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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

12.05.22

Cultura e agressão


Luís Alves de Fraga

 

Tenho família muito chegada nos Estados Unidos da América, filhos de tios emigrados dos Açores para a Califórnia e que, naquela terra, criaram os filhos já cresciditos ou os que por lá nasceram. Somos, entre primos em primeiro e segundo grau, mais de cinquenta parentes no total; não incluo os primos em terceiro grau, que já existem. Pois bem, desta mais de meia centena de cidadãos americanos com origem em Portugal, só os meus primos em primeiro grau falam a língua portuguesa; todos os outros nem compreendem, nem falam, nada mais do que inglês, na variante americana, até mesmo com os próprios pais.

É isto que acontece nos EUA, que ‒ não se espante, caro leitor ‒ não tem uma língua oficial, pois, cada Estado pode usar e escolher o seu próprio idioma. A Constituição Política dos EUA não indica a língua oficial, contudo, embora aceitando outras, a inglesa é a dominante.

Ora, o idioma é o elemento mais fundamental de uma cultura (entenda-se, aqui, por cultura tudo aquilo que o homem aprende depois de nascer, porque, na verdade, ao ser parido o ser humano nada sabe), pois, através dele se percebe, se percepciona e se exprime tudo o mais (claro que, para os surdos-mudos, houve que inventar uma expressão idiomática para lhes fazer chegar quase todo o conhecimento, o mesmo é dizer, toda a cultura). Eis a razão pela qual, nos EUA se impõe de forma pouco violenta, mas, por ser sub-reptícia, muito eficaz, a língua inglesa, na variante americana. Washington, sem o afirmar de modo categórico, quer gerar em toda a União uma cultura que seja, tanto quanto possível, igual, ainda que com as diferenças resultantes do estatuto social e, acima de tudo, financeiro de cada um dos cidadãos americanos.

Pode argumentar-se que tal atitude resulta do facto de os EUA serem um país de imigração, uma imigração de variadas proveniências, mas uma análise fina leva-nos a concluir que não é essa a explicação. Vejamos.

 

Os Pais da União, os autores da Constituição, sabiam muito bem que o país então criado não estava acabado e que resultaria de conquistas aos indígenas ‒ aos índios americanos ‒ e aos vizinhos ou, até de compras territoriais (atente-se na Luisiana, no Alasca, na Califórnia, no Novo México e muito mais). Temos, então, que os Pais da União admitiam a construção de um império que não tomaria esse nome, mas que, na prática, se assumiria como tal. Por conseguinte, havia que deixar em aberto as variadas hipóteses culturais, aceitando que a anglófila viesse a prevalecer sobre todas as restantes. E foi o que aconteceu. Mas aconteceu porque, em Filadélfia, em 1787, se aceitou o espírito expansionista de um Estado que não cabia nos limites nessa altura existentes, o mesmo é dizer, aceitou-se a expansão territorial como forma de constituir a União ou Império americano.

 

Todos sabemos que a expansão americana se fez, em primeiro lugar, por cima do genocídio dos autóctones reduzindo-os a uma expressão ínfima, hoje meramente folclórica e, depois, à custa de conquistas militares sobre o México ‒ território e cultura olhados como inferiores pelos líderes nacionais americanos ‒ e outras nas adjacências do continente. Assim, a cultura americana imposta primeiramente pela aprendizagem da língua inglesa e, depois, pelo the American way oj life resultante de uma publicidade aguerrida, que foi sendo servida sucessivamente pelos jornais, pela rádio, pela televisão, pelo cinema e, por fim, pela cibernética, tornou-se profundamente agressiva.

 

É esta agressão que tem passado despercebida na Europa onde, desde os anos de 1950-1960, a cultura americana se veio sobrepor à europeia ‒ nas suas variantes nacionais ‒ primeiro através do cinema (hoje a indústria cinematográfica europeia está reduzida a quase nada na comparação com a invasão americana) e, depois, através da língua, que destronou por completo a francesa tida, até esses anos, como idioma diplomático e erudito. E isto é tão notável que não havendo na UE nenhum país de língua oficial inglesa, após o Brexit, o idioma de entendimento não é o francês, nem o alemão, nem o italiano, nem o castelhano, mas o inglês.

 

A alienação europeia é tão grande que, não vendo criticamente todo este panorama, acusa a Rússia de, quando ainda URSS e depois Federação, impor a sua língua nos territórios onde exerce acção política e administrativa. É o cúmulo!

E não se diga que sou russófilo, porque não o sou. O que primordialmente sou é um homem do mundo com sentido crítico e sentimentos de justa equidade.