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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

24.09.20

As academias militares


Luís Alves de Fraga

 

Hoje em dia só os militares e aqueles que o foram no tempo do serviço militar obrigatório (SMO) saberão para que servem as academias militares – Força Aérea, Escola Naval e Academia Militar (do Exército) – pois a carreira castrense tem, cada vez mais, caído em desgraça.

É por causa desse desconhecimento que resolvi escrever o apontamento de hoje.

 

Ao contrário do que pensam alguns militares, as academias não se destinam a diplomar os chamados oficiais subalternos (alferes/subtenente, tenente/2.º tenente); as academias são estabelecimentos que formam para toda a carreira castrense e ministram conhecimentos de base para toda uma vida que começa na graduação mais baixa até à mais alta.

É conveniente ter em atenção que estabeleço a diferença entre formar e ensinar: forma-se quando se actua no domínio do comportamento emocional e social e ensina-se quando se pretende que haja aquisição de conhecimentos. Essa é a razão pela qual os cursos têm uma duração longa, de, pelo menos, cinco a seis anos. É que a mudança comportamental é sempre difícil de fazer, pois passa por um processo de ressocialização.

Não é por acaso que os cursos são ministrados nas academias militares em regime de internato, pelo menos nos primeiros três anos. A condição de aluno interno visa possibilitar a melhor aceitação e integração da formação, ou seja, do moldar da maneira de se comportar, de pensar e agir. Embora seja difícil hierarquizar os aspectos fundamentais da formação, diria que, entre os primeiros, está a capacidade de liderança em todas as circunstâncias e em todos os momentos. Um oficial do quadro permanente das Forças Armadas tem de ser um líder e um decisor para motivar e encontrar soluções quando mais ninguém está em condições físicas e psíquicas de o fazer.

Note-se que um aluno de uma qualquer faculdade somente carece de adquirir conhecimentos, isto é, de saber as matérias consideradas suficientes para a obtenção do grau académico; a alteração comportamental deste aluno resultará, quanto muito, da aplicação dos elementos cognitivos adquiridos. Assim, se se olhar para as academias militares através deste ângulo, percebe-se que, para ser oficial de carreira, não basta papaguear conhecimentos, é fundamental que haja mudanças do foro comportamental – no exterior e no interior do indivíduo.

 

Até há vinte e cinco ou trinta anos, o processo de ressocialização fazia-se sem consciência da sua existência – mas fazia-se – porque não tinha sido analisado à luz da sociologia e da psicologia; era uma prática empírica, ditada pela tradição. Hoje, sabe-se que, a par dos aspectos cognitivos, têm especial peso os aspectos socio-psicológicos para provocarem a alteração comportamental do jovem civil que entra para as academias e delas sai um oficial formado para suportar uma carreira diferente e especial.

Este tipo de formação é completamente diverso daquele que se ministra a um jovem que, com habilitações literárias próprias, se oferece para servir como oficial durante um determinado período de tempo. E não podia deixar de ser. Vejamos a explicação.

 

O jovem oficial, chamemos-lhe miliciano – porque não é de carreira – , somente carece de saber executar um conjunto de acções que estão, no plano hierárquico, limitadas, no máximo, aos postos de alferes e tenente; deve ser capaz de liderar um número restrito de subordinados, geralmente, com baixo nível cognitivo; quase sempre não se exigem, deste oficial, grandes capacidades de decisão e de interpretação, porque, no desempenho das suas funções, vai ser um elo de transmissão vocacionado para a execução. Assim, a formação – entenda-se socialização – que lhe é dada não prevê alterações comportamentais duradouras; bastam as necessárias ao desempenho temporário de certas missões militares.

 

No passado, foi frequente concorrerem – em especial à Academia Militar (a do Exército) – jovens sargentos e oficiais milicianos – gente que era já militar entrada nas fileiras por outras vias de recrutamento – havendo para com eles tratamento diferenciado. Assim, os sargentos ‒ mesmo que do quadro permanente ‒, ficavam sujeitos ao internato, às mesmas regras impostas aos cadetes e a fardar como eles; aos oficiais milicianos, embora obrigados a todo o ritual castrense imposto aos cadetes, era-lhes dispensado o regime de internato.

Na minha opinião ‒ atendendo a que fui fazendo análises e estudos sobre o comportamento militar, os quais me permitiram leccionar duas cadeiras basilares para a compreensão do processo formativo (Deontologia Militar e Sociologia Militar) ‒ carecem de ser explicadas as anteriores diferenças, identificando-lhes os erros.

 

Deste modo, parecendo desnecessário o regime de internato para os sargentos, ele é fundamental, porque todas as vezes que, antes, eles estiveram em tal regime (recruta) o objectivo estava delimitado na e pela função. Ora, nas academias militares, o objectivo é diferente, pois visa muito mais alto do que ser mero soldado sem graduação ou de baixa graduação; visa uma nova forma de estar na vida castrense.

Pelo motivo anterior, é um erro não ser (ou não ter sido) imposto aos oficiais-alunos (os provenientes de milicianos) o regime de internato, pois, eles também, só tiveram, antes, formação militar limitada às funções que se esperava viessem a desempenhar como oficiais subalternos (alferes e tenentes).

Para melhor compreensão, julgo poder socorrer-me de um exemplo.

‒ Será que um enfermeiro, com alguns anos de prática, poderá e deverá ser dispensado da frequência de certas cadeiras ou do estágio hospitalar se se propuser fazer o curso de medicina?

Parece-me elementar a resposta negativa! Por ser, e por haver analogia, é lógico que qualquer militar deve ficar sujeito ao tratamento que se dá aos cadetes, pois não há que separar aprendizagem académica de aprendizagem comportamental.

 

Não fui exaustivo, mas, creio, terei explicado o essencial para se perceber a diferença entre um oficial miliciano e um oficial passado pelas academias militares.

Há, infelizmente quem, sendo militar, não queira ou não saiba explicar e compreender estas coisas.

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