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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

02.04.20

Comparações


Luís Alves de Fraga

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Nos primeiros dias de Agosto de 1914 a França mobilizou, apressadamente, as reservas militares e fê-las marchar para a frente de combate a fim de suster a avalanche alemã que, depois de invadir a Bélgica, entrou de roldão e em força pelas fronteiras, pondo em risco a capital do país. Até os táxis de Paris foram mobilizados, para levar para a frente de combate, os soldados necessários. Os militares seguiam alegremente para a luta, despedindo-se com largos sorrisos, pois estavam convencidos que voltariam antes de Dezembro para festejar o Natal com as famílias.

 

Os combates foram ferozes e a frente estabilizou-se sem haver hipóteses de a romper em lado algum. Duas linhas de trincheiras foram abertas desde o canal da Mancha até à fronteira com a Suíça. De lado a lado os homens enterraram-se e passaram a combater quase sem se verem, pois a maioria das mortes resultava dos estilhaços das granadas de artilharia disparadas de parte a parte. Para levantar o moral das tropas, lá se fazia, de quando em vez, uma incursão à trincheira adversária.

A guerra durou quatro anos e quatro meses.

 

A dez quilómetros para a retaguarda das trincheiras ‒ às vezes, menos ‒ a vida corria quase como se não houvesse guerra: salões de chá, mercearias, tabernas faziam negócio com os militares e com alguns civis que não haviam fugido. O cultivo das terras continuava a fazer-se. Todavia, isto era uma mera ilusão, pois, nas grandes cidades, faltava tudo, e o que se vendia era a preços exorbitantes. As redes de comércio externo e interno estavam destruídas. As diferentes indústrias tinham-se convertido em fábricas de material de guerra ou de produção de artigos necessários para as tropas.

Os bancos faziam investimentos em fábricas e empréstimos aos Estados para poderem pagar a guerra. Os Estados emitiam moeda e, assim, dando meios de pagamento aos cidadãos comuns, inflacionavam os preços. Tudo foi diferente e esquisito durante esses quatro anos. Por falta de homens para trabalhar nas fábricas, as mulheres passaram a desempenhar essas funções duras e pesadas. Os únicos pensamentos transversais à sociedade, em França e nos outros países beligerantes, eram: como sobreviver, como aumentar os lucros; como lutar contra a fome; como pagar as dívidas.

 

A pandemia que vivemos veio colocar a humanidade em cenário de guerra: uns combatem, dando possibilidades de tratamento, outros tentando sobreviver à doença. Esses são os que estão nas trincheiras.

Na retaguarda estão os que esperam por ser mobilizados para a frente por terem contraído a doença e os que se defendem dela enfiando-se no seu buraco com a esperança de nenhum estilhaço os atingir.

Mas, também na retaguarda, o descalabro económico é quase total. É como se os bombardeamentos impossibilitassem a laboração. Estamos a viver um verdadeiro estado de guerra com o ruir dos circuitos produtivos e económicos. É uma guerra que não vai acabar no Natal! Mas, se acabar, deixa atrás de si um rasto de destruição imenso. E mais imenso vai ser quanto mais tempo durar.

 

A reconstrução tem de ser feita com critério. Primeiro, vamos retomar o que é essencial ‒ trabalho e bens indispensáveis ‒, depois, e só depois, os consumos supérfluos.

A grande diferença de 1914 para os dias de hoje é que, entretanto, a função do Estado alterou-se: no começo do século passado não era elemento interveniente na economia; agora, sabemos que lhe cabe um papel fundamental na relação entre o trabalho e o capital, entre liberdade de mercado e regulação do mesmo.

 

Depois da pandemia espera-se que os Estados ponham de lado o liberalismo, tão do agrado da finança, e assumam o papel de defensores dos equilíbrios sociais, porque é para sustentar a sociedade que existem os Estados com os seus mecanismos reguladores. E que os políticos não esqueçam que o poder do Estado é um poder delegado, pois a soberania reside no Povo, o mesmo é dizer, na sociedade.