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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.11.18

Compreender História


Luís Alves de Fraga

 

Mais uma vez volto a este tema por me parecer importante tanto para quem estuda História, nos diferentes níveis de ensino, como para quem gosta de ler livros de História.

 

Não é a mesma coisa fazer História ou interpretar História. No primeiro caso, quem faz História, conta e explica os factos conhecidos e preenche as lacunas, por falta de informação, com meras deduções ou hipóteses plausíveis de acordo com a “vulgaridade” da época. Dito de outra maneira, depois de reunir os documentos segundo a ordem aparentemente lógica, de acordo com os hábitos existentes à data em que foram gerados, o historiador apercebe-se das falhas discursivas e completa-as, não aleatoriamente, seguindo um método que terá de ser plausível à luz do que está a relatar. Não se trata de inventar a seu bel-prazer, nem de romancear como melhor quer, mas estabelecer as “próteses” que completam a História. É, nesse aspecto, um trabalho científico, pois se trata de uma recriação plena de verosimilhança.

 

Este processo abre a porta à vulgarização da interpretação da História. Com efeito, a barreira que separa aquilo que designo por “preenchimento dos acontecimentos não documentados” daquilo que se reconhece ser “interpretação histórica” é tão subtil que, às vezes, o historiador cai na “armadilha” sem dela se aperceber.

Tem, pois, de se saber o que é interpretar a História. Vou passar, de seguida, a explicar de forma muito sucinta e clara.

 

O conhecimento histórico é sempre – como não podia deixar de ser – posterior aos acontecimentos. Ora, tal como nos jogos de futebol, quem já sabe o resultado pode discutir o modo como ele foi alcançado, criticando decisões, objectivos e modos de proceder. Ou seja, pode sempre especular sobre o próprio acontecimento, tirando dele as conclusões que melhor entender ou lhe parecerem mais lógicas e evidentes. Pode, até, extrair lições para o futuro, alvitrando outros processos de acção.

Como se vê, o que acabei de expor nada tem a ver com o que se passou efectivamente, porque se partiu do acontecimento para o “ajeitar” de acordo com as opiniões do “analista” – que, em boa verdade, não é historiador, embora possa parecer sê-lo.

 

A interpretação da História tem o seu lugar e papel importante não na História propriamente dita, mas em ciências que usam a História para poderem fazer afirmações úteis ao entendimento dos seus objectivos e do seu modo de operar. Estão neste caso, em especial, a Ciência Política e o estudo científico das Relações Internacionais.

Nessas duas áreas do saber há um elemento fundamental no estudo e execução da História, que nelas é quase totalmente dispensável: o tempo. Realmente, quando Henry Kissinger ou Madeleine Albright, nos livros Diplomacia e Fascismo, se socorrem da História fazem-no não para a contar, mas para dela extraírem os exemplos necessários às conclusões políticas onde fundamentam as suas razões interpretativas do fenómeno relacional entre Estados ou entre grupos partidários. O historiador jamais deve seguir tal procedimento, porque corre o risco de, ao contar ou explicar a História, introduzir elementos discursivos que fazem parte da sua actualidade e não da actualidade em que decorreram. Dito de outro modo, o politólogo pode julgar a bondade de um tratado entre Estados, mas o historiador deve simplesmente relatar as razões e contextos que levaram à assinatura do mesmo. No máximo, pode contar e explicar as consequências futuras desse entendimento entre Estados o que não é o mesmo que o julgar, pois continua a fazer História.

 

Julgo ter sido capaz de estabelecer diferenças, ajudando a que se seja capaz de perceber o que é História daquilo que são outros estudos sociais.