Com a devida vénia
O MGen. Carlos Branco publicou no Referencial, revista da Associação 25 de Abril, que já está em casa dos sócios em formato digital, um texto intitulado “Mais uma Guerra na Europa”, do qual extraí as partes iniciais, por ajudarem muito à compreensão e à desmistificação da propaganda que nos força a ver o conflito somente entre os “bons” e os “maus”, os “brancos” e os “vermelhos”, partindo de uma terminologia que data dos anos seguintes à revolução soviética de 1917.
Só indo às origens primeiras do conflito é que se pode perceber como poderia ter sido evitado e como está a ser empolado, quase nos levando a admitir uma próxima guerra mundial como um videojogo sem efeitos no nosso dia-a-dia.
Aconselho vivamente a leitura e compreendam-se as razões, evitando as zangas, as ofensas, os cortes de relações, porque o pior cego é aquele que se recusa a ver.
«O TERRITÓRIO EUROPEU ENCONTRA-SE novamente envolvido numa guerra de consequências ainda difíceis de antecipar. Não bastaram duas guerras mundiais. Esta guerra tem por fim inviabilizar uma possível adesão da Ucrânia à NATO. Acossada pelas ameaças ao seu território colocadas pelos sistemas antimíssil instalados próximo da sua fronteira, capazes de atingir Moscovo e São Petersburgo, submarinos nucleares norte-americanos no norte da Noruega, e o aumento das atividades navais da Aliança no Mar Negro, Moscovo pretende garantir que a NATO não vai continuar a expandir-se para Leste, nem vai continuar a colocar sistemas de armas ofensivos próximo das suas fronteiras, garantias que a Casa Branca não está disposta a dar. Por isso, o governo de Moscovo não está disposto a permitir a adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO. Trata-se de uma questão considerada existencial para a Rússia. Ficaria numa situação de extrema vulnerabilidade noutras regiões, nomeadamente no Cáucaso. Abriria um precedente sem fim à vista. Seria o fim da Rússia como potência. De igual modo, os EUA não permitirão que uma potência rival estabeleça bases militares na América Central, ou a China em regiões próximas do seu território, que considere ameaça direta ao seu território. Neste plano inclinado descendente em que nos encontramos, as lideranças políticas europeias parecem não estar a perceber o que está realmente em causa. A possibilidade de o conflito russo-ucraniano vir a extravasar o quadro regional é real. Moscovo tem vindo a alertar há cerca de 30 anos para este problema. As preocupações, os alertas e os protestos russos não foram ouvidos, aumentando o nível de ameaça percebido por Moscovo. A oposição da Rússia ao alargamento da NATO tem sido erradamente atribuída ao espírito maléfico de Putin. É um problema securitário existencial, vital para a Rússia, que extravasa o poder de quem, num dado momento, se senta no Kremlin.
(…)
A explicação para esta guerra não se encontra em abordagens maniqueístas dos bons contra os maus, mas sim na geoestratégia, que tem influenciado de modo decisivo a política externa das grandes potências. Isso é bem visível no caso norte-americano. A política da contenção da União Soviética adotada por Washington, nos tempos da Guerra Fria, elaborada e desenvolvida por George Kennan, o arquiteto da estratégia americana para conter a União Soviética, fortemente inspirada nos trabalhos do geoestratega Nicholas Spykman, é um flagrante disso. Mais recentemente, Zbigniew Brzezinski, conselheiro nacional de segurança do presidente Jimmy Carter, avançou no seu livro The Grand Chessboard (1997), com a teoria dos pivôs geopolíticos, considerando a Ucrânia um desses pivôs. Segundo Brzezinski, a Ucrânia “é um pivô geopolítico porque sua existência como país independente ajuda a transformar a Rússia. Sem a Ucrânia, a Rússia deixa de ser um império euroasiático… se Moscovo recuperar o controlo da Ucrânia, a Rússia recupera imediatamente a capacidade de se tornar num estado imperial poderoso, abrangendo a Europa e a Ásia.” Este pensamento ajuda a compreender a tensão que se vive há, pelo menos, quinze anos naquele país. Falamos do confronto entre dois atores geoestratégicos de primeira grandeza: EUA e Rússia. Foi um racional de natureza geostratégica que prevaleceu quando: (1) no culminar da “revolução laranja” (janeiro 2005), se instalou em Kiev um presidente pró-EUA (Viktor Yushchenko), “revolução” essa revertida pelo voto popular com a eleição de um presidente pró-Rússia (Viktor Yanokovitch), em 2010; (2) a Administração Bush impôs, em 2008, na Cimeira da NATO, em Bucareste, o convite à Ucrânia e à Geórgia para aderirem à Aliança; (3) Viktor Yanokovitch, um presidente democraticamente eleito, foi derrubado em 2014 através de um golpe de Estado orquestrado por Washington, perpetrado por grupos paramilitares neonazis, colocando no poder grupos nacionalistas ucranianos anti-russos. Não bastou ver, em Kiev, Victoria Nuland, secretária de Estado adjunta para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, juntamente com Geoffrey Pyatt, embaixador americano na Ucrânia, a distribuírem comida aos “revoltosos”, numa clara ingerência nos assuntos internos da Ucrânia. As credenciais democráticas do regime instaurado na Ucrânia, em 2014, deixam muito a desejar, ao ponto da insuspeita Freedom House classificar a Ucrânia como um país apenas “parcialmente livre”, a mesma classificação atribuída ao governo filipino chefiado por Rodrigo Duterte. Dirigentes e analistas políticos russos – incluindo reformistas liberais – têm vindo ao longo dos anos a avisar que tornar a Ucrânia ou a Geórgia clientes securitários dos EUA ou membros da NATO seria cruzar uma linha vermelha, de que resultaria um perigo de guerra. Essas advertências foram ecoadas por George Kennan, Henry Kissinger e outros estadistas americanos. Embora os Estados sejam todos iguais, as grandes potências são mais iguais do que os outros Estados. A Rússia não está interessada exatamente numa esfera de influência, mas na criação de uma zona de segurança ao seu redor. Os temores russos sobre a expansão da NATO até à sua fronteira deviam ser compreensíveis para qualquer americano que tenha ouvido falar da Doutrina Monroe.»