manter poder de comprar para viver.</p> <p>Ai, Dr. António Costa, cuidado com o que diz!</p>