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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

03.08.22

As reviravoltas de Putin


Luís Alves de Fraga

 

Já está na Turquia o primeiro navio com cereais (milho) da Ucrânia. Putin cumpriu, quase à risca, o que havia contratado. Não foi exactamente o combinado, mas também não furou o negociado. Ou seja, bombardeou o porto de Odessa ‒ mas não a área dos silos ‒ mas não interferiu com a saída do navio, tal como, julgo, não vai interferir, pelo menos, nos tempos mais próximos.

‒ E o que é que o Presidente russo fez mais nestes dias?

Foi um menino bonito: disse, num discurso ou intervenção televisiva, qualquer coisa como: uma guerra nuclear não serve a ninguém, porque não há vencidos nem vencedores (cito de memória).

Foi Putin quem disse isto, não foi um outro funcionário do Estado russo. Esta afirmação, ou tomada de posição, contradiz várias ameaças veladas (muito ou pouco) de uso da arma nuclear. Se estivemos e estivermos atentos, isto tem como finalidade deixar-nos perplexos.

 

Assim, estou exactamente como o apreciador de xadrez que acompanha o torneio com muita atenção e fica, em dado momento, sem perceber uma ou duas jogadas de um dos jogadores.

Putin está a dar volta à sua imagem no mundo? Mas se ele ainda tem a iniciativa militar (bem sei que já quase em paridade com a Ucrânia) o que lhe dá ainda vantagem diplomática e política, não precisa de alterar a sua imagem de invasor para passar a vítima da Ucrânia, porque vítima da política externa dos EUA ele é-o sempre.

Neste particular aspecto mantenho a minha posição: a América, na sua ânsia de ser a potência imperial e policial do mundo, pratica uma política e uma estratégia agressiva e opressora, quando a pax americana não é respeitada.

Seja como for, Putin está a dar uma volta que eu não compreendo. Provavelmente terei de entrar em linha de conta com vários novos factores e actores que o levam a deixar a boca de cena para se chegar mais ao fundo do palco de modo a que seja naturalmente realçado o papel dos EUA, tirando disso todo o proveito. Vale a pena fazer esse exercício.

 

O Presidente russo soube com antecipação da visita de Nancy a Taiwan em clara provocação do governo de Pequim, assim, recua para deixar bem evidente as posições chinesas face à atitude de Washington, tal como se dissesse: «Estão a ver como eu tenho razão! Vá lá, senhor Presidente da China, é a sua vez de fazer demonstrações de força militar para não ser só eu o único acusado de agressor. Mostre ao mundo quem é o provocador ou, se quiser usar a linguagem do almirante Castex, quem é o perturbador da cena internacional!»

Visto desta maneira, justifica-se o recuo na cena internacional. Mas será isto que vai na mente dos estrategistas assessores de Putin? Ou será que podemos acrescentar a este quadro uma outra pincelada, que marca com muito maior evidência a estratégia global americana, definida e estabelecida depois de 11 de Setembro de 2001? Estou a referir-me, em concreto, ao assassinato, por condenação unilateral à morte, sem reunião de nenhum tribunal nacional ou internacional, do líder da Al-Qaeda, que, pelos vistos, gozava férias em Cabul numa varanda a apanhar solinho?

Nos EUA são mais coerentes com a tradição do revólver do Far West; em vez de veneno ‒ muito mais na linha dos europeus, franceses, italianos, russos e, até, às vezes, ingleses ‒ atiram logo com dois mísseis e lá vai um oponente e a sua guarda pessoal encontrar-se com Alá, aquele a quem tanta fé devotam!

 

Parece-me que, olhadas as coisas desta maneira, o recuo táctico de Putin deixa muito mais em xeque a Casa Branca e Joe Biden, que fez um discurso fraco, quase imbecil, para justificar o assassinato do líder da Al-Qaeda.

Realmente, Biden limitou-se a realçar o espírito de vingança dos americanos ao qual chamou justiça, que só assim pode ser entendida à luz dos princípios bíblicos e corânicos de «olho por olho, dente por dente». A Casa Branca não prendeu nem este nem Osama bin Laden para os levar perante um qualquer tribunal e julgá-los (nem que fosse à semelhança do Saddam Hussein) pelos crimes que Biden invocou para, qual Sheriff do velho Oeste, depois de rapidamente sacar do Colt, o matar no meio da praça da cidade poeirenta. Fez-se a justiça americana que já foi praticada nos linchamentos populares, nos Índios, nos negros e, agora, em quem quer que atente contra o território dos EUA.

Putin, velho manhoso, aconselhado por outros tantos experientes em execuções sumárias, recua para dar espaço e cena aos chineses, aos americanos e aos facciosos terroristas islâmicos (que devem estar a jurar vingança) ou simplesmente prepara novo golpe de rins para saltar sobre os ucranianos onde eles não esperam?

 

Os jogos de estratégia são sempre uma surpresa, exactamente, porque são dialécticos.