Da Liberdade ao surreal
Passa hoje o 48.º ano sobre o 25 de Abril de 1974. Foi o dia em que se deitaram fora outros 48 anos de ditadura. E a ditadura começou por ser militar e a liberdade foi-nos devolvida, também, pelos militares.
Em 1926, os tenentes do 28 de Maio, esperavam acabar com a instabilidade gerada na 1.ª República, a qual era menos por causa do que se passava cá dentro do que consequência do que vinha de fora. E esta perspectiva quase não tem sido explorada pelos nossos historiadores, pois fixamo-nos excessivamente na sucessão de governos caídos, uns atrás dos outros, porque, mais do que tudo, não havia pão e, onde ele não existe, não há razão. Da falta do pão não eram culpados os políticos ‒ mais nacionalistas ou não, mais monárquicos ou mais republicanos ‒ porque, afinal, a desregulação vinha de fora, de uma Europa em crise constante e de uma América que se fechara até rebentar, em 1928, com a economia mundial.
Em 1974, os capitães arrastavam e arrostavam com uma guerra que a estabilidade do regime impunha ao país sem se vislumbrar fim para ela. E, curiosa e estranhamente, também essa guerra resultava de um mundo em mudança, um mundo que abandonara o modelo colonial, optando por independências subjugadas por um novo colonialismo disfarçado, mas imperativo. O modelo nacional não soube e não quis aceitar o novo paradigma e exauriu a nação num conflito bélico de baixa intensidade, segundo os padrões de riqueza estrangeiros, mas de altíssimo desgaste, segundo a miséria nacional.
Assim foi parido o 25 de Abril, no ano de 1974, cheio de esperanças na modernidade que estava ao alcance de um estender de braços, julgavam os capitães. Julgavam, porque não perceberam que, afinal, o nosso povo gosta do surreal, dessa coisa que ninguém percebe e que, ao invés de trazer progresso e modernidade, traz um profundo obscurantismo, essa coisa que dá pelo nome de reality show.
É que ontem, véspera do 48.º aniversário da noite libertadora, vi, pela primeira vez, o mais idiota dos programas televisivos de todos os tempos; um programa absolutamente impossível há 48 anos e só possível 48 anos depois, porque, do ponto de vista cultural, do ponto de vista da evolução mental, parámos no tempo, num tempo lá muito para trás. Um programa que tem um nome que, só por si, diz tudo sobre o conteúdo, diz tudo sobre a miséria moral que nos consome e que é bem pior do que a miséria de pão que havia em 1926 e, até, em 1974. Um programa que se chama: Casados à primeira vista.
Se calhar já viram, mas ao ver limitaram-se a olhar e não observaram com profundidade o que aquilo tem de absurdo, de imoral, de contra-senso.
Um homem e uma mulher que nunca se viram na vida, que não sabem nada um do outro e que casam (eu disse bem, casam civilmente) um com o outro e, em conjunto com outros concorrentes, vão estar sujeitos a um começo de vida só para ver se a união resulta.
E os senhores deputados da Nação discutem no parlamento se indivíduos do mesmo sexo devem casar civilmente, se devem e podem ter filhos concebidos por um deles ou adoptados, discutem se se deve aceitar a eutanásia, a morte assistida e mais uma série de problemas ligados ao matrimónio e à vida e deixam passar incólume um programa em que se banaliza o casamento até o tornar num concurso televisivo em que nada do que ali se passa é ficção, mas pura realidade.
Se o formato é uma importação, não me interessa, pois importada é, também, muita coisa que aqui não compramos. Importada foi a instabilidade governativa da 1.ª República e foi repudiada tal como repudiada foi a solução de uma descolonização precoce. Também um formato surrealista podia ser repudiado, porque atenta contra a seriedade de um tema que merece ser enaltecido em vez de banalizado e descredibilizado.
Vale a pena um 25 de Abril que nos conduz para o absurdo?
