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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

10.04.19

Carvalho Araújo


Luís Alves de Fraga

 

Não tenho a certeza, mas creio que o meu pai foi voluntariamente incorporado na Marinha, com o posto de cabo-aluno de enfermagem (direito a farda de sargento) no ano de 1929 ou 1930. Sobre o fim da Grande Guerra teriam passado, mais ou menos, onze ou doze anos, o que – hoje, com a idade que tenho – era muito pouco tempo. Por certo, contactou com gente que terá sobrevivido ao “massacre” do “Augusto de Castilho” o navio comandado pelo 1.º tenente Carvalho Araújo, que travou combate com um submarino germânico, nas águas dos Açores, a duzentas milhas da ilha de S. Miguel. Contactou ou conheceu quem havia convivido com elementos da tripulação ou, pelo menos, ouviu relatos do acontecimento ainda muito fresco na memória de muita gente.

 

Chegou até nós a descrição “oficial” do relato da luta díspar entre o poderoso submarino e a frágil embarcação da nossa Armada – um navio de pesca transformado em caça-minas – equipado com pouca e fraca artilharia.

Com efeito, o “Augusto de Castilho” foi encarregado de comboiar o paquete “S. Miguel” na viagem entre o Funchal e Ponta Delgada para lhe garantir segurança num mar onde navegavam com grande impunidade submarinos alemães armados com torpedos e peças de artilharia capazes de fazer fogo com granadas de grosso calibre. O 1.º tenente Carvalho Araújo teve clara consciência de que a missão era, pelo menos, suicida, porque o navio comercial tinha uma velocidade de cruzeiro bastante maior do que a do improvisado caça-minas, facto que quase invertia a situação determinada.

 

Voltando ao meu pai e à versão que dele, sobre os acontecimentos, – por certo, relatada por camaradas mais velhos e mais antigos, – eu ouvi temos que, Carvalho Araújo, ao avistar o submarino, mandou que o navio mercante se pusesse em fuga rápida para Ponta Delgada, ficando o caça-minas a dar combate ao inimigo, usando, para tal, as suas quase impotentes peças de artilharia.

Até aqui as histórias são coincidentes, mas a diferença começa no momento em que, Carvalho Araújo, feitas as contas a velocidades e distâncias, concluiu que o “S. Miguel” já estava a salvo do ataque do submarino e mandou que se içasse a bandeira branca da rendição. Eram desnecessários sacrifícios inúteis.

 

O submarino deixou de fazer fogo e aproximou-se para fazer a abordagem usual nesses tempos. Foi então que um dos tripulantes do caça-minas, vindo lá debaixo, da casa das máquinas, demonizado pelo soar da artilharia e pelo esforço de levar a sua embarcação ao máximo de esforço em velocidade, apontou a pequena peça de 47 mm, da ré, ao navio germânico e disparou. Era inevitável a reacção. Um tiro certeiro destruiu aquilo que se podia designar, no caça-minas, por ponte de comando. Carvalho Araújo terá morrido inutilmente, pela acção tresloucada de um subordinado.

 

Verdade? Mentira? Versão romanceada?

Não sei. Relato-a quase, palavra por palavra, como a ouvi ao meu pai há muitos, muitos anos. Todavia, se for verdadeiro o que acabo de dizer, fica escondido pelo manto da necessidade de impor uma História épica, que transforma um militar comum no herói, que fazia falta! Quantos mais terão sido gerados deste modo?