Cuba, o Socialismo e a Liberdade
O contexto do nascimento do socialismo em Cuba é tão diferente daquele que hoje se vive no mundo como o de um dia de sol é para uma noite de lua nova (o céu está plenamente escuro).
Cuba era e foi, durante todo o tempo anterior à vitória da guerrilha começada na Sierra Maestra, um feudo da pouca vergonha dos americanos medianamente endinheirados! E, meus amigos não me digam que é fantasia, porque, para poder estabelecer uma comparação plausível, ao que era Havana para os Americanos idos dos Estados Unidos, vou buscar o exemplo que eu vi, em 1967, na antiga cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, nos bares da rua Major Serpa Araújo, homens brancos, alguns jovens e outros nem tanto, provenientes da África do Sul, quando por lá se vivia o mais radical apartheid, agarrados a prostitutas negras, beijando-as com lascívia e loucura, como nunca eu presenciara em qualquer prostíbulo de Lisboa.
Antes de Fidel, Cuba e Havana eram o quintal das brincadeiras proibidas dos EUA, daí que os sucessivos Governos cubanos fossem apoiados e acarinhados por Washington. O último foi o ditador Flugencio Baptista, que encontrou exílio dourado na ilha da Madeira, em 1959.
Quando Fidel Castro mostrou o desejo de mudar a situação, impondo outros padrões sociais na sua Pátria, os EUA iniciaram um cerrado boicote a Cuba e, naturalmente, como seria de esperar naquela conjuntura mundial, Moscovo disponibilizou-se para oferecer todo o apoio ao novo senhor do poder em Havana. Era a lógica da Guerra-Fria.
Fidel construiu, na sua ilha, dentro dos limites do possível, com o apoio da URSS, em troca da venda de todo o açúcar àquele Estado comunista, o socialismo que procurou remediar os muito pobres, cobrir com hospitais o seu país, disponibilizando assistência sanitária gratuita, alfabetizando um povo que maioritariamente não sabia ler, abrindo a possibilidade de frequência de cursos universitários a todos os jovens que mostrassem capacidades intelectuais, apoiando a investigação científica que fazia falta a uma tentativa de melhorar as condições de vida das populações.
Mas Cuba não é um território rico, assim, jamais conseguiu aspirar à auto-suficiência.
Neste quadro, grosseiramente traçado, temos zonas de belas cores, zonas de cores mais suaves e esbatidas e zonas de negrume perturbante, o mesmo é dizer, muita população melhorou as suas condições de vida, outras contentaram-se com o balanço entre o que perderam e o que ganharam e outras desgostaram-se, de todo, de certas imposições a que o novo regime obrigava. É que um regime socialista, num território estruturalmente pobre, tem de ter mão pesada sobre aqueles que procuram afincadamente defender os seus interesses individuais mesmo que indo contra os interesses colectivos. Esses, sentir-se-ão sempre vítimas, tanto mais quanto mais se lhes impuser um silêncio que não destabilize os parcos equilíbrios alcançados.
Desde a queda da URSS ‒ e já lá vão muitos anos ‒ os EUA continuam a impor um férreo bloqueio (há quem prefira chamar-lhe embargo) a Cuba. Um bloqueio que só se justifica por dois motivos evidentes (admito que existam outros, que a minha inteligência não enxerga): um, fazer desaparecer a vaga sombra de um regime político que ainda se reivindica de socialista (para o homem vulgar dos EUA socialismo é o mesmo que comunismo, sendo que comunismo é o papão que vai comer os seus States) e, outro, reduzir, novamente, Cuba ao grande bordel e casino que foi noutros tempos.
Esta segunda razão é aquela que dá mais garantias aos decisores económicos, militares, políticos e financeiros de que os EUA, para além de terem como destino natural aquele que o Presidente James Monroe lhes determinou, têm aquele que os Presidentes Wilson e Roosevelt lhes traçaram no prosseguimento da 1.ª e da 2.ª Guerras Mundiais: árbitros e polícias da política internacional fora do continente americano.
Se o comum dos cidadãos do mundo tivesse uma clara visão do que é a política externa dos Estados Unidos estaria há muito tempo a condenar a atitude de Washington contra Havana. É um acto de justiça mínima.