Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

20.02.20

Ambiguidades


Luís Alves de Fraga

 

O pensamento de Karl Marx, plasmado nas suas obras, em particular no longo tratado de Economia Política a que chamou O Capital, foi, no tempo, uma síntese de várias reflexões devidas a filósofos, economistas e historiadores. Teve a virtude de saber juntar o pensamento disperso sobre a evolução da sociedade, da técnica e das relações entre o capital e o trabalho, encontrando um núcleo causal e uma possível solução, que desejou universal, intemporal e radical, fundamentada esta em princípios científicos, opondo-se, deste modo, às soluções vulgares na época em que viveu.

Há quem diga que o pensamento de Marx está morto, porque, mais do que morto, está o pensamento marxista-leninista. Ora, cada vez mais me convenço da permanência do pensamento marxista, ainda que veiculado de formas diferentes e, por conseguinte, ambíguas.

 

Fui ver o tão premiado filme sul-coreano, baptizado com o nome de Os Parasitas.

Indiscutivelmente trata-se de uma fita de elevadíssimo gabarito, que começa por nos fazer sorrir, rir e, depois, emudecer.

Basicamente, relata a vida de duas famílias típicas de Seul: uma altamente abastada e outra infortunadamente pobre. Esta vive de dobrar, manualmente, caixas de cartão para embalar pizzas, no que é explorada por uma pequena empresária que, a todo o custo, quer obter o máximo lucro, pagando-lhes o mínimo possível, através de pôr defeitos na forma como as caixas estão dobradas. Apercebemo-nos dos níveis mais baixos da extorsão de trabalho contra salários de miséria.

 

Consequência de pormenores, que não merecem perda de tempo, mas, de alguma forma, cómicos por deixarem a claro as artimanhas usadas para alcançar, por todos os meios, até condenáveis socialmente, emprego para os quatro membros da família pobre na moderníssima vivenda da família rica, chegamos ao confronto visual, moral e social entre a miséria e a abastança, entre o cheiro da pobreza (e este aspecto tem particular importância no desenrolar da trama fílmica) e a sensibilidade de odor da riqueza. Mas, vamos mais longe (se estivermos criticamente atentos) ao percebermos a ingenuidade dos ricos (vivendo da exploração de outros) face à sagacidade, artimanha e imoralidade dos pobres. Ainda chegamos mais longe se formos capazes de compreender como entre os pobres germinam duas formas de estar na vida: a necessidade de sonhar e o imperativo de desenvolver uma total ausência de solidariedade para com quem lhes pode roubar um estatuto de vida alcançado de qualquer modo.

 

O filme vive de um constante confronto entre opostos e semelhantes. De algum modo, há no argumento aspectos que, muito subtilmente, nos recordam as fitas de Charlot, no tempo do cinema mudo, onde se mostram cenas críticas de uma sociedade dividida entre ricos e pobres à procura de modos de sobrevivência.

 

A grande interrogação, que se nos coloca ao sair da sala de projecção, depois de se terem digerido os aspectos mais evidentes da mensagem do filme, é a de saber quem é, efectivamente, parasita de quem: os ricos ou os pobres?

Esta dúvida gerou em mim uma certeza: a mensagem de Karl Marx continua viva e está a ser retransmitida em sul-coreano, através de um filme ganhador de quatro óscares e variados prémios em certames de grande importância internacional. Para perceber isto, para compreender a mensagem do teórico comunista transmitida em longos e cansativos textos, basta ir ver, com apurado sentido crítico, a fita Os Parasitas.

Não se consegue ficar insensível.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.